A violência sexual envolvendo ambientes digitais atinge milhões de adolescentes no Brasil. Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (4/03/26) mostra que um em cada cinco jovens entre 12 e 17 anos já sofreu algum tipo de abuso ou exploração sexual mediado por tecnologia ao longo de um período de um ano. Em números absolutos, isso representa cerca de três milhões de adolescentes brasileiros.
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Os dados fazem parte do relatório “Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia”, produzido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com a organização internacional ECPAT e a Interpol, com financiamento da iniciativa Safe Online.
A pesquisa ouviu famílias de todas as regiões do país sobre experiências de abuso e exploração sexual envolvendo o uso de tecnologias digitais. O estudo considera situações em que a internet é usada para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso, tanto em ocorrências totalmente virtuais quanto em casos que também envolvem encontros presenciais combinados pela rede.
Abordagens começam em plataformas abertas
Na maioria das situações relatadas, a violência ocorre exclusivamente no ambiente digital. O relatório aponta que 66% dos casos aconteceram apenas online, principalmente por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de jogos.
Entre as ferramentas mais citadas estão Instagram e WhatsApp, utilizados para o primeiro contato com as vítimas.
O padrão identificado pela pesquisa mostra que os agressores costumam iniciar a aproximação em plataformas com perfis abertos ou públicos, criando vínculos e ganhando confiança. Em seguida, a conversa tende a migrar para canais de comunicação privados, onde a interação fica menos exposta.
Conteúdo sexual aparece como estratégia inicial
A forma mais frequente de violência identificada foi a exposição a conteúdo sexual sem solicitação, mencionada por 14% dos adolescentes entrevistados.
De acordo com o relatório, essa prática pode ser utilizada para habituar gradualmente a vítima a conteúdos de natureza sexual, facilitando a progressão para outras formas de abuso.
Outras situações relatadas incluem:
- 9% receberam pedidos para enviar imagens íntimas
- 5% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de fotos íntimas
- 4% sofreram ameaças de divulgação de conteúdos íntimos
- 4% receberam propostas de conversas de cunho sexual
- 3% tiveram imagens íntimas compartilhadas sem consentimento
- 3% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de encontros sexuais
- 3% tiveram imagens manipuladas com uso de inteligência artificial para criação de conteúdo sexual falso
- 2% foram ameaçados ou chantageados para realizar atos sexuais
Parte dos abusos envolve pessoas conhecidas
O estudo também aponta que 49% dos episódios foram cometidos por alguém conhecido da vítima, principalmente amigos, membros da família e namorados ou pretendentes.
Entre esses casos, 52% dos primeiros contatos ocorreram pela internet, enquanto 27% aconteceram inicialmente na escola e 11% nas próprias casas dos adolescentes.
Muitas vítimas não contam o que aconteceu
Apesar da gravidade das situações, um terço dos adolescentes que sofreram algum tipo de violência não contou a ninguém.
Os principais motivos apontados foram não saber onde buscar ajuda, além de vergonha, constrangimento, medo de não serem acreditados e receio diante das ameaças feitas pelos agressores.
O levantamento também revelou falta de informação sobre o tema. Cerca de 15% das vítimas disseram não saber que essas situações configuram crime, enquanto 12% acreditavam que o ocorrido não era grave o suficiente para ser denunciado.
Entre aqueles que decidiram falar sobre o problema, 24% recorreram a amigos, 12% procuraram a mãe ou outra mulher que exerce papel de cuidadora e 9% contaram ao pai ou a outro homem em posição semelhante.
Acesso constante à internet amplia exposição
O relatório também mostra que o acesso aos meios digitais é praticamente universal entre os adolescentes entrevistados.
Entre eles:
- 45% afirmaram poder usar a internet sempre
- 12% têm o uso restringido pelos pais
- 14% enfrentam limitações impostas por professores
Com essa presença constante no ambiente digital, 37% dos adolescentes relataram ter sido expostos acidentalmente a conteúdo sexual, principalmente por meio de publicações em redes sociais e anúncios online.
Recomendações para enfrentar o problema
Com base nos resultados, o relatório apresenta orientações para diferentes setores.
Governo e sistema de Justiça
- Fortalecer e ampliar investimentos no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente
- Padronizar protocolos de atendimento centrados em crianças e adolescentes em todo o país
- Atualizar leis de proteção diante dos desafios das tecnologias emergentes
- Enfrentar vulnerabilidades que aumentam o risco de abuso e exploração sexual
Famílias e cuidadores
- Oferecer informação, orientação e serviços especializados de apoio
- Promover ambientes familiares baseados em diálogo, confiança e escuta ativa
- Reforçar a educação sobre consentimento, autonomia corporal e relacionamentos saudáveis
Escolas e profissionais do sistema de proteção
- Integrar educação sobre consentimento e proteção digital no ambiente escolar
- Capacitar profissionais para prevenir, identificar e responder a casos de abuso e exploração sexual
Empresas de tecnologia e plataformas digitais
- Fortalecer a cooperação entre empresas para prevenção e resposta à violência
- Implementar salvaguardas eficazes nas plataformas digitais
Sociedade em geral
- Ampliar a divulgação de canais de denúncia acessíveis, seguros e acolhedores
- Promover uma cultura de proteção e responsabilidade coletiva
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