Saúde vai ampliar atendimento a viciados em apostas e investir R$ 70 milhões no SUS

Casos ligados ao jogo cresceram 104% desde 2018; quase 7 mil pessoas já buscaram ajuda por teleatendimento.

O avanço das apostas no Brasil já começou a aparecer nos números da saúde pública. Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, os atendimentos do SUS relacionados a jogo patológico e mania de jogo cresceram 104%, cenário que levou o governo federal a ampliar a rede de assistência para pessoas afetadas pelas bets.

A resposta virá ainda este ano. O Ministério da Saúde pretende reforçar os atendimentos por telefone e videochamada voltados a jogadores compulsivos, com investimento estimado em R$ 70 milhões até dezembro.

A ampliação será feita por meio da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS), responsável por contratar empresas especializadas para expandir a oferta gratuita de atendimento. O serviço foi lançado em março, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo. Em apenas três meses, já registrou 6.912 usuários cadastrados.

O investimento integra um plano nacional de prevenção, qualificação profissional e ampliação do acesso aos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), criado para reforçar o atendimento a pessoas com problemas relacionados aos jogos de apostas.

Outra frente da estratégia será uma pesquisa nacional inédita sobre os impactos das apostas na saúde dos brasileiros. O estudo receberá R$ 6 milhões e pretende identificar os grupos mais afetados e os principais riscos associados à prática.

Com os resultados, o governo espera aperfeiçoar políticas públicas de prevenção e atendimento dentro do SUS. Parte dos recursos virá dos R$ 45,7 milhões recebidos pelo Ministério da Saúde em 2025 por meio da chamada destinação social das bets. O valor corresponde a 1% dos tributos arrecadados com empresas e apostadores do setor.

No ano passado, a arrecadação total chegou a R$ 4,5 bilhões. Pela divisão prevista na Lei nº 14.790, de 2023, os recursos foram distribuídos entre áreas como esportes, turismo, educação, segurança pública, seguridade social e saúde.

A legislação determina que todo o dinheiro destinado ao Ministério da Saúde seja aplicado em ações de prevenção, controle e mitigação dos danos sociais provocados pelos jogos.

Questionado sobre o impacto financeiro do aumento da demanda por atendimentos relacionados às apostas, o ministério informou que não consegue calcular os custos específicos desses casos. Segundo a pasta, eles estão inseridos em uma rede mais ampla de serviços de média e alta complexidade da Raps, que consumiu aproximadamente R$ 2,5 bilhões em 2025.

Mesmo assim, o órgão afirmou que “a destinação social representa uma fonte relevante de financiamento, complementada com recursos do orçamento próprio da pasta”. Atualmente, o acesso ao teleatendimento em saúde mental começa pelo aplicativo Meu SUS Digital (Android e iOS). Após o cadastro, o usuário pode utilizar o serviço pelo celular ou computador, usando uma conta Gov.br.

Além do atendimento, a plataforma oferece conteúdos sobre sinais de alerta, prevenção e impactos das apostas na saúde mental. Também disponibiliza um autoteste validado por especialistas.

Se o resultado indicar risco moderado ou elevado, o usuário é encaminhado automaticamente para o teleatendimento. Nos casos de menor risco, a orientação é procurar apoio em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou Unidades Básicas de Saúde (UBS).

A Ouvidoria do SUS também está preparada para orientar a população sobre o tema. O atendimento pode ser feito pelo telefone 136, WhatsApp, formulário eletrônico, chatbot ou teleatendimento. Todas as informações seguem as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Os números mostram a dimensão do desafio. Das 10.553 ocorrências relacionadas a jogo patológico e mania de jogo registradas entre 2018 e maio de 2025, 4.316 ocorreram em atendimentos ambulatoriais e 6.237 na Atenção Primária à Saúde.

Os casos são mais frequentes entre homens e pessoas de 20 a 49 anos. Ainda assim, especialistas têm demonstrado preocupação com o aumento de ocorrências entre os mais jovens.

A preocupação também levou à criação de outras iniciativas. Em dezembro de 2025, o governo federal lançou a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta que permite ao usuário bloquear o próprio acesso a todos os sites de apostas autorizados a operar no país.

Até o fim de maio, mais de meio milhão de pessoas já haviam recorrido ao mecanismo.

Em janeiro deste ano, o Ministério da Saúde também lançou o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, voltado ao acolhimento, acompanhamento e tratamento de pessoas afetadas pelos jogos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os problemas com jogos de apostas como um comportamento potencialmente prejudicial à saúde mental. A prática está associada à ansiedade, depressão, outros comportamentos compulsivos e ao aumento do risco de suicídio e autolesão.

Nesta sexta-feira (19/06/26), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o Decreto nº 13.033, que reforça o combate ao mercado ilegal de apostas. Entre as medidas previstas está a possibilidade de usar recursos confiscados de bets clandestinas no enfrentamento ao crime organizado.

Enquanto as apostas ganham espaço na rotina de milhões de brasileiros, o governo tenta acelerar uma estrutura de atendimento que acompanhe o tamanho do problema.


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