Os números divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira (14/11/25) sobre o PIB estadual de 2023 apresentam um paradoxo interessante quando se trata de Santa Catarina. O estado cresceu apenas 1,9% — o quarto pior desempenho entre as 27 unidades da federação —, mas conseguiu ampliar sua fatia no bolo nacional, passando de 4,6% para 4,7% do PIB brasileiro.
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Em valores absolutos, Santa Catarina manteve o sexto lugar no ranking nacional, com R$ 513,4 bilhões (ante R$ 466,3 bilhões em 2022), ficando atrás de São Paulo (R$ 3,4 trilhões), Rio de Janeiro (R$ 1,2 trilhão), Minas Gerais (R$ 972 bilhões), Paraná (R$ 671 bilhões) e Rio Grande do Sul (R$ 650 bilhões). Como explicar essa aparente contradição?
A resposta está na consistência. Enquanto outros estados vivem ciclos de expansão e retração mais acentuados, Santa Catarina mantém uma trajetória de crescimento constante, ainda que modesto. É a velha história da tartaruga e da lebre: não é o mais rápido em um ano específico, mas chega mais longe na maratona de longo prazo.
A força da série histórica
Quando ampliamos o horizonte temporal, o desempenho catarinense ganha outra dimensão. Entre 2002 e 2023, o estado acumulou crescimento de 65,2%, com média anual de 2,4% — acima dos 58,2% acumulados pelo Brasil (2,2% ao ano). Mais revelador ainda: nesse período, Santa Catarina foi o segundo estado que mais ganhou participação no PIB nacional, saltando de 3,7% para 4,7%, um avanço de 1,0 ponto percentual.
Apenas o Mato Grosso, impulsionado pelo agronegócio, conseguiu ganhar mais espaço (1,2 p.p.). No outro extremo, São Paulo perdeu 3,4 pontos percentuais de participação, caindo de 34,9% para 31,5% — um sinal claro do processo de desconcentração regional da economia brasileira.
Esse ganho de participação catarinense não é obra do acaso. Reflete uma economia diversificada, com forte presença industrial, setor de serviços robusto e agropecuária pujante. É uma estrutura produtiva que oferece resistência em tempos difíceis e aproveita as oportunidades em momentos favoráveis.
A indústria como pilar — e sua fragilidade em 2023
Santa Catarina ostenta uma peculiaridade nacional: tem a segunda maior participação da indústria de transformação no PIB estadual (22,8%), perdendo apenas para o Amazonas (32,6%), que conta com os incentivos da Zona Franca de Manaus. No Brasil como um todo, a indústria de transformação responde por apenas 15,2% do valor adicionado.
Essa característica é uma bênção e uma maldição. A indústria catarinense, que movimenta R$ 97,8 bilhões e representa quase um quarto da economia estadual, confere ao estado uma vantagem competitiva importante. Mas em 2023, justamente esse setor foi o calcanhar de Aquiles: recuou 1,6%, um dos principais responsáveis pelo fraco desempenho do PIB estadual.
O que aconteceu? A indústria de transformação brasileira passou por dificuldades em 2023: juros elevados, demanda interna fraca, competição externa acirrada. Santa Catarina, por ter uma exposição maior a esse setor, sentiu mais o impacto. É o preço de uma estrutura industrial relevante — quando o vento sopra contra, a vela grande sente mais.
A construção civil, outro termômetro da atividade econômica, também patinou, com queda simbólica de 0,1%. São sinais de uma economia que cresceu, mas sem vigor.
Agropecuária: o destaque que salvou o ano
Se a indústria decepcionou, a agropecuária foi a estrela de 2023. Com crescimento de 10,2%, o setor saltou de 6,1% para 7,1% de participação no PIB estadual, adicionando R$ 30,3 bilhões à economia. É um desempenho notável, especialmente considerando que o Brasil passou por desafios climáticos e oscilações nos preços de commodities.
Esse resultado reforça a importância da diversificação. Estados muito dependentes de um único setor sofrem mais com oscilações. Santa Catarina, com seu mix equilibrado entre indústria (R$ 122,8 bilhões), serviços (R$ 275,1 bilhões) e agropecuária (R$ 30,3 bilhões), consegue compensar fraquezas pontuais com fortalezas em outros setores.
O setor de Eletricidade e gás também brilhou, com alta de 10,5%, movimentando R$ 6,4 bilhões, embora represente apenas 1,5% do PIB. As atividades imobiliárias cresceram 4,7% e chamam atenção por outro motivo: Santa Catarina tem o terceiro maior peso desse setor no PIB estadual (10,0%, ou R$ 43,0 bilhões), atrás apenas de Amapá (10,8%) e Ceará (10,3%). É um indicador de dinamismo urbano e atração de investimentos.
Outros destaques setoriais incluem: Informação e comunicação (4,3%, com R$ 14,2 bilhões), Administração pública (2,9%, gerando R$ 54,7 bilhões e representando 12,8% do PIB), Outros serviços (2,7%, com R$ 66,8 bilhões), Transporte e armazenagem (2,4%, movimentando R$ 14,3 bilhões), e Atividades financeiras (1,1%, com R$ 14,8 bilhões). As Indústrias extrativas, embora pequenas (R$ 806 milhões), cresceram 1,5%.
Serviços: o gigante que perde espaço.
O setor de serviços, como em qualquer economia moderna, é o maior do estado: 64,2% do valor adicionado, ou R$ 275,1 bilhões. Mas há uma tendência preocupante: é o quarto ano consecutivo de perda de participação. Em 2022, os serviços respondiam por 65,4% do PIB.
Essa retração relativa não significa que o setor esteja encolhendo em valores absolutos — ele continua crescendo. O problema é que cresce menos que outros setores, especialmente a agropecuária. É um fenômeno que merece atenção: economias desenvolvidas tendem a ter o setor de serviços cada vez mais relevante. A perda de espaço pode indicar desaceleração nessas atividades ou, alternativamente, um momento de reprimarização da economia.
Dentro dos serviços, o comércio lidera com 15,7% do PIB (R$ 67,4 bilhões), mas perdeu espaço em relação a 2022, quando respondia por 17,0%. É mais um sinal de demanda fraca e consumo retraído. A construção civil movimentou R$ 17,8 bilhões, representando 4,2% do valor adicionado.
PIB per capita: o verdadeiro termômetro do desenvolvimento
Números absolutos impressionam, mas o PIB per capita revela a realidade com mais precisão. E aqui Santa Catarina brilha: R$ 67.459,74, o quinto maior do país, 25% acima da média nacional (R$ 53.886,67).
Mais importante: essa vantagem vem crescendo. Em 2002, o PIB per capita catarinense era 1,15 vez o nacional; em 2023, chegou a 1,25. É um indicador de que o estado não apenas cresce, mas distribui esse crescimento de forma relativamente melhor que a média brasileira.
Santa Catarina supera a média da própria Região Sul (R$ 61.274,54) e está à frente de Paraná (R$ 58.624,33) e Rio Grande do Sul (R$ 59.736,20). Fica atrás apenas de estados com características muito específicas: Distrito Federal (R$ 129.790,44, sede do poder público), São Paulo (R$ 77.566,27, maior economia), Mato Grosso (R$ 74.620,05, commodities agrícolas) e Rio de Janeiro (R$ 73.052,55, petróleo e economia urbana concentrada).
O que esperar daqui para frente?
Os números de 2023 revelam um estado em transformação lenta, mas consistente. Santa Catarina não cresce aos saltos, como Acre (14,7%) ou Mato Grosso do Sul (13,4%), mas também não patina, como Rio Grande do Sul e Rondônia (ambos com 1,3%). O PIB nacional de R$ 10,94 trilhões cresceu 3,2%, com 14 unidades da federação superando essa marca.
O desafio para 2024 e além está em recuperar o dinamismo industrial. A indústria de transformação é o grande diferencial catarinense, e seu recuo de 1,6% em 2023 cobra o preço de um PIB geral morno. Se o setor voltar a crescer, o estado tem potencial para superar os 3% ou 4% de expansão — patamar que garantiria ganhos ainda maiores de participação nacional.
A agropecuária mostrou fôlego, mas é um setor naturalmente mais volátil, sujeito a clima e preços externos. Não dá para contar com 10% de crescimento todo ano.
O setor de serviços precisa de atenção. Quatro anos consecutivos de perda de espaço merecem investigação: é crise estrutural ou apenas um momento de acomodação?
Por fim, a composição do PIB (R$ 428,3 bilhões em valor adicionado mais R$ 85,1 bilhões em impostos) mostra uma carga tributária de 16,6% — em linha com a média nacional, mas sempre um tema sensível para a competitividade.
Santa Catarina, em suma, é um caso de sucesso discreto na economia brasileira. Não faz barulho, não protagoniza manchetes espetaculares, mas segue subindo degraus na escada nacional. É o estado que faz a lição de casa: diversifica, investe, industrializa e mantém as contas minimamente arrumadas.
Os números de 2023 não são motivo de comemoração efusiva, mas também não são alarmantes. São o retrato de um estado que sabe jogar o jogo de longo prazo — e isso, em um país de tantas incertezas, já é um mérito considerável.
Dados: IBGE – Sistema de Contas Regionais 2023
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