Santa Catarina alcança recorde histórico de doações de múltiplos órgãos

Foto: Luis Debiasi/Agência AL
Foto: Luis Debiasi/Agência AL

 

Antes mesmo do encerramento de 2016, Santa Catarina já alcançou o maior índice anual de doações de múltiplos órgãos da sua história. A Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos e Tecidos de Santa Catarina (SC Transplantes) registrou 217 doações efetivadas de janeiro até a primeira quinzena de novembro. São 14 a mais do que a marca de 2015, até então a maior obtida pelo estado.

De acordo com os dados do terceiro trimestre de 2016, Santa Catarina registrou um índice de 36,2 doadores efetivos de órgãos por milhão de população (pmp). A média nacional foi de 14,4 doadores pmp no mesmo período.

As informações são do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), veículo oficial da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O documento compila dados numéricos de doação de órgãos e de transplantes realizados por estados e instituições em períodos trimestrais.

Destaque internacional

Pela segunda vez consecutiva, Santa Catarina está entre os cinco melhores resultados do mundo em termos de doadores pmp. No ranking internacional estão Croácia e Malta, países que possuem uma população menor do que a do estado. “Se fôssemos um país, estaríamos em segundo lugar no número de doadores”, disse o coordenador adjunto da SC Transplantes, Rafael Lisboa de Souza.

Planejamento e capacitação profissional

Na avaliação do médico, os resultados positivos apresentados pelo estado estão relacionados, principalmente, ao desenvolvimento de um programa de capacitação continuada dos profissionais de saúde ao longo dos últimos dez anos. “Este é o principal fator. O programa já formou mais de 700 profissionais que trabalham em unidades que atendem pacientes graves, como emergências e UTIs em todo o estado.”

Outro fator que contribui para o aumento crescente do número de doações de órgãos em Santa Catarina, segundo Souza, são os indicadores de desenvolvimento socioeconômico e cultural do estado. “Isso facilita um pouco o nosso trabalho, mas o mais importante é a organização do sistema de transplante e a formação dos profissionais”, comentou. “Por exemplo: temos resultados bem diferentes do Paraná e do Rio Grande do Sul. Eles têm melhorado nos últimos anos, desenvolvendo um programa semelhante ao nosso, ou seja, educando os profissionais.”

Conforme o coordenador adjunto da SC Transplantes, o sistema catarinense foi baseado no espanhol, que apresenta os melhores índices do mundo. “A Espanha considera a capacitação profissional um ponto-chave. Isso se reflete na identificação de potenciais doadores no serviço de urgência, no diagnóstico de morte encefálica, na manutenção do potencial doador, na abordagem e no acolhimento da família.”

Aprimoramento

Mesmo com o desempenho exemplar, a SC Transplantes busca aprimorar a sua atuação. De acordo com Souza, a instituição avalia todas as etapas do processo de doação e transplante, desde a identificação do potencial doador até a logística de distribuição dos órgãos. “É algo bastante complexo, mas estudamos todas as etapas. Sabemos do nosso desempenho em cada uma delas, em quais temos que investir mais para podermos melhorar esse processo.”

Uma das metas é diminuir a taxa de recusa dos familiares de possíveis doadores, que é de 35%. “Significa que 35% das famílias abordadas para a doação dizem não. Se comparado ao Brasil, que tem 45%, é um bom desempenho. Mas isso ainda é um pouco alto”, analisou Souza.

O padrão a ser seguido é o da Espanha, referência na área de doação e transplante, onde os casos de recusa familiar representam em torno de 15% do total. “Queremos chegar lá. Por isso, a capacitação profissional é tão importante. Na maior parte das vezes, as pessoas são generosas e solidárias. Mas, se elas estão diante de profissionais que não acolhem, não entendem a situação crítica e não conseguem se comunicar, o desejo de doar pode se transformar numa negativa”, comentou o médico.

Superação

A estimativa da SC Transplantes é encerrar o ano com 240 doações, considerando a média atual de 20 doadores por mês. Dessa forma, o estado atingiria a marca de 13 mil transplantes realizados entre 1999 e 2016.

Neste ano, já foram feitos cerca de 800. Os tecidos e órgãos mais transplantados são córnea, rim, fígado, esclera e medula óssea.

Lista de espera

Conforme dados de outubro de 2016 divulgados pela SC Transplantes, 508 pessoas aguardam na fila por um órgão. A maioria delas espera por um transplante de rim. São, ao todo, 311 pacientes cadastrados.

Confira as estatísticas atualizadas da SC Transplantes.

Quem pode doar

Todos podem doar órgãos e tecidos. Não é necessário deixar nada por escrito, basta comunicar a família sobre o desejo da doação. A retirada de órgãos depende de autorização familiar. Mais informações no site da SC Transplantes.

Por Ludmilla Gadotti, AGÊNCIA AL