quarta-feira, 22 setembro 2021
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A mãe que lutou para ver seu filho andar

Em 1970, Neomésia Cardoso estava grávida do segundo filho. Sem fazer um exame mais complexo (que também não existia), ela sentia que “ tinha algo diferente” com o bebê em seu ventre. Quando ele nasceu em 02/07/1971, veio a certeza. Seu filho nasceu com má formação congênita. Suas pernas não esticavam. Eram encolhidas e os pezinhos tortos. Suas duas mãos não eram perfeitas e nem fechavam. O primeiro diagnóstico veio ali mesmo, na sala de parto. O médico disse que o bebê nasceu “assim” e nunca andaria, nem teria vida normal, pois talvez nem vivesse muito tempo de vida. Para uma mãe que acabou de ganhar um bebê, ouvir estas palavras, foi terrível.

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Já em casa, no Belchior Baixo (Gaspar), ela debruçou-se na caminha do bebê (com colchãozinho de palha inclusive), e prometeu para si mesma e à ele: “ Mesmo com todos dizendo que ele não vai andar, eu vou tentar, pois não quero que um dia ele esteja deitado no fundo de uma cama e me diga que eu nunca tentei”

Essa frase foi dita na primeira semana de vida do bebê, que recebeu o nome de Salésio Cardoso. A partir daí começou a grande “batalha” na vida da família. Não existia ônibus em Belchior Baixo. Para vir à Blumenau, só dando a volta pela cidade de Gaspar ou cruzando o rio de balsa ou canoa. Como a família não tinha carro, a opção era o rio mesmo. Enquanto ele era bebê, era mais “fácil “ carregá-lo. Mas à medida que foi crescendo, a solução era carregá-lo literalmente nas costas.

O trajeto não era simples. Sair de casa, andar até o rio, atravessá-lo, e andar mais um percurso até chegar no bairro Bela Vista. Depois pegar um ônibus, descer perto do hospital, andar até lá, e depois de ser atendido, fazer todo o percurso de volta. É importante lembrar que o trajeto entre o bairro Belchior e Bela Vista era de estrada de barro. Então, se chovia, fazia frio, ou calor, não tinha opção. Durante todos os anos sempre foram várias buscas de tratamentos, e até viagens à Curitiba. Lá foi dito que poderia ser feito em Blumenau, inclusive as cirurgias.

Naquela época, não havia sido feita nenhuma cirurgia para correção dos membros em Blumenau. O médico tinha receio de fazer qualquer coisa, pois achava que além do menino sofrer, ela não teria resultado esperado. Neste momento mais uma vez, Neomésia tomou uma decisão corajosa, em que quase “obrigou“ o médico a fazer a cirurgia mesmo assim. Ele acabou fazendo. Não só essa. Mas 9 cirurgias nas pernas e pés do Salésio.

Nesta época a família já tinha comprado um carro e a mãe fez a carteira de motorista, para poder trazê-lo ao hospital. Mas, não foram só cirurgias na vida dele. Houve uma época que ele era levado toda semana ao hospital, pois tinha gesso nas pernas. O médico abria na região do joelho, esticava um pouco e fechava novamente o gesso. Um procedimento, feito durante dois anos. Imagine a dor. Infelizmente depois disso, as pernas começavam a encolher novamente. Mas nem isso desanimou essa mãe. Desta vez optou-se por fazer cirurgia nos joelhos e reverter o estado deles.

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Para entender melhor. Se na época as pernas não ficavam retas, com as cirurgias eles não dobrariam mais. E assim foi feito. Mas, em uma das cirurgias, aconteceu uma hemorragia e nesta perna ele teve que usar aparelho mesmo assim, mas na outra apenas uma bota. Então, quando o Salésio tinha 11 anos, ele pode abraçar a sua mãe pela primeira em pé.

Todo ano quando minha mãe Neomésia, levava meu irmão Salésio até o médico que fez a corajosa cirurgia, Dr. Eduardo Ferencz, para agradecê-lo. Em sua humildade, ele dizia ao Salésio: “Não agradeça a mim. Agradeça à sua mãe. Se não fosse por ela, eu jamais teria feito as cirurgias” . Acho que no fundo o Dr. Eduardo, ficava agradecido, pois por causa da esperança, fé e insistência desta mãe. Assim ele pode ajudar outros pacientes com problemas semelhantes.

Como toda mãe, Neomésia quis que o Salésio estudasse e tivesse a sua profissão. Então ela levava ele até Blumenau para fazer o “ginásio”, na Escola Básica Municipal Vidal Ramos. Ela arranjou um emprego de meio período para esperá-lo até o final das aulas. Mais tarde quando ele foi fazer o “científico”, era levado pelo pai, Valdemiro Cardoso, conhecido como Miro. Desde então se formou em Letras e a concluiu uma pós-graduação.

Dona Neomésia é o exemplo de mãe que nunca desistiu, nem se acomodou. Um dia ela reencontrou aquele médico que disse que ele jamais andaria. Fez questão de lembrar quem ela era, e o que ouviu ele dizer há anos atrás. Então chamou o Salésio, que veio caminhando em direção à eles. Sabe aquela expressão “lavar a alma“? Melhor ainda foi ouvir ele admitir que estava errado.

E pensam que a Dona Neomésia parou por aí? Não! Tempos depois que o Salésio estava caminhando, ela resolveu incentivar outra deficiente física, que há mais de 30 anos apenas se arrastava pelo chão com as mãos. Neomésia disse: “ Se o Salésio conseguiu andar, ela também pode“. E, adivinhem quem está conseguindo caminhar hoje em dia ???? Mas essa é outra história…..

Minha mãe não é médica, não faz cirurgias, mas no caso do meu irmão, ela sempre foi a “chefe da equipe”. Sou filha desta mulher persistente, carinhosa, que nos ensina coisas boas, nos passa bons valores, e o melhor: uma mãe guerreira desde sempre!!!

Texto: Marlise Cardoso Jensen

 

Há um ano atrás, os dois, que participam do Coro Misto do Centro Cultural 25 de Julho, participaram de uma turnê pela Alemanha.

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