Quando a mensagem parece boa demais: cuidado com o golpe do “falso advogado”

Criminosos usam dados reais de processos para convencer pessoas a pagar taxas inexistentes; Assembleia Legislativa de SC alerta para o aumento dos casos.

Imagem: OBlumenauense

O celular notifica que chegou uma mensagem no WhatsApp com alguém se apresentando como advogado. A conversa começa de forma cordial e rapidamente chega a notícia que parece excelente: um processo judicial teria sido ganho e há dinheiro liberado para receber.

::: Siga OBlumenauense no WhatsApp ➡️ Clique aqui!

Mas existe um detalhe — para que o valor seja liberado, seria necessário pagar uma “taxa”, “custas processuais” ou algum “imposto” imediato. O pagamento deve ser feito por Pix ou boleto, geralmente em nome de outra pessoa. É justamente nesse momento que o alerta precisa acender. Essa abordagem pode ser um golpe.

Casos assim têm se espalhado pelo país e já atingiram milhares de vítimas. Diante do aumento das ocorrências, até a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) divulgou um alerta público para orientar a população sobre o chamado “golpe do falso advogado”.

O advogado previdenciário Luiz Carlos Zimmermann, de Blumenau, relatou que recentemente mais de três de seus clientes foram procurados por alguém se passando por ele. As falsificações imitam despachos judiciais de alvarás, entre outros documentos, para convencer a vítima. A imagem usada nesta matéria foi justamente a que o cliente dele recebeu e repassou.

No caso de Luiz, chegaram a usar duas fotos diferentes na abordagem, mas o número de telefone é totalmente diferente do seu, inclusive o DDD. Os colegas de profissão têm se queixado do mesmo problema já há algum tempo.

Fraude que cresce no país

A prática criminosa se aproveita principalmente de momentos de expectativa, como processos judiciais em andamento, pedidos de aposentadoria, indenizações ou precatórios aguardados pelas vítimas.

Os golpistas utilizam informações públicas disponíveis na internet — como dados de ações judiciais — para construir histórias detalhadas e convincentes. Mais recentemente, também passaram a usar recursos de inteligência artificial para tornar a fraude ainda mais realista.

A preocupação com o tema foi destacada pelo deputado estadual Ivan Naatz (PL), que também é advogado, durante pronunciamento na tribuna da Alesc na última semana. Segundo ele, o problema ganhou dimensão de segurança pública e exige atenção redobrada da população.

“Virou uma questão grave de segurança pública. Mas as pessoas podem se prevenir desconfiando de qualquer pedido de pagamento urgente e, nesses casos, buscando contato direto e presencial com seu advogado”, orientou o parlamentar blumenauense.

Naatz também ressaltou que, além do prejuízo para as vítimas, o golpe acaba afetando a própria advocacia, pois levanta dúvidas sobre a integridade dos profissionais e enfraquece a confiança entre cliente e advogado. Com o crescimento das fraudes, escritórios têm adotado procedimentos mais rigorosos de verificação, o que aumenta burocracia, trabalho e custos.

Como os criminosos aplicam o golpe

Na maioria dos casos, o contato é feito por telefone ou WhatsApp. O criminoso se apresenta como advogado, integrante de um escritório ou até como alguém ligado ao sistema de Justiça.

A estratégia inclui informar que a vítima ganhou ou ganhará um processo e que há valores a receber. Em seguida, o golpista afirma que é necessário pagar alguma taxa para liberar o dinheiro.

Para dar credibilidade à história, os criminosos costumam utilizar:

  • nomes e fotos reais de advogados
  • número verdadeiro da OAB
  • dados públicos do processo
  • linguagem jurídica
  • chamadas de vídeo com pessoas vestidas formalmente
  • vídeos manipulados com uso de inteligência artificial

Quase sempre o pagamento solicitado deve ser feito por Pix ou boleto, em nome de terceiros. A urgência faz parte da estratégia para pressionar a decisão da vítima.

Segundo o presidente da OAB de Santa Catarina, Juliano Mandelli, esse é um dos principais sinais de alerta.

“O estelionatário se passa por integrante do sistema de Justiça, muitas vezes por advogado, e informa que a vítima teve ou terá um ganho processual. Diz que, para receber o valor, é necessário pagar custas ou alguma taxa. Na expectativa de receber o dinheiro, a pessoa acaba fazendo o pagamento”, explicou.

Dados da OAB Nacional indicam que mais de 17 mil pessoas já foram vítimas desse tipo de golpe em todo o Brasil.

Casos registrados em Santa Catarina

Em Santa Catarina, a OAB-SC contabiliza centenas de relatos envolvendo uso indevido de nomes e números de registro de advogados. A Defensoria Pública do Estado também registra aumento na procura por orientações. O defensor público Edson Schmitt relata que a própria imagem já foi utilizada por criminosos.

“Eles se apropriam de fotos de defensores públicos ou advogados, além da marca de escritórios, e entram em contato com a parte informando que houve decisão favorável e que há valores a receber. Minha imagem já foi usada, assim como ocorreu em outras cidades”, relatou.

Em vários episódios relatados no estado, vítimas receberam mensagens informando que havia dinheiro liberado em processos que realmente existiam. Depois de realizarem transferências, descobriram que o advogado verdadeiro nunca havia solicitado qualquer pagamento.

Idosos e pessoas que aguardam aposentadorias ou precatórios estão entre os principais alvos. Também há registros envolvendo ações trabalhistas e previdenciárias. Schmitt lembra ainda que a Defensoria Pública oferece assistência jurídica totalmente gratuita, sem cobrança de qualquer valor durante o andamento do processo.

“Não há cobrança de qualquer valor durante o trâmite do processo, muito menos exigência de pagamento antecipado para liberação de valores”, reforçou.

Impacto na relação com clientes

Em alguns casos mais elaborados, golpistas chegam a fazer chamadas de vídeo fingindo ser advogados, promotores ou até magistrados. O destinatário do Pix ou boleto é sempre uma pessoa física usada como ‘laranja’. Criam um cenário de urgência para pressionar a decisão da vítima. Já houve casos em que pediram dados bancários e induziram a pessoa a informar a senha.

Além do prejuízo financeiro para quem cai no golpe, há outros fatores negativos nesse golpe. O tempo gasto para esclarecer fraudes e reforçar orientações preventivas, além do desgaste na relação de confiança entre profissional e cliente.

O que fazer se já caiu no golpe

Caso a vítima já tenha realizado algum pagamento, a orientação é agir rapidamente.

O primeiro passo é entrar em contato com o banco e solicitar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Pix, informando os dados da transação para tentar bloquear o valor na conta que recebeu o dinheiro.

Também é necessário:

  • registrar boletim de ocorrência
  • guardar comprovantes e conversas com o golpista
  • denunciar perfis falsos nas plataformas usadas na fraude
  • Quanto mais rápida for a comunicação, maiores são as chances de reduzir o prejuízo.

Como evitar cair na armadilha

Com o avanço da tecnologia, a atenção continua sendo a principal forma de prevenção.

  • Especialistas orientam a desconfiar sempre que houver pedido de pagamento antecipado para liberação de valores de processos.
  • Antes de realizar qualquer transferência, é fundamental confirmar as informações diretamente com o advogado ou com a instituição por canais oficiais.
  • Também é possível verificar a regularidade do profissional no site da OAB. A OAB-SC também criou a força-tarefa “Contra Golpe” para orientar a população.
  • Outra recomendação é evitar tratar assuntos processuais apenas por mensagens e jamais compartilhar senhas ou dados bancários.
  • Em caso de dúvida, o caminho mais seguro é procurar pessoalmente o escritório ou a Defensoria Pública.

A lógica é simples: quando alguém entra em contato com uma promessa de dinheiro fácil e urgência para pagar taxas, o melhor passo é parar, confirmar e denunciar. Informação circulando é uma das formas mais eficazes de enfraquecer o golpe.

Com informações da ALESC


▶️🛜Siga nossas redes sociais: Youtube | Instagram | X (antigo Twitter) | Facebook | Threads | Bluesky