SC registra aumento de 33% no número de estabelecimentos ligados à cachaça

Estado chegou a 97 estabelecimentos regularizados, além de 537 produtos e 772 marcas cadastradas no Ministério da Agricultura.

Imagem (ilustrativa): OBlumenauense

Coloque dois copos lado a lado. No primeiro, uma cachaça sem passagem pela madeira, transparente e com o frescor da cana mais presente. No segundo, uma bebida dourada, talvez com notas de baunilha, coco, especiarias ou ervas. A matéria-prima é a mesma. A experiência muda completamente.

Essa variedade ajuda a entender os números de Santa Catarina. O estado terminou 2025 com 537 cachaças registradas e 772 marcas comerciais, segundo o Anuário da Cachaça 2026, publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. Um mesmo produto pode aparecer no mercado com mais de uma marca, desde que mantenha a composição e a denominação legal.

A base formal do setor também aumentou. Santa Catarina passou de 73 para 97 estabelecimentos registrados em um ano, alta de 32,9%. O crescimento nacional foi menor, de 21,5%.

Há um cuidado importante nessa conta. Os 97 registros não correspondem necessariamente a 97 produtores ou alambiques. O Mapa considera “estabelecimento elaborador” quem produz, padroniza, envasa ou atua no atacado, desde que possua estrutura e capacidade técnica para essas atividades.

Mesmo com essa diferença, o avanço coloca Santa Catarina na quarta posição nacional em estabelecimentos registrados, atrás apenas de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. O estado também ocupa o quarto lugar em marcas e o quinto em produtos.

A produção formal está presente em 56 municípios catarinenses. Luiz Alves concentra 12 estabelecimentos e 89 cachaças registradas, o que coloca a cidade entre os principais polos brasileiros. Desde 2024, a cachaça e a aguardente do município contam com uma Denominação de Origem concedida pelo INPI, reconhecimento que liga as características da bebida ao território e ao conhecimento dos produtores.

Quando a madeira entra na conversa

A madeira não serve apenas para dar cor. Ela altera aroma, sabor, textura e valor comercial. O Instituto Brasileiro da Cachaça cita amburana, jequitibá, amendoim, bálsamo, ipê, freijó, eucalipto, castanheira, angico, jatobá e diferentes tipos de carvalho entre as utilizadas no país.

Cada uma segue um caminho. O carvalho americano costuma deixar a bebida dourada, com notas de baunilha e coco. A amburana traz aromas frutados, especiarias e leve doçura. O bálsamo puxa para ervas e um toque apimentado. Já o jequitibá-branco quase não interfere na cor, mas ajuda a suavizar o paladar.

Essa diversidade já aparece nos alambiques de Santa Catarina. Segundo a Associação Catarinense de Produtores de Aguardente e Cachaça de Qualidade, as empresas utilizam carvalho francês e americano, amburana, bálsamo, cabreúva, jequitibá e castanheira.

É aí que o barril vira parte do negócio. Uma mesma destilaria pode oferecer versões brancas, descansadas, envelhecidas e misturas de diferentes madeiras. Surgem novos aromas, novas faixas de preço e mais espaço nas prateleiras — justamente o movimento sugerido pelo aumento de produtos e marcas.

Os dados, porém, não mostram quanto Santa Catarina produziu ou faturou. O anuário informa apenas que a Região Sul declarou 41,6 milhões de litros em 2025, queda de 28,2%, sem separar o volume por estado. Portanto, o aumento de registros não significa, por si só, que houve crescimento igual nas vendas. Pode indicar novos empreendimentos, formalização e ampliação dos portfólios.

No mercado externo, o Brasil exportou 7,96 milhões de litros para 76 países e movimentou US$ 17,07 milhões no ano passado. Também não há recorte catarinense. Para os produtores locais, o caminho parece estar menos na quantidade e mais na identidade: território, tempo e madeira. Tudo aquilo que começa a ser percebido antes mesmo do primeiro gole.


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