
No coração da Baviera, onde a grandiosidade dos Alpes se encontra com a tradição e a hospitalidade alemã, ergue-se o Zugspitze, o ponto mais alto da Alemanha. Este gigante de pedra, com seus imponentes 2.962 metros de altitude, não é apenas um marco geográfico, mas um convite irrecusável a uma experiência inesquecível. A partir da charmosa Garmisch-Partenkirchen, uma jóia incrustada na paisagem alpina, os visitantes embarcam em uma jornada que promete vistas panorâmicas de tirar o fôlego, aventuras emocionantes e um mergulho profundo na rica cultura e história da região.
Mas o que torna o Zugspitze tão especial, além de sua altitude? Desde o século XVI, o pico mais alto das Montanhas Wetterstein é chamado de “Zugspiz”. O próprio nome da montanha carrega consigo ecos de um passado distante e de fenômenos naturais que moldaram sua identidade. Acredita-se que “Zugspitze” derive de “Zugbahnen”, que se refere aos caminhos de avalanche que se formam nas encostas da montanha durante os rigorosos meses de inverno. Essas “Zugbahnen” eram, e ainda são, testemunhas da força implacável da natureza, esculpindo a paisagem com sua passagem e conferindo à montanha uma aura de respeito e, por vezes, de temor.
Ao longo dos séculos, o Zugspitze foi mencionado em diversos documentos e mapas, inicialmente como um ponto de referência geográfico e, mais tarde, como um objeto de curiosidade e, eventualmente, de ambição para os primeiros exploradores. Essas menções históricas, muitas vezes acompanhadas de lendas e superstições, construíram a mística em torno da montanha, transformando-a em um símbolo de inacessibilidade e mistério.
A LENDA DO ZUGGEIST: O ESPÍRITO MALIGNO QUE GUARDAVA O CUME
No ano de 1820, em uma Alemanha ainda desprovida de ferrovias, onde as viagens entre cidades como Munique e Partenkirchen levavam quase dois dias de diligência, as montanhas eram vistas pela maioria das pessoas como terras inóspitas e perigosas. As altitudes elevadas eram consideradas zonas de risco, repletas de fenômenos climáticos imprevisíveis e, mais importante, habitadas por seres misteriosos. Em Partenkirchen, a sabedoria popular, transmitida de geração em geração, afirmava que o Zugspitze era a montanha mais alta, mas também que ninguém jamais havia chegado ao seu cume, e que qualquer tentativa seria uma loucura.
O Zuggeist era descrito como uma criatura infernal, um monstro terrível sobre o qual pouco se sabia, pois aqueles que o encontraram nunca mais retornaram. Acreditava-se que o espírito os empurrava para o abismo, aniquilando-os sem deixar vestígios. Essa superstição era tão arraigada que impedia qualquer tentativa de ascensão, mantendo o cume do Zugspitze como um domínio intocado e temido. A montanha era vista como algo hostil, ameaçador, uma criação divina que deveria ser evitada a todo custo.
Essa lenda não era apenas uma história para assustar crianças; ela moldava a percepção da comunidade sobre o Zugspitze, tornando-o um símbolo de inacessibilidade e perigo. O poder do Zuggeist era tão grande que, mesmo após a primeira ascensão documentada, muitos se recusaram a acreditar que alguém pudesse ter sobrevivido a tal encontro. A ideia de que o cume era inatingível estava profundamente enraizada na mente das pessoas, e o espírito da montanha era o guardião implacável desse reino proibido.

ESPECULAÇÕES SOBRE OS PRIMEIROS CONQUISTADORES
Antes da ascensão documentada de Josef Naus, o Zugspitze era considerado inescalável, envolto em um véu de lendas e superstições. No entanto, é plausível que caçadores de camurças e pastores locais, movidos pela necessidade ou pela curiosidade, tenham se aventurado em suas encostas muito antes de qualquer registro oficial. Esses indivíduos, com seu profundo conhecimento do terreno e sua resiliência, podem ter alcançado pontos elevados da montanha, talvez até mesmo o cume, sem que suas façanhas fossem registradas pela história formal.
O Arquivo Estatal da Baviera contém o registro de uma visita à fronteira feita pelo Chanceler da Corte de Freising, Joseph Sedlmayer, em 1759. Nele consta: “O chamado Zugspitz é a montanha mais alta que se pode escalar e ter uma vista panorâmica de toda a região, não apenas da Baviera, mas também de toda a cordilheira tirolesa.”
No verão de 1820, soldados bávaros chegaram às cidades de Garmisch e Partenkirchen. Sua missão: vigiar a fronteira entre a Baviera e a Áustria nas montanhas Wetterstein. Entre eles o tenente Josef Naus, encarregado de realizar medições no vale do Loisach para o Escritório Topográfico da Baviera. Entediado com sua tarefa rotineira, Naus concebeu um plano audacioso: escalar o Zugspitze. As razões exatas para essa decisão permanecem um mistério, mas especula-se que fossem uma mistura de curiosidade científica, o desejo de novas descobertas e a busca por aventura em tempos de paz.
Ele reuniu alguns companheiros: o tenente Anlitschek, o capitão von Jetze, seu criado Meier e Johann Georg Deuschl, de Partenkirchen, como carregador. Em 26 de agosto, partiram de Partenkirchen e pernoitaram em uma cabana de pastores no Reintal. O diário de Naus revela que a noite foi atormentada por pulgas, forçando-o a passar metade dela acordado, matando os insetos. Na madrugada de 27 de agosto, a expedição começou a subida, enfrentando o terreno acidentado e o clima imprevisível.
Após uma tentativa frustrada, o capitão von Jetze e o tenente Anlitschek decidiram retornar. Naus, no entanto, persistiu. Acompanhado por seu criado e pelo guia Deuschl, ele fez uma nova tentativa, que, após enfrentar perigos mortais e um esforço extraordinário, foi bem-sucedida. Às 11h45, eles alcançaram o cume do Zugspitze, um feito inédito na história. A falta de tempo e material os impediu de construir uma pirâmide, mas um pequeno bastão com um lenço amarrado serviu como prova de sua conquista.
AS SUBIDAS ESQUECIDAS E AS CONTESTAÇÕES
Apesar do feito heróico de Naus, sua conquista foi recebida com ceticismo em Garmisch. A crença no Zuggeist era tão forte que a maioria das pessoas se recusava a acreditar que ele havia retornado vivo. A ideia de que o cume era inatingível estava tão enraizada que a primeira ascensão do Zugspitze caiu no esquecimento. Dez anos depois, os anais bávaros ainda descreviam o Zugspitze como um pico impossível de ser escalado, afirmando que até os mais audaciosos caçadores de camurças não haviam conseguido passar do primeiro cume no final do Schneeferner.
No entanto, a história revela que o Zugspitze foi escalado pela segunda vez apenas três anos após a expedição de Naus. Dois moradores locais, o mestre de obras Simon Resch, de Partenkirchen, e o pastor “Schaftoni”, do vale de Hinterreintal, realizaram a façanha. Enquanto Naus havia alcançado o cume oeste, Resch e Schaftoni escalaram o cume leste, onde construíram uma grande pirâmide de pedras. Mesmo com o testemunho de Georg Deuschl, o carregador de Naus, que afirmou ter visto a pirâmide do Platt, a conquista de Resch também não foi acreditada.
Determinado a provar sua façanha, Resch retornou ao cume onze anos depois, em 18 de setembro de 1834, acompanhado por seu filho de quinze anos, Johann, e por Hanni Barth, um carpinteiro de Partenkirchen. Esta terceira ascensão também foi recebida com desconfiança, e só foi confirmada quando um espectador imparcial, o proprietário do Kainzenbad, que havia seguido a expedição até o Schneeferner, testemunhou a presença dos três no cume e espalhou a notícia no vale.

O SURGIMENTO DOS PRIMEIROS GUIAS: DESBRAVANDO O INEXPLORADO
Na terceira ascensão, Hanni Barth levou uma corda que foi de grande utilidade para Simon Resch e seu filho, tornando-o o primeiro guia do Zugspitze. Embora essa ascensão ainda fosse questionada por alguns locais, ela parece ter sido um forte incentivo para novas tentativas. Apenas nove dias depois, em 27 de setembro de 1834, ocorreu a quarta ascensão, realizada pelos assistentes florestais Oberst e Schwepfinger, acompanhados por Resch e Hanni.
No ano seguinte, uma nova expedição ao Zugspitze foi organizada. Sob a liderança de Hanni, participaram o assistente florestal Oberst (que já havia estado no cume com Hanni), o médico Dr. Einsele de Berchtesgaden, o assistente florestal Satori de Garmisch e o carregador Urban de Farchant. Esta quinta ascensão foi a primeira a ter uma descrição abrangente desde o diário de Naus. O Dr. Einsele relatou suas experiências no “Deutsches Hausbuch” de Guido Görres, descrevendo as dificuldades enfrentadas, como a travessia de uma fenda perigosa e a escalada de uma chaminé rochosa.
FÉ NAS ALTURAS: MONTANHISMO E RELIGIÃO
A presença de cruzes nos cumes das montanhas alpinas é uma tradição antiga, que remonta a séculos. No Zugspitze, essa tradição se manifesta de forma proeminente com a famosa cruz dourada no ponto mais alto, um marco icônico que não apenas simboliza a conquista do cume, mas também a fé e a espiritualidade que muitos montanhistas e visitantes encontram nas alturas. A primeira cruz de cume no Zugspitze foi erguida em 1851, por iniciativa do padre Christoph Ott, que organizou uma expedição com 28 carregadores para levar a cruz até o topo.
Além da cruz no cume, a capela localizada no Zugspitzplatt, a cerca de 2.600 metros de altitude, é outro exemplo marcante do entrelaçamento entre religião e montanhismo. Carinhosamente conhecida como a igreja mais próxima do céu na Alemanha, esta singela e bela capela oferece um refúgio de paz e serenidade, convidando à contemplação e à oração em meio à grandiosidade alpina. Ela serve como um local de culto para os trabalhadores da montanha, montanhistas e visitantes.

A POPULARIZAÇÃO DA MONTANHA E A CHEGADA DAS FERROVIAS
Apesar das lendas e das dificuldades iniciais, o fascínio pelo Zugspitze cresceu exponencialmente ao longo do século XIX. A curiosidade científica, o desejo de aventura e a busca por paisagens intocadas impulsionaram cada vez mais exploradores e alpinistas a tentar a conquista do cume. Com o tempo, as ascensões tornaram-se mais frequentes e organizadas, e a figura do guia de montanha, como Hanni Barth, tornou-se essencial para garantir a segurança e o sucesso das expedições.
O verdadeiro divisor de águas na popularização do Zugspitze foi a chegada das ferrovias. A construção da Bayerische Zugspitzbahn, um trem de cremalheira inaugurado em 1930, revolucionou o acesso à montanha, tornando-a acessível a um número muito maior de pessoas. Essa obra de engenharia monumental, que serpenteia por túneis e paisagens deslumbrantes, permitiu que visitantes de todas as idades e condições físicas chegassem perto do cume com conforto e segurança.
O ETERNO FASCÍNIO PELO ZUGSPITZE
O Zugspitze, com sua imponente presença nos Alpes Bávaros, é muito mais do que o ponto mais alto da Alemanha; ele é um palco onde a história, a lenda e a modernidade se entrelaçam em uma narrativa fascinante. Desde os tempos antigos, quando o temido Zuggeist guardava seus segredos, até as audaciosas primeiras ascensões que desafiaram o sobrenatural, a montanha sempre exerceu um poder magnético sobre a imaginação humana. As histórias de coragem, as contestações e o surgimento dos primeiros guias moldaram a percepção de um lugar que, por muito tempo, foi considerado inatingível.
Hoje, o Zugspitze é um vibrante centro turístico, acessível a milhões de pessoas graças à engenhosidade das ferrovias e teleféricos. No entanto, mesmo com toda a modernidade, o eco das lendas ainda ressoa em seus vales e picos. A capela nas alturas e a cruz no cume são testemunhos da fé que acompanha a jornada, enquanto a beleza intocada da paisagem continua a inspirar reverência. O Zugspitze é a prova de que a natureza, mesmo domada pela tecnologia, nunca perde seu encanto, convidando a todos a experimentar a grandiosidade dos Alpes em uma experiência verdadeiramente inesquecível.

Clay Schulze (@clay.schulze) é Presidente Do Centro Cultural 25 de julho de Blumenau e integrante do Männerchor Liederkranz, Coro Masculino Liederkranz do Centro Cultural 25 de Julho de Blumenau
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