segunda-feira, 27 setembro 2021
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Urda Alice Klueger: O muro de Berlim

Foto: Associated Press

 

Por Urda Alice Klueger

Em 1961, quando construíram o Muro de Berlim, eu tinha nove anos, e mal-e-mal sabia que Berlim ficava na Alemanha. Essas coisas de Alemanha dividida, de pós-guerra, de bloco capitalista e socialista, eram todas coisas das quais eu ainda não tinha consciência. Sabia, porém, como não podia deixar de ser, que a Alemanha havia sofrido muito durante a guerra, pois ouvia as inúmeras histórias das pessoas de Blumenau, que mandavam pacotes com comida e roupa para seus parentes do castigado país, e espantava-me ao saber que as roupas enviadas tinham que ser lavadas uma vez, para não parecerem novas, e outros detalhes assim, coisas que uma criança do pós-guerra, em Blumenau, sempre acabava ouvindo.

Havia, até, uma piada que eu achava engraçada e tétrica, que circulava nessa época, sobre a história de se mandar pacotes com comida para a Alemanha. Uma família escreveu para seus parentes de lá informando que seguia pelo correio (via navio) uma caixa com pó para pudim. Acontece que a avó da família, que vivia aqui em Blumenau, morreu. Ela sempre tinha pedido que, quando morresse, fosse cremada, e suas cinzas enviadas à Alemanha. A família cumpriu seu desejo: cremou a avó, colocou suas cinzas numa caixa, e enviou a mesma, via aérea, para a Alemanha. Seguiu uma carta, também, explicando que estariam chegando as cinzas da avó, só que tal carta se atrasou. Quando chegou a caixa com as cinzas, os parentes de lá acharam que era a caixa com o pó para pudim, e não deu outra: fizeram pudim com as cinzas da avó, comeram a avó. Piada sem graça que circulava em Blumenau na década de sessenta.

Pois bem, a Alemanha, para mim, ainda era aquela do pessoal que fez pudim com a avó, quando, um dia, na igreja, o padre falou sobre uma coisa estarrecedora: uma cidade fora brutalmente dividida por um muro que separara pais de filhos, irmãos de irmãos, amigos de amigos. Pintou as coisas com as piores cores (e as cores eram feias mesmo), e convidou o pessoal da missa para ir ver uma exposição fotográfica sobre o assunto, que passava pela cidade, e que estava exposta no nosso Teatro Carlos Gomes.

Um dia ou dois depois, aquilo ainda estava na minha cabeça, e avisei minha mãe que ia ver a exposição. Creio, hoje, que aquela foi a primeira vez que entrei no nosso imponente Teatro Carlos Gomes, que parecia muito mais imponente ainda por eu só ter nove anos.

Gente, eu não esqueci daquilo até hoje! Sem quem me orientasse na exposição (fora sozinha), devo ter passado horas e horas olhando aquelas fotos e lendo as legendas. Aquilo era muito mais chocante do que o padre falara: as imagens tinham uma força como eu não sabia, uma força que as décadas seguintes aproveitariam com força nos meios de comunicação, mas que, naqueles tempos de rádio, a gente ainda não conhecia.

Cruamente cruel, lá estava o muro tapando as janelas dos prédios, deixando os moradores sem luz. Sem disfarces, lá estavam as guaritas com os soldados armados, que vigiavam a faixa de cem metros, cheia de obstáculos, onde não se podia passar. Lá estavam os rolos de arame farpado, as armadilhas, o terreno minado.

E, o que era pior para mim, lá estava o muro interrompendo as ruas – e se interrompessem a minha rua, e eu não pudesse mais ir para a escola, ou na casa da tia Fanny? A agressão daquelas fotos entrou na minha pequena alma de nove anos com toda a força: acho que foi a primeira vez que dei de cara, mesmo, com a crueldade. O padre já tinha falado que muitas pessoas estavam morrendo metralhadas, por lá, na tentativa de fugir para Berlim Ocidental, e minha imaginação fértil via as pessoas correndo sob o foco dos holofotes e sendo ceifadas por armas poderosas. O horror daquilo ficou indelevelmente marcado na minha vida. Creio que, quando saí de lá, senti alívio: Berlim era muito longe, numa remota Alemanha, país onde se comiam avós pensando-se que eram pudins – aquilo nunca aconteceria na minha pequena realidade de Blumenau.

Quase trinta anos depois, em 1989, quando o muro caiu, eu senti um alívio imenso. A minha angústia de 1961 vivera comigo todos aqueles anos. E eu exultei como os jovens alemães de 1989 exultaram, e, meses depois, vi um pedacinho de muro que um rapaz de Blumenau havia recebido como souvenir: ingênuo e inofensivo, o pedacinho de muro estava numa caixinha de jóias, apoiado sobre algodão. Não parecia ter aquele horror de 1961, mas eu sabia que tinha.

Blumenau, 28 de junho de 1997.

Urda Alice Klueger

O Blumenauense
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