O Teatro Carlos Gomes, no centro de Blumenau, recebeu por volta das 15h10 desta quinta-feira (19/03/26) um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro. Antes de subir ao palco dos Auditórios Heinz Geyer para a palestra promovida pela empresa H Soldas em comemoração ao seu aniversário de fundação, Arthur Antunes Coimbra — o Zico — concedeu uma coletiva à imprensa no camarim do teatro.
Por cerca de meia hora, o “Galinho de Quintino” falou com a naturalidade e a generosidade de quem nunca se distanciou do público: sobre o carinho que só cresce, sobre o futebol catarinense que perdeu força, sobre o Japão que ajudou a construir, sobre o documentário que chega aos cinemas em abril e sobre as chances do Brasil na Copa do Mundo.
“Depois que parei, o carinho só aumentou”
Aos 73 anos — completados em 3 de março —, Zico chegou a Blumenau e foi recebido com o tipo de reverência que poucos atletas da história conseguem inspirar décadas após se aposentarem. A cena no camarim, com jornalistas ansiosos e admiradores à espera do lado de fora, sintetiza bem o fenômeno. Quando perguntado sobre como é sentir esse afeto de pessoas que, na maioria das vezes, jamais o viram jogar ao vivo, ele foi direto: o amor, disse, cresceu depois da aposentadoria.
“Depois que eu parei, eu acho que aumentou”, afirmou. “Esse carinho, essa admiração passou a vir também dos adversários. Na época que você está jogando, eles fazem as provocações, mas depois que se para vira uma coisa só.” Zico creditou parte desse legado à proximidade que sempre manteve com as pessoas — algo que, segundo ele, é raro nos dias de hoje. “Hoje os torcedores têm muita dificuldade de chegar perto dos atletas. A nossa geração pegava voo normal, ficava em hotel normal, tinha contato com os torcedores de maneira normal.” E encerrou com gratidão: “Sou muito grato aos avós, que passaram para os pais, e agora estão passando para os filhos.”
Santa Catarina e o futebol que encolheu
Falando diretamente para o público blumenauense, Zico reservou um momento para refletir sobre o futebol catarinense. Ele lembrou que Santa Catarina viveu uma era dourada no futebol nacional — quando Avaí, Figueirense, Joinville e Chapecoense chegaram a ter quatro ou cinco representantes na primeira divisão simultaneamente —, mas lamentou a queda acentuada desses clubes nos últimos anos.
“Para falar de Blumenau, vou falar de Santa Catarina, que eu acredito que o Flamengo hoje chega a ser a maior torcida no estado”, disse. Ele foi mais longe: “A gente lamenta hoje não ter esses times [na primeira divisão] — eles tiveram uma queda tão grande, inesperada, para quem é do meio do futebol. Isso para o futebol do estado foi muito ruim.”

A palestra desta noite foi o motivo da vinda a Blumenau, e o tema — liderança — é o que Zico tem levado pelo Brasil em uma série de aparições corporativas. Ao ser perguntado o que o futebol ensinou que pode ser transferido para o ambiente empresarial, ele não hesitou: responsabilidade.
“A maior de todas é a responsabilidade. Você saber que chegou num momento da sua vida em que ela tem que ser sua. Errando ou acertando, você não pode fugir das atitudes que precisa tomar”, disse. Zico passou por praticamente todos os papéis possíveis no futebol — jogador, técnico, diretor, presidente de sindicato, secretário nacional de esportes durante o governo Collor — e garante que a lição é igual em todos eles. “Você não pode se omitir. Tem que falar sempre a verdade, seja aquela que dói — e na maioria das vezes as pessoas que te falam a verdade são as que te querem bem.”
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Ele também atribuiu parte de sua maturidade precoce à convivência com três irmãos jogadores de futebol — Antunes, Nando e Edu. “Quando chegou para mim, já chegou tudo de mão beijada. Eu já sabia mais ou menos que decisão tomar, que atitude tomar.”
“Zico, o Samurai de Quintino”: emoção nas telas em abril
Um dos assuntos mais aguardados da coletiva era o documentário sobre sua vida. Dirigido por João Wainer e com coprodução da Globo Filmes e do SporTV, “Zico, o Samurai de Quintino” chega aos cinemas em 30 de abril — depois de um adiamento em relação à data original, que era o dia do seu aniversário, 3 de março.
“Emoção”, foi a primeira palavra que saiu quando Zico foi perguntado sobre o que o público pode esperar. “Você começa a lembrar de toda uma história, de toda uma vida, os momentos difíceis, os momentos de superação, de determinação”, contou, visivelmente tocado. Ele fez questão de contextualizar: quem for ao cinema não irá atrás de gols. “Vai ver a história de um profissional determinado, que sempre lutou bastante para conseguir os melhores resultados pelas camisas que defendeu.”
O longa inclui depoimentos de ex-companheiros como Júnior e Carpegiani, além de Ronaldo Fenômeno, e utiliza imagens raras e objetos do acervo pessoal do ídolo, entre eles a camisa 10 usada na final do Mundial de 1981.
22 anos no Japão e a seleção que ele ajudou a criar
A relação de Zico com o Japão é uma das mais singulares do futebol mundial. Ele foi jogar no Kashima Antlers — então chamado Sumitomo Metals — em 1991, três anos depois que já havia se aposentado do futebol brasileiro. Permaneceu até 1994 como jogador, depois como diretor técnico e mais tarde como técnico da seleção japonesa, levando-a à Copa do Mundo de 2006. Ainda é embaixador do clube.
“São 22 anos em contato com o Japão”, disse. “A gente vê a evolução do dia a dia.” Ele celebrou o fato de que jovens que viu competir quando ainda eram meninos sub-15, na Copa Zico no Rio de Janeiro, são hoje titulares em grandes times europeus. “Muitos eu tive oportunidade de treinar, de orientar. Isso é uma satisfação muito grande.” Sobre a seleção japonesa na próxima Copa, Zico foi assertivo: “O Japão vem para uma Copa muito mais competitivo, muito mais experiente, com um time muito bem montado. Pode chegar lá na reta final.”

O Brasil está há 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo — desde 2002, no Japão e na Coreia. Zico disputou três edições pela Seleção: 1978 (Argentina), 1982 (Espanha) e 1986 (México), sem conquistar o título em nenhuma delas. É um capítulo doloroso da história do futebol brasileiro, e ele sabe disso melhor do que ninguém.
Sobre o atual técnico da Seleção, Carlo Ancelotti, Zico foi elogioso. “Para mim, ele é um dos maiores treinadores da história do futebol mundial, adora o futebol brasileiro e é acostumado a trabalhar com jogadores do Brasil.” Mas apontou o principal desafio: transmitir comprometimento. “Que Deus o ilumine a saber usar da melhor maneira os jogadores brasileiros e passar esse comprometimento de conquista que ele sempre teve.”
Quanto às chances do Brasil, Zico pregou equilíbrio: “As chances são iguais para todos. A França talvez esteja um pouquinho acima pela manutenção e renovação do seu elenco, mas o equilíbrio no futebol mundial é muito grande.” E recusou opinar sobre convocações: “Treinador tem suas escolhas. Eu fui dez anos treinador e tinha as minhas. Certo ou errado, você não pode abrir mão disso.”

Inevitavelmente, o nome de Neymar surgiu. Zico, fã declarado do camisa 10, foi cirúrgico na análise. Disse que levaria o jogador a uma Copa do Mundo se ele estivesse 100% — e que não existe ninguém igual a ele no futebol brasileiro. Mas reconheceu o problema da falta de continuidade.
“Neymar não é mais um, ele é o um. É diferente. O que se espera dele é outra coisa que se espera dos outros”, disse. “Mas hoje, nas condições atuais, ele não faz falta à seleção — porque não está correspondendo.” E traçou um paralelo com a própria história: “Meu problema em 86 foi esse. Eu tinha uma lesão de ligamento, não podia jogar. Todo mundo me convencendo a ir. No final só eu que me dei mal. Todo jogador precisa de continuidade de jogo para ganhar ritmo, ganhar confiança.”
Após a coletiva, Zico subiu ao palco dos Auditórios Heinz Geyer para a palestra que reuniu colaboradores e convidados da H Soldas, empresa que comemora mais um ano de história no setor industrial de Blumenau.


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