quarta-feira, 12 maio 2021
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Novas dicas do Professor Dermes para fazer uma boa redação

 

Por Professor Dermes

Um bom texto dissertativo-argumentativo, e não apenas para concursos ou processos seletivos para universidades, não deve afundar-se no senso comum, além de dirigir-se para o público específico de maneira consciente (linguagem utilizada, estratégias argumentativas, exemplos e outros). Por esse motivo, faremos uma breve reflexão a respeito de Dialética e do público-alvo da redação no ENEM, nos vestibulares e concursos.

 

Dialética

Grosso modo, trata-se da abordagem de um tema de modo a compreender os opostos complementares. A partir da leitura dialética, compreende-se, por exemplo, por que, historicamente, os responsáveis (diretos ou indiretos) pela criação do Movimento dos Trabalhadores Sem-terra (MST) são os próprios latifundiários que insistem em manter suas terras improdutivas. Nesse sentido, entende-se também que a internet, por si só, é um instrumento neutro: o uso que se faz dela pode ser benéfico ou não, conforme as circunstâncias.

O processo dialético pode ser verificado, ainda com mais facilidade, na própria natureza. Para que haja o dia, é necessário haver a noite, e vice-versa. Como são opostos complementares, um não existe sem o outro. O ponto de mutação do dia para a noite é o entardecer. Já o momento de transição da noite para o dia é o amanhecer. O ciclo se alterna de maneira que o novo, calcado no velho, o substitui. Da mesma maneira, para que surja a planta (o novo), a semente (o velho) tem de se transformar: a planta estava contida na semente, a qual se metamorfoseou para não interromper o ciclo da vida.

Por essa forma de leitura e compreensão do mundo, entende-se por que alguém pode, por exemplo, apoiar o MST, porém discordar de algumas de suas ações (como amarrar latifundiários na sala de estar, algo comum nos anos 90, e amplamente veiculado pela mídia); ou ainda, defender a reforma agrária dos latifúndios, mas apenas os improdutivos. Da mesma maneira, é possível abordar o uso da internet de forma mais orgânica, sem endeusá-la, contudo sem também demonizá-la. A dialética auxilia a compreender por que um tema em alta em determinado período literário geralmente está em baixa no período seguinte, bem como de que forma se dão as releituras de tendências da moda com décadas de intervalos.

Em tempo: concordar parcialmente com algo não significa estar em cima do muro, mas tomar partido definido. Aliás, estar em cima do muro já é tomar partido, o que não é nada interessante, nem na vida e nem na redação.

 

Convencer e persuadir

Convencer é provar para alguém que uma tese é verdadeira, que se tem razão. Isso não significa que o interlocutor necessariamente mudará de opinião.

Ex.: Convenço um amigo fumante de que o tabaco é nocivo ao organismo. Entretanto, ele continua a fumar.
Persuadir é provar para alguém que uma tese é verdadeira, de modo a ocasionar a mudança de atitude do interlocutor.

Ex.: Convenço um amigo fumante de que o tabaco é nocivo ao organismo. A partir de nossa conversa, ele deixa de fumar.

Obs.: O objetivo da redação de um processo seletivo para universidades ou concurso público é convencer o leitor virtual da consistência dos argumentos apresentados para a defesa de uma tese, e não persuadi-lo a mudar suas opiniões, crenças e/ou convicções.

 

Leitor virtual

O destinatário do texto. O leitor virtual de uma redação de processo ou concurso público tem o seguinte perfil: culto, bem informado, crítico. É para ele que se escreve o texto, e não para o professor/corretor, na tentativa de agradar-lhe ou de lhe adivinhar os gostos, o pensamento etc. Posso não conhecer-lhe a face, mas sei o seu perfil, o seu contorno.

 

Auditório universal e auditório particular

Auditório universal: público amplo de interlocutores (leitores e/ou ouvintes).

Auditório particular: público específico de interlocutores (leitores e/ou ouvintes).

Os argumentos devem ser elaborados conforme o perfil de dos leitores virtuais de cada auditório. Numa redação de processo seletivo para a universidade ou concurso público (auditório universal), cujo tema seja a legalização do aborto, caso o autor do texto seja contrário a essa prática, não deverá utilizar o argumento de que o aborto é uma agressão à vida, pois a vida é dom de Deus, uma vez que que pode ser contestado por todos aqueles que não acreditam em Deus. Por outro lado, numa comunidade religiosa (auditório particular), o mesmo argumento surtirá efeito entre aqueles que, embora pensem de maneiras diferentes, partilham a mesma fé ou dogmas etc. (exemplo: mesmo acreditando que a vida é dom divino, alguém pode ser favorável ao aborto em determinada comunidade religiosa).

Que tal enviar sugestões para o próximo texto?

Abraço!

 

Ademir Barbosa Júnior (Prof. Dermes) é professor de Literatura, Redação e Interpretação de Textos. É Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde também se graduou em Letras. Desde 1991 leciona do Fundamental à Pós-graduação e compõe bancas de diversos processos seletivos, tendo passado pela Fuvest, pelo ENEM, dentre outros. Autor com mais de 70 livros e 38 revistas especializadas publicados no Brasil e em Portugal e com traduções para diversos idiomas, é apaixonado pelo que faz.

Contatos: ademirbarbosajunior@yahoo.com.br

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