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Nas cartas dos imigrantes: o dito e o não dito, o sonho e a realidade | Parte 2

 

 

 

 

 

 

Nas cartas dos imigrantes: o dito e o não dito, o sonho e a realidade, parte 2

Por Ana Maria Ludwig Moraes, historiadora

A terra era promissora, mas milagres não aconteciam. Aos imigrantes, vencidas as etapas de decisão, viagem e adaptação à nova terra, começava uma outra jornada que era a de fazer a terra produzir. Era preciso limpar o lote adquirido, construir a casa, fazer a roça, colher, se alimentar e produzir um excedente que lhe permitisse vender e obter algum retorno financeiro. Todo este empenho era movido por sonhos e expectativas. Explicitar em cartas que a decisão tinha sido acertada, era importante para convencer a si próprio, aos que ficaram para trás e aqueles que precisavam de um incentivo para também se lançarem na mesma jornada. Ou para demonstrar que os desafios eram passíveis de serem enfrentados!

Um dos relatos mais interessantes a este respeito, foi legado por Julius Baumgarten¹ em uma carta de abril de 1854, contando sobre sua chegada à Colônia um ano antes: “Depois de meio ano, tudo irá melhor. As verduras estarão em condições de serem aproveitadas, as batatas serão colhidas e haverá milho para as galinhas (…) A aclimatação já estará consumada, a vida da Alemanha esquecida e o homem sensato, que não esteja muito pegado aos costumes alemães, sentir-se-á bem e satisfeito aqui na sua nova pátria.” Entretanto, “(…) Os estômagos alemães se ressentem, especialmente, da falta de pão, manteiga e cerveja, pois, aqui, isso tudo deve ser substituído pela nem sempre boa carne- seca, pelos bolinhos, pelo pirão de farinha de mandioca e pelo feijão preto.”

Como a cana-de-açúcar e a mandioca eram as principais culturas, ele dava uma noção do tempo necessário para a produção e resultado da primeira: “(…) Depois de dezoito meses, a cana estará madura. Corta-se bem junto ao solo, espreme-se o caldo que será transformado em açúcar e cachaça.” Finalizava, dizendo: “mesmo devagar, a colônia certamente terá um futuro bom e firme”.

Fritz Müller, que foi contemporâneo de Julius Baumgarten, em suas memórias publicadas em 1892, detalhou como eram os contatos entre os colonos e como eram feitas as casas: “A única via era o rio. Pelo mato, mais próximo do local da cidade, só picadas estreitas que nem mesmo tiveram as raízes e assemelhados removidos do caminho. As cabanas eram construídas de troncos de palmeira, sem qualquer ferro, paredes de sarrafos de palmeira, amarrados com cipó, cobertura de folhas de palmeira, sem vidraças, com uma pequena desobstrução em volta, separadas uma da outra por longos trechos no meio da mata.”

E sobre a alimentação: “A carne fresca era fornecida ocasionalmente pelas nossas armadilhas silvestres, bem produtivas naquela época. Três vezes ao ano (Páscoa, Pentecostes e Natal), Blumenau também mandava abater uma vaca velha [sic]. Pão, manteiga, leite, ovos e outros, nem por dinheiro se conseguia adquirir.”

Apenas nestes dois fragmentos da correspondência de Baumgarten e Müller, já podemos perceber que em alguns pontos são contraditórios e em outros se ratificam. Isto nos indica que para uma avaliação adequada daqueles tempos é necessário e muito instigante reunir o maior número possível de depoimentos e traçar os perfis de cada autor.

Até a próxima, quando abordaremos sobre os primeiros comerciantes!

 

¹ Blumenau em Cadernos, Ano 1961, ed 07, pág. 124.

 

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