Sob ameaça de greve, governo corre contra o tempo para evitar a paralisação dos caminhoneiros

Com alta de quase 19% no diesel e reajuste da Petrobras que anulou o pacote federal, o ministro dos Transportes anunciou medidas para fiscalizar o cumprimento da tabela do piso mínimo do frete.

Imagem ilustrativa gerada por IA: OBlumenauense

O Brasil vive horas decisivas diante da iminência de uma nova greve nacional dos caminhoneiros. A menos de sete meses das eleições presidenciais, que também definirão deputados federais, estaduais e um terço do Senado, a possibilidade de uma paralisação da categoria acendeu todos os alertas no Palácio do Planalto. O temor é que o fantasma de 2018, quando uma greve de dez dias paralisou o país e tirou 1,2 ponto percentual do PIB, retorne em um momento politicamente explosivo.

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O estopim da mobilização é a disparada no preço do diesel. Levantamentos da Agência Nacional do Petróleo (ANP) indicam que o combustível acumula uma alta de 18,86% desde o final de fevereiro, pressionada pela escalada do conflito no Oriente Médio e seus reflexos no mercado internacional do petróleo.

Lideranças da categoria, como Wallace Landim, o Chorão, da ABRAVA (Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores), e representantes da CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística) e do SINDICAM (Sindicato dos Caminhoneiros de Santos), são os principais articuladores do movimento e afirmam que a decisão de paralisar já foi tomada em assembleias.

“Se não cruzar os braços em greve, a gente para automaticamente, porque não está viável economicamente trabalhar”, declarou uma das lideranças. A orientação inicial, para evitar multas e represálias, é que os motoristas parem em casa ou em postos de combustíveis, sem bloquear rodovias.

O jogo de empurra dos preços

A insatisfação dos caminhoneiros ganhou contornos de crise política após uma sucessão de eventos na última semana. No dia 12 de março, o governo federal anunciou um pacote robusto para conter a alta dos combustíveis: zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel e criou uma subvenção para produtores e importadores. A medida representou um custo de R$ 30 bilhões aos cofres públicos e, segundo o governo, teria o potencial de reduzir o preço do litro em até R$ 0,64.

No entanto, no dia seguinte, a Petrobras anunciou um reajuste de 11,6% (R$ 0,38 por litro) no diesel vendido às distribuidoras. Para a categoria, o aumento da estatal anulou por completo o efeito da desoneração federal. O governo, por sua vez, argumenta que se antecipou à crise internacional e que a medida da Petrobras, embora infeliz, foi necessária para alinhar os preços internos ao mercado global, impactado pelos ataques no estreito de Hormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial.

O impasse federativo e a conta dos estados

Para piorar o cenário, o governo federal esbarrou na resistência dos governadores. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu aos estados que reduzissem a alíquota do ICMS sobre o diesel, mas o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) reagiu duramente.

Os estados alegam que já acumulam perdas bilionárias com cortes tributários desde 2022 e que novas reduções inviabilizariam o financiamento de serviços essenciais como saúde e educação. O ICMS representa cerca de 20% da arrecadação estadual, e os governadores, muitos deles de oposição e candidatos à reeleição, resistem em abrir mão dessa receita em pleno ano eleitoral.

Diante do impasse, o governo mudou a estratégia e endureceu o discurso na fiscalização. Nesta quarta-feira (18/03/26), o Ministério dos Transportes e a ANTT anunciaram medidas para garantir o cumprimento da tabela do piso mínimo do frete, criada após a greve de 2018, mas constantemente descumprida.

As novas regras preveem a suspensão e até a cassação do registro de empresas que pagarem valores abaixo do estipulado. Uma lista pública com os nomes das principais infratoras, incluindo grandes companhias do setor de alimentos e energia, também será divulgada.

Paralelamente, a Polícia Federal instaurou inquérito para investigar condutas graves no mercado de combustíveis, como formação de cartel e preços abusivos, enquanto a ANP intensifica fiscalizações em postos de nove estados e no Distrito Federal.

O tabuleiro eleitoral

A menos de sete meses da disputa presidencial, o risco de uma greve transcende a questão econômica e se transforma em uma potente munição política. Analistas ouvidos pela imprensa apontam que uma paralisação prolongada teria impacto imediato na avaliação do governo e poderia contaminar os índices de intenção de voto.

O desabastecimento de combustíveis, a alta dos alimentos e o caos logístico podem ser explorados pela oposição como símbolo da ineficiência administrativa do atual governo.

Há ainda o componente das redes sociais. Levantamentos indicam que a pauta da greve foi rapidamente amplificada por canais alinhados à extrema-direita, que buscam transformar uma legítima reivindicação econômica em uma narrativa de desgaste do Planalto. A desinformação também entrou em cena, com a propagação de notícias falsas sobre a alta generalizada dos combustíveis para gerar pânico na população.

O governo, ciente do perigo, tenta equilibrar-se entre a negociação com a categoria, o embate com os estados e a necessidade de mostrar controle da situação. “Se não tiver nenhuma sinalização do governo até o final da semana, a greve acontece”, alerta uma liderança dos caminhoneiros. Enquanto isso, o país acompanha com apreensão.


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