A reação de Lula às novas tarifas dos Estados Unidos vai além do discurso político. Ela revela uma percepção cada vez mais presente em Brasília: a relação comercial com Washington entrou em uma fase de imprevisibilidade e o Brasil precisará reduzir sua dependência de um único mercado.
O dado mais relevante não é a fala sobre “procurar outros parceiros”. É o fato de que 21% das exportações brasileiras destinadas aos EUA estariam potencialmente ameaçadas, segundo o MDIC. Quando uma fatia desse tamanho passa a conviver com risco regulatório, empresas começam a rever investimentos, contratos e estratégias de longo prazo.
A decisão americana também chama atenção pelo alvo escolhido. Ao incluir o PIX entre os argumentos da investigação, Washington amplia a disputa para além das tarifas tradicionais e entra no terreno da tecnologia financeira. Na prática, a mensagem é que modelos de inovação apoiados pelo Estado brasileiro podem ser vistos como concorrência direta a gigantes privadas americanas.
Há outro elemento importante. Lula afirma ter sido surpreendido porque havia uma negociação em curso com Donald Trump. Se o relato for fiel ao que ocorreu nas conversas bilaterais, o episódio produz um desgaste de confiança. Em comércio internacional, confiança vale quase tanto quanto tarifa. Empresas investem quando conseguem prever as regras do jogo.
Do ponto de vista econômico, o Brasil possui alternativas, mas elas não surgem da noite para o dia. China, União Europeia, Oriente Médio e Sudeste Asiático são mercados capazes de absorver parte da produção brasileira. O problema é que substituir compradores exige logística, certificações, contratos e adaptação comercial. É um processo de anos, não de meses.
A ida de Lula ao G7, inicialmente fora dos planos, mostra que o governo pretende transformar uma disputa comercial em debate geopolítico. Ao associar as tarifas ao enfraquecimento do multilateralismo, o presidente tenta enquadrar o conflito como parte de uma discussão maior sobre regras globais e governança internacional.
No curto prazo, o impacto econômico dependerá menos do anúncio e mais do que acontecerá até 15 de julho, prazo para manifestações sobre o relatório da USTR. O mercado ainda trata a medida como uma ameaça em negociação, não como um fato consumado.
Mas a crise deixa uma lição. Durante décadas, o Brasil conviveu com a ideia de que os Estados Unidos eram um parceiro comercial estável, mesmo em períodos de divergência política. O episódio sugere que essa premissa já não pode ser considerada automática. E, para um país exportador, quando a previsibilidade desaparece, a diversificação deixa de ser estratégia e passa a ser necessidade.





