O Brasil acumulou cinco títulos mundiais em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Em cada uma dessas campanhas, um grupo de jogadores com características técnicas e comportamentais bem definidas foi determinante para o resultado. Com a Copa de 2026 em curso nos Estados Unidos, México e Canadá, vale olhar para esse histórico e identificar quem, na geração atual, apresenta traços parecidos.

1958 e 1962 — Pelé, Garrincha e Didi
Pelé
Tinha 17 anos na Copa da Suécia. Marcou seis gols em quatro jogos, incluindo um hat-trick na semifinal contra a França. O que o diferenciava era a combinação de atributos: cabeceava bem, driblava, distribuía e finalizava com as duas pernas. Quatro anos depois, no Chile, lesionou-se no segundo jogo e ficou fora do restante do torneio — e o Brasil ganhou assim mesmo, o que diz algo sobre o coletivo daquela seleção.
Garrincha
Assumiu o papel principal em 1962. Marcou nas quartas de final e na semifinal, foi eleito o melhor jogador da Copa e carregou o time nas fases decisivas. Seu ponto forte era o drible: curto, repetido, difícil de antecipar. A irregularidade das pernas, resultado de uma má formação óssea, tornava sua movimentação ainda menos previsível para os defensores.
Didi
Meia de construção, responsável pelo ritmo do jogo nas duas campanhas. É creditado a ele a criação da “folha seca”, a cobrança de falta com efeito descendente. Não aparecia nas estatísticas de gols, mas organizava as jogadas que chegavam até Pelé e Vavá.
1970 — O time do tricampeonato
Pelé
Na terceira Copa, aos 29 anos, atuava mais como organizador do que como goleador puro. Seus quatro gols no torneio vieram acompanhados de assistências e participações na construção das jogadas. A seleção de 1970 tinha talentos suficientes ao redor para que nenhum jogador precisasse sustentar tudo sozinho.
Jairzinho
Marcou em todos os seis jogos que o Brasil disputou — feito que nenhum outro jogador repetiu em nenhuma outra edição da Copa. Era um extrema direito com boa finalização e presença física. Sete gols no total, todos em momentos importantes da campanha.
Rivelino
Meia pela esquerda, com um chute forte e preciso. Foi o criador do drible “elástico”. Participou do gol coletivo da final contra a Itália, a jogada que terminou nos pés de Carlos Alberto Torres para o quarto gol brasileiro.
Carlos Alberto Torres
Lateral-direito que subia com frequência e liderava o grupo. O gol que marcou na final — uma chegada em velocidade no final de uma jogada construída pelo time inteiro — ficou entre os mais lembrados da história das Copas.
1994 — O tetracampeonato
Romário
Eleito o melhor jogador da Copa. Marcou cinco gols no torneio e foi decisivo desde as eliminatórias, quando a seleção chegou a correr risco de não se classificar. Não era alto nem particularmente veloz, mas tinha posicionamento preciso dentro da área e drible curto eficiente. O apelido de “São Romário” surgiu da torcida durante as eliminatórias.
Bebeto
Parceiro de Romário no ataque, marcou também cinco gols. Era mais participativo no jogo coletivo, abrindo espaços e criando jogadas que o companheiro finalizava. A celebração do “embala neném” após marcar contra a Holanda nas quartas de final virou uma das imagens mais conhecidas da história da Copa.
Taffarel
Goleiro titular nas edições de 1994 e parte de 1998. Na final contra a Itália, a única decidida por pênaltis até então, defendeu a cobrança de Roberto Baggio e garantiu o título.
2002 — O pentacampeonato
Ronaldo
Oito gols em sete jogos, incluindo os dois da final contra a Alemanha. Voltava de um período longo com problemas físicos sérios, incluindo convulsões na véspera da final de 1998 em Paris. Em 2002, recuperado, mostrou o que o tornava difícil de marcar: velocidade em espaço aberto, bom controle de bola em velocidade e finalização eficiente.
Rivaldo
Atuava entre o meia e o segundo atacante. Marcou gols importantes, incluindo uma bicicleta nas quartas de final contra a Inglaterra. No total, teve oito participações diretas em gols durante o torneio.
Ronaldinho Gaúcho
Com 22 anos, foi titular e participou de momentos decisivos. Contra a Inglaterra, cobrou uma falta de longa distância que surpreendeu o goleiro Seaman. Sua Copa de 2026 foi modesta em gols, mas ele criou situações e manteve o adversário em dificuldades nos jogos que entrou bem.

2026 — Os jogadores que poderão fazer a diferença na geração atual
A seleção chega à Copa sob o comando de Carlo Ancelotti com um grupo experiente no clube, mas que ainda busca regularidade no nível internacional. Alguns nomes chamam atenção pela proximidade de perfil com jogadores das gerações campeãs.
Vinícius Júnior
A semelhança com Garrincha aparece no uso do drible como ferramenta principal de desequilíbrio e na velocidade de arrancada. Eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA, acumula pela seleção onze participações diretas em gols em 27 partidas desde 2023. A diferença em relação a Garrincha está no contexto tático: Vini Jr. pressiona a saída de bola adversária e varia o posicionamento conforme o esquema — algo que a época de Garrincha não exigia.
Raphinha
Capitão do grupo, chegou à Copa após uma temporada consistente no Barcelona sob Hansi Flick. É um dos dois brasileiros entre os 25 melhores jogadores do torneio segundo ranking da emissora norte-americana NBC, ocupando a sétima posição. Assume responsabilidade em momentos decisivos, marca e assiste — perfil parecido com o de Rivaldo em 2002.
Endrick
Centroavante de 18 anos com características físicas e técnicas pouco comuns para a idade: potência, velocidade de arranque e boa finalização. As comparações com Ronaldo jovem aparecem com frequência, com o cuidado que esse tipo de paralelo merece. Por enquanto, é uma promessa com boas credenciais, não uma certeza.
Bruno Guimarães e Lucas Paquetá
Formam o meio-campo criativo da seleção, ao lado de Casemiro. Bruno Guimarães controla o ritmo e recupera bem a bola, perfil parecido com o de Gérson em 1970. Paquetá tem boa visão de jogo e toque preciso, mais próximo do Rivelino criativo do que do Rivelino finalizador.
Marquinhos
Zagueiro experiente, capitão de longa data, consistente defensivamente. Lembra a função que Aldair exerceu em 1994: não o zagueiro de destaque individual, mas o que dá estabilidade para o restante do time jogar com mais liberdade.

Neymar
Neymar também entra nessa lista, mas com algumas ressalvas. Aos 34 anos, o camisa 10 segue sendo um dos jogadores mais talentosos do futebol brasileiro, com visão de jogo, criatividade e capacidade de decidir partidas em um único lance. No entanto, sua condição física virou a principal incógnita para a Copa de 2026.
Em recuperação de uma lesão muscular na panturrilha e após conviver com diversos problemas físicos nos últimos anos, ele já não depende da explosão de outras épocas. Sua contribuição pode estar justamente na experiência, na qualidade dos passes, nas bolas paradas e na leitura de jogo, atuando como um articulador capaz de potencializar uma geração de atletas que chegam ao Mundial em seu auge físico.
O que os times campeões tinham em comum
Em todos os cinco títulos, havia um jogador com desempenho acima da média — Pelé, Garrincha, Romário ou Ronaldo — inserido em um coletivo funcional. As seleções que chegaram bem equipadas e não ganharam, como a de 1982, falharam em aspectos de coesão ou equilíbrio defensivo nos momentos decisivos.
A geração de 2026 tem qualidade técnica. Se vai ter a consistência dos times que venceram, só os jogos vão dizer. Espero que nossa análise tenha sido boa, mas você pode acrescentar, nos comentários, outros jogadores e as características que considera como seus principais destaques.





