Tarifa dos EUA pode tirar mais de R$ 19 bilhões da economia brasileira

Levantamento da CNI revela que Santa Catarina aparece em quarto lugar em perdas absolutas no país, com impacto estimado de R$ 1,7 bilhão.

Foto: divulgação

O clima é de alerta no setor industrial brasileiro. Entra em vigor nesta quinta-feira (1/08) o pacote de aumento de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos importados, e os reflexos para a economia nacional já têm números concretos — e preocupantes.

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Santa Catarina aparece entre os estados mais afetados, com prejuízo estimado de R$ 1,74 bilhão e uma retração de 0,31% no Produto Interno Bruto (PIB), a segunda maior queda proporcional entre todas as unidades da federação.

Os dados são da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em estudo elaborado com base em informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Receita Federal, IBGE e Banco Central. O impacto da medida, anunciada como parte da estratégia protecionista dos EUA, tende a ser sentido de forma desigual no território brasileiro — e o Sul está no centro dessa turbulência.

Estado industrial, impacto direto

Em Santa Catarina, o estrago se explica principalmente pela alta dependência da indústria de transformação nas exportações para os Estados Unidos. O estado mantém relações comerciais relevantes com o mercado norte-americano, especialmente em segmentos como:

  • Obras de carpintaria para construções (14%): U$ 118,5 milhões
  • Motores elétricos (9,7%): U$ 82 milhões
  • Partes de motor (8,5%): U$ 72,3 milhõe
  • Madeira serrada (7%): U$ 59,1 milhões
  • Madeira em forma (6,9%): U$ 58,7 milhões
  • Outros móveis (6,8%): U$ 58 milhões
  • Madeira compensada (6,4%): U$ 54,5 milhões
  • Transformadores elétricos (3,8%): U$ 31,9 milhões
  • Partes e acessórios para veículos (3,6%): U$ 30,8 milhões
  • Carne suína (2,8%): U$ 24 milhões

Mesmo com desempenho expressivo nas exportações norte-americanas, Santa Catarina fechou o primeiro semestre com déficit na balança comercial. Foram importados cerca de U$ 1 bilhão, o que gerou um saldo negativo de U$ 235 milhões.

O RETRATO NACIONAL

No país como um todo, o rombo estimado é de R$ 19,2 bilhões no PIB, além da possível eliminação de mais de 110 mil postos de trabalho. A queda esperada no PIB nacional é de 0,16%, enquanto a economia global pode recuar 0,12%. O comércio internacional, por sua vez, deve sofrer retração de 2,1%, o equivalente a US$ 483 bilhões.

Estados mais prejudicados (impacto no PIB):

  • São Paulo: R$ 4,4 bilhões (queda de 0,13%)
  • Rio Grande do Sul: R$ 1,917 bilhão
  • Paraná: R$ 1,914 bilhão
  • Santa Catarina: R$ 1,74 bilhão (queda de 0,31%)
  • Minas Gerais: R$ 1,66 bilhão

Além do impacto financeiro, Santa Catarina se destaca pelo efeito proporcional sobre sua economia, o que indica uma sensibilidade maior ao comércio exterior com os EUA do que em estados com economias mais diversificadas internamente.

PERDAS POR SETOR

Segundo a CNI, os setores industriais e agropecuários devem sentir os maiores efeitos. Entre os destaques negativos:

Tratores e máquinas agrícolas:

  • Queda nas exportações: -23,6%
  • Queda na produção: -1,86%

Aeronaves e outros equipamentos de transporte:

  • Exportações: -22,3%
  • Produção: -9,19%

Carne de aves:

  • Exportações: -11,3%
  • Produção: -4,18%

Impacto no emprego por setor

A retração afeta diretamente a geração de empregos:

  • Agropecuária: -40 mil postos
  • Comércio: -31 mil
  • Indústria: -26 mil

Esses cortes se espalham por diversas cadeias produtivas ligadas às exportações para os Estados Unidos, o que inclui desde fabricantes de peças e máquinas até frigoríficos e pequenas indústrias de transformação.

COMPLEMENTARIEDADE AMEAÇADA

O comércio entre Brasil e Estados Unidos é marcado por forte complementariedade econômica. Em 2024, a corrente bilateral foi equilibrada:

  • Exportações brasileiras para os EUA: US$ 40,3 bilhões
  • Importações de produtos americanos: US$ 40,6 bilhões

Mais da metade do que é trocado entre os países (cerca de 58%) são bens intermediários, ou seja, insumos utilizados na produção industrial. Também se destacam os combustíveis (19%) e bens de capital (15%), reforçando o perfil produtivo das trocas.

Os Estados Unidos mantiveram superávit comercial com o Brasil durante toda a última década, entre 2015 e 2024. No período, acumularam um saldo positivo de US$ 43 bilhões em bens e US$ 165 bilhões em serviços.

A mudança tarifária ameaça essa integração, principalmente com o Brasil aplicando tarifa real média de apenas 2,7% sobre produtos dos EUA, enquanto os americanos adotam uma política bem mais agressiva. A expectativa do setor industrial é de que o governo brasileiro atue diplomaticamente para mitigar os efeitos e buscar soluções bilaterais que restabeleçam o equilíbrio comercial.

As informações são da CNI (Confederação Nacional da Indústria), com base em dados do MDIC, IBGE, Receita Federal e Banco Central. O levantamento está disponível na internet, para baixá-lo, basta clicar aqui.


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