A tarde da última sexta-feira (15/05/26), em Porto União, no Planalto Norte catarinense, dois labradores caminharam juntos para o descanso depois de anos farejando vidas em meio à lama, mata fechada e tragédias nacionais. Iron, de mais de 10 anos, e Léia, sua filha de quase 8, foram aposentados pelo Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC).
O ato ocorreu durante a cerimônia de passagem de comando da OBM do município e encerrou uma linhagem histórica dentro da corporação. Iron é filho de Brasil, o primeiro cão de busca certificado internacionalmente do CBMSC, morto em 2020. Léia é neta dele. São três gerações da mesma árvore genealógica atuando em operações de resgate no Estado.
A carreira de Iron começou em Xanxerê, no Oeste catarinense, ao lado do cabo Josclei Tracz. Depois de oito anos na região, o cão acompanhou o bombeiro na transferência para Porto União, onde concluiu os dois últimos anos de serviço. Em mais de uma década, o binômio participou de mais de 70 ocorrências e conquistou sete certificações, incluindo uma internacional.
A missão mais conhecida foi Brumadinho. Em janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale matou 272 pessoas em Minas Gerais. Santa Catarina enviou quatro Forças-Tarefa, com 43 bombeiros e sete cães. Iron integrou duas equipes da operação.
“Brumadinho, fomos na primeira equipe, descansamos e depois partimos de novo. Depois teve Petrópolis, Rio Grande do Sul, Presidente Getúlio”, relatou o cabo Josclei Tracz.
Na segunda passagem por Brumadinho, Iron quase precisou abandonar a missão. Um espinho perfurou a pata dianteira direita do labrador, exigindo cirurgia de emergência no hospital de campanha montado pelos bombeiros mineiros. Josclei, que também é médico veterinário, acompanhou o procedimento ao lado do cão.

Iron foi o único cão ferido em mais de 50 dias de atuação catarinense na tragédia. Dez dias após a cirurgia, voltou às buscas e ainda integrou a quarta equipe enviada ao local.
Apesar da projeção das grandes tragédias, a maior parte do trabalho dos cães acontece longe das câmeras. As buscas terrestres por desaparecidos em áreas rurais e de mata fechada formam a rotina mais comum dos binômios catarinenses.
“Busca terrestre é o nosso maior serviço. Principalmente pessoas que se perdem pela mata. Agora nesse inverno, é comum pessoas mais velhas saírem, por exemplo, para colher pinhão e se perder na mata”, explicou Josclei.
Em fevereiro de 2020, Iron localizou um idoso de 86 anos desaparecido havia mais de 24 horas após fugir de um lar de idosos em Xanxerê (SC). O homem estava cansado e desidratado, mas vivo.
Em 2023, em Luzerna (SC), Iron encontrou um homem perdido havia dias em mata fechada perto do Rio do Peixe. O desaparecido estava desidratado e com fome. O resgate só foi possível por embarcação até o trapiche mais próximo, por causa da mata densa e do terreno íngreme.
Nem todas as buscas terminaram em salvamentos. Em Chapecó (SC), no mesmo ano, Iron auxiliou a Polícia Civil em uma varredura num terreno suspeito. O cão indicou um poço cheio de lixo onde bombeiros encontraram ossadas de duas vítimas.
A busca por restos mortais é uma das especialidades de Iron. A modalidade passou a ter certificação específica em Santa Catarina em 2021 e já vinha apresentando resultados nas operações da corporação.

Em 2022, pai e filha atuaram juntos na tragédia de Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde deslizamentos provocados pelas chuvas deixaram mais de 200 mortos. Os dois trabalharam no Morro da Oficina, área mais atingida pelo desastre. “Ficamos 10 dias ali na região do Morro da Oficina, onde teve o deslizamento que levou ao soterramento de mais de 50 casas, com múltiplas vítimas”, relembrou Canever.
Ao longo da carreira, Léia participou de pelo menos 18 buscas oficiais no Planalto Norte e na Serra catarinense. Regiões como Rio Negrinho, São Bento do Sul e Campo Alegre concentraram parte importante das localizações bem-sucedidas da cadela.
No CBMSC, os cães de busca não vivem em canis. Moram com os bombeiros, convivem com as famílias e permanecem disponíveis o tempo todo, em “QAP”, expressão militar usada para indicar prontidão permanente. “A gente tem todo o apego, né. É um vínculo muito forte”, resumiu Josclei.

Santa Catarina foi uma das primeiras corporações do país a adotar o modelo em que o cão vive com o condutor. O treinamento é baseado exclusivamente em reforço positivo. Os cruzamentos são planejados para reduzir predisposições genéticas, como atrofia de retina e displasia de cotovelo.
“Quando estavam os dois juntos em Porto União, eu e o Josclei trabalhamos com nossos cães lado a lado, treinando juntos, foi muito emocionante, pois era pai e filha juntos”, contou Canever.
“Hoje, a Léia está comigo, na minha casa, com a certeza que ela deu o melhor por Santa Catarina. Ela ainda ama a busca, a sensação de encontrar algo, mas agora na brincadeira, sem os perigos da realidade”, concluiu o bombeiro.
Todos os cães operacionais do CBMSC descendem da mesma linhagem iniciada por Brasil. O labrador morreu em fevereiro de 2020, aos 16 anos, depois de cinco anos aposentado. Ao longo da carreira, participou de mais de 100 buscas.
O principal marco foi a atuação no desastre climático de 2008 no Vale do Itajaí, quando enchentes e deslizamentos mataram 135 pessoas. Brasil ajudou a localizar 23 vítimas e abriu caminho para a consolidação do serviço de cães de busca no país.
Além de Iron e Léia, a linhagem segue em cães como Chewbacca, Zaara e Dante. Barney, outro descendente, já morreu. O faro iniciado por Brasil continua espalhado pelas operações de resgate de Santa Catarina.
Com informações do Corpo de Bombeiros Militar de SC





