Sexta-feira Santa: curiosidades e tradições seculares

Para os cristãos, é ocasião de contemplar o amor extremo e o sofrimento redentor.

Foto: Pixelshot [via Canvas]

Em todo o Brasil e no mundo, milhões de cristãos param nesta sexta-feira (03/04/26) para relembrar um dos episódios mais centrais da fé cristã: a crucificação e morte de Jesus Cristo. Mas além do recolhimento, do silêncio das igrejas e das procissões, a data carrega uma série de curiosidades que vão desde proibições históricas até particularidades gastronômicas e até mesmo científicos.

O significado religioso

A Sexta-feira Santa integra o Tríduo Pascal, que começa na Quinta-feira Santa (com a instituição da Eucaristia e o lava-pés) e termina no Domingo de Ressurreição, a Páscoa.

Neste dia, os fiéis recordam a Paixão de Cristo: a condenação, o caminho do Calvário, a crucificação, a morte e o sepultamento. É um dia de luto, jejum e abstinência de carne vermelha – substituída tradicionalmente por peixes, símbolo do cristianismo primitivo.

Curiosidades sobre a Sexta-feira Santa

A data não é fixa no calendário

Diferentemente do Natal, a Sexta-feira Santa é uma data móvel. Ela é sempre celebrada na sexta-feira que antecede o Domingo de Páscoa. E a Páscoa, por sua vez, ocorre no primeiro domingo após a primeira lua cheia que acontece depois do equinócio de outono no Hemisfério Sul (ou de primavera no Hemisfério Norte). Por isso, a data pode cair entre 20 de março e 23 de abril.

“Sexta-feira da Paixão” e outros nomes

Embora no Brasil predomine “Sexta-feira Santa”, em muitos países de língua inglesa é chamada de Good Friday (Boa Sexta-feira). A aparente contradição – chamar de “boa” o dia da morte de Cristo – vem da crença de que esse sacrifício trouxe a salvação e a reconciliação da humanidade com Deus. Em alemão, é Karfreitag (“sexta-feira da lamentação”).

Silêncio e ausência de sinos

Em várias tradições católicas, os sinos das igrejas não tocam da Quinta-feira Santa até a Vigília Pascal. O silêncio representa o luto pela morte de Cristo. Algumas comunidades substituem os badalos por matracas (instrumentos de madeira que produzem som seco) para chamar os fiéis às celebrações.

A proibição de comer carne vermelha

A prática de não consumir carne vermelha na Sexta-feira Santa é uma forma de penitência e de respeito ao sofrimento de Jesus. O peixe, por ser um animal de sangue frio e historicamente mais acessível a pescadores, acabou se tornando o prato típico. Em muitas regiões do Brasil, a tradição inclui a famosa “bacalhoada” – prato herdado da colonização portuguesa.

O “silêncio” das obras e do comércio

Em diversos países de maioria cristã, a Sexta-feira Santa é feriado nacional e há restrições ao funcionamento de comércios e eventos públicos. No Brasil, é feriado nacional, e muitas cidades proíbem a venda de bebidas alcoólicas ou a realização de shows e festas, em respeito ao caráter religioso da data.

Expressões populares: “Sexta-feira da paixão, não se mexe nem um botão”

Há um ditado antigo que recomenda não realizar trabalho pesado, lavar roupas ou mexer na terra neste dia – crença ligada ao respeito pelo descanso de Cristo no sepulcro e à ideia de que a natureza também chora sua morte. Embora sem fundamento doutrinário oficial, a tradição persiste em áreas rurais do Nordeste e interior do Brasil.

Eventos curiosos ao redor do mundo

Filipinas: alguns devotos se submetem a crucificações reais (com pregos) como forma extrema de penitência, prática criticada pela Igreja local.

Bermudas: é tradição empinar pipas na Sexta-feira Santa, simbolizando a ascensão de Cristo ao céu.

Alemanha: A encenação mais famosa do mundo acontece a cada dez anos em Oberammergau, na Bavária (Alemanha), desde 1634 — quando moradores fizeram uma promessa a Deus para serem poupados da peste. Mais de 2.000 habitantes participam voluntariamente da montagem.

A ciência explica o escurecimento do céu?

Os evangelhos (Mateus 27:45-56) narram que houve trevas sobre a terra desde a hora sexta até a hora nona (meio-dia às 15h) durante a crucificação. Embora muitos vejam isso como milagre, alguns estudiosos especulam que poderia ter sido um eclipse solar – algo raro na data da Páscoa judaica (que ocorre em lua cheia, quando eclipses solares não acontecem). Portanto, o fenômeno permanece no campo da fé.

Seja sob a ótica da fé ou das tradições culturais, a Sexta-feira Santa continua sendo um dos dias mais emblemáticos do calendário ocidental. Para os cristãos, é ocasião de contemplar o amor extremo e o sofrimento redentor.

Para os curiosos, um rico campo de histórias, tabus e costumes que sobrevivem há dois milênios – e que, a cada ano, se renovam nas ruas, nas mesas e nos silêncios das cidades.


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