Entrar em outro país não começa quando o avião decola. Começa muito antes, com planilhas, adaptações de produto, estudo de leis, tradução de materiais comerciais e uma pergunta que toda empresa precisa responder: faz sentido vender aqui do outro lado do mundo?
Foi justamente esse caminho que algumas empresas de tecnologia do Vale Europeu passaram a percorrer nos últimos meses. Em vez de apostar na tentativa e erro, elas decidiram estruturar a internacionalização. E os primeiros resultados já apareceram.
A TechLinker, que desenvolve soluções para recursos humanos, passou a disputar editais para feiras internacionais e reformulou sua comunicação para idiomas como inglês e alemão. A MRD Soluções escolheu Portugal como porta de entrada para a União Europeia e Angola como segundo mercado estratégico. Já a Arandu conquistou o primeiro lugar na seleção para uma missão empresarial ao Chile e à Colômbia e agora também avalia oportunidades na Ásia.
Os avanços vieram depois da participação no Programa de Internacionalização da Blusoft, lançado no primeiro semestre deste ano. A iniciativa é gratuita para empresas ligadas à entidade e funciona quase como um “check-up” antes da viagem. Primeiro, cada negócio passa por um diagnóstico em 12 áreas estratégicas. Depois, recebe mentorias, recomendações e acompanhamento para organizar tudo o que envolve a entrada em outro mercado, da estratégia comercial às questões tributárias e regulatórias. O projeto é desenvolvido em parceria com o Sebrae, por meio do Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX).
Para quem olha de fora, pode parecer apenas uma consultoria. Na prática, é a diferença entre chegar preparado ou descobrir as regras do jogo depois de entrar em campo.
A CEO da TechLinker, Aline Rech, resume bem esse processo. “Ele nos ajudou a entender os aspectos regulatórios, fiscais e de mercado, na adequação para o perfil de consumo do novo público, a mapear concorrentes locais e identificar nossos diferenciais competitivos, além de ter proporcionado mentorias e capacitações com especialistas do setor”, afirma.
Na MRD Soluções, o trabalho agora avança para uma nova fase. A empresa prepara materiais voltados ao mercado português, valida contratos, busca parceiros locais e planeja as primeiras demonstrações da plataforma para potenciais clientes. Também avalia temas como registro da marca, proteção de dados, modelo de suporte e adaptação da política de preços ao mercado europeu.
A Arandu também saiu do programa com um roteiro claro. “O projeto foi essencial para começarmos a olhar para a internacionalização de forma mais estruturada. Ele nos proporcionou direcionamento, método e clareza sobre os processos necessários. Recebemos a notícia da missão empresarial não com a preocupação de ‘passamos, e agora?’, mas com a segurança de pensar: ‘Perfeito, já sabemos o que fazer e por onde começar'”, diz a head comercial Millena Singh Paulino.
O momento é favorável. Santa Catarina consolidou a tecnologia como um dos principais motores da economia estadual. Segundo o Observatório ACATE 2025, o setor reúne cerca de 29,4 mil empresas, movimenta R$ 42,5 bilhões por ano, representa 7,75% do PIB catarinense e gera mais de 100 mil empregos. Em 2024, o faturamento das empresas cresceu 11%, enquanto o número de postos de trabalho avançou 7,2%, desempenho acima da média nacional.
É nesse ambiente que iniciativas de internacionalização ganham peso. Afinal, quando uma empresa consegue vender lá fora, ela não amplia apenas sua carteira de clientes. Também traz novos mercados, mais competitividade e conhecimento para um ecossistema que já figura entre os mais relevantes do país.
Com a primeira edição já apresentando resultados, a Blusoft abriu inscrições para uma nova turma. As empresas interessadas poderão conhecer o programa em um evento marcado para 18 de agosto, que inclui apresentação do PEIEX, painel sobre oportunidades e desafios da internacionalização, diagnóstico inicial de maturidade e pré-cadastro dos participantes.
No fim das contas, a internacionalização deixou de ser um projeto reservado às gigantes da tecnologia. Para muitas empresas do Vale Europeu, ela começa com planejamento. E, ao que tudo indica, já começa a render os primeiros embarques.





