Enquanto boa parte do país busca caminhos para ampliar a oferta de energia, Santa Catarina já ocupa uma posição de destaque no mapa nacional da geração hidrelétrica de pequeno porte. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostram que o estado reúne 255 Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) em operação, o equivalente a 22,3% das 1.140 unidades existentes no Brasil.
Isso significa que uma em cada cinco pequenas hidrelétricas brasileiras está instalada em território catarinense. O número coloca Santa Catarina na liderança nacional, à frente de Minas Gerais, que possui 205 empreendimentos, e de Mato Grosso, com 131. Na sequência aparecem Rio Grande do Sul (123), Paraná (116), São Paulo (82), Goiás (35) e Rio de Janeiro (35).
Essa presença é mais intensa no interior do estado. Das 255 unidades em funcionamento, 91 estão no Oeste e outras 52 no Meio-Oeste, regiões marcadas por rios com potencial para geração de energia. O setor também tem presença no Vale do Itajaí, com 36 empreendimentos, no Sul com 24, no Norte com 23, na Grande Florianópolis com 18 e na Serra com 11.
Mas o cenário atual é apenas parte da história. O governo estadual contabiliza pelo menos 174 novas PCHs e CGHs em diferentes etapas de desenvolvimento, entre projetos, licenciamento e construção, todas cadastradas no Programa Energia Boa. A iniciativa foi criada para acelerar investimentos privados e ampliar a infraestrutura energética, especialmente em áreas rurais.
Segundo o secretário adjunto de Estado de Indústria, Comércio e Serviços, Edgard Usuy, o programa se consolidou como referência nacional ao estimular a expansão da geração limpa. Ele destaca que, mesmo ocupando apenas 1% do território brasileiro, Santa Catarina conquistou a primeira colocação no mais recente leilão de energia da Aneel, resultado que atribui à competitividade dos empreendedores locais e ao ambiente favorável criado pelo programa.

A expectativa é de que ao menos 100 dessas novas usinas que hoje estão na fase de projeto iniciem as obras até 2027. O Energia Boa atua justamente na aceleração de processos ligados a licenciamento ambiental, autorizações e outorgas estaduais, reduzindo etapas burocráticas para tirar os empreendimentos do papel.
Os números mostram o tamanho dessa aposta. Atualmente, as PCHs e CGHs catarinenses somam cerca de 1 gigawatt (GW) de capacidade instalada, volume que representa aproximadamente 20% de toda a geração de energia do estado considerando fontes hídrica, térmica, solar e eólica. Com a entrada dos novos projetos, esse segmento poderá ultrapassar 2,5 GW de capacidade.
Para Usuy, trata-se de uma estratégia voltada ao longo prazo. Segundo ele, muitas das usinas previstas só começarão a produzir energia depois de 2030, mas exigem investimentos e obras iniciadas desde agora para garantir o atendimento da demanda futura.
A expansão da geração vem acompanhada de reforços na infraestrutura elétrica. Em abril, o Governo do Estado e a Celesc assinaram a ordem de serviço para implantação de três subestações e novas linhas de transmissão no Planalto Serrano. O pacote prevê investimento de R$ 411 milhões e tem como objetivo conectar dezenas de empreendimentos planejados para a região.

Entre eles está a PCH Santo Cristo, localizada em Capão Alto, próximo à divisa com o Rio Grande do Sul. Inicialmente, o projeto foi concebido para comercializar energia com o mercado gaúcho. A criação de uma nova subestação da Celesc em Lages, dentro das ações do Energia Boa, abriu caminho para que a produção também seja direcionada ao mercado catarinense.
Além disso, a usina foi contemplada em leilão da Aneel e deverá fornecer energia ao sistema nacional a partir de 2030.
O presidente da Creral, João Alderi do Prado, afirma que a ampliação da rede de transmissão é decisiva para viabilizar os novos empreendimentos. A cooperativa participa dos investimentos na PCH Santo Cristo e em outras três hidrelétricas em desenvolvimento no estado.
No universo das pequenas hidrelétricas existem diferenças de porte. As CGHs possuem capacidade de geração de até 5 megawatts (MW). Já as PCHs operam na faixa entre 5 MW e 30 MW. Acima desse limite, os empreendimentos passam a ser classificados como Usinas Hidrelétricas (UHEs).
Embora produzam menos energia do que grandes barragens, CGHs e PCHs costumam exigir áreas menores para implantação. Em alguns casos, nem mesmo necessitam de reservatórios extensos, característica que reduz a necessidade de alagamentos e diminui os impactos sociais e ambientais associados aos projetos.
Com centenas de usinas em operação e uma nova carteira de investimentos avançando, Santa Catarina consolida uma posição singular no setor elétrico brasileiro. O movimento que começou nos rios do interior agora ganha escala, impulsionado por obras de transmissão, capital privado e uma projeção de crescimento que deve atravessar a próxima década.





