O eco dos Alpes: Oesch’s die Dritten e o renascimento do Jodeln

A coluna Hallo Heimat, de Clay Schulze, explora como uma tradição vocal nascida nas montanhas da Europa Central encontrou nova vida nos palcos internacionais através da família suíça Oesch.

Da tradição familiar nas montanhas suíças aos palcos internacionais: a família Oesch mantém viva a herança do Jodeln através da banda Oesch's die Dritten. | Foto: Divulgação.

QUANDO A MONTANHA RESPONDE EM FORMA DE CANTO

Algumas tradições parecem inseparáveis da paisagem onde nasceram. O Jodeln, o canto alpino que alterna rapidamente entre registros vocais, é uma delas. Surgido entre os vales montanhosos da Suíça, da Áustria e do sul da Alemanha, esse estilo vocal produz saltos melódicos que lembram o eco natural entre montanhas. Para quem o escuta pela primeira vez, o som pode parecer curioso; para quem conhece sua história, ele carrega séculos de identidade cultural.

O valor dessa tradição ultrapassa o campo da música. Em 2018, o Jodeln foi reconhecido pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial da Suíça, integrando um conjunto de práticas tradicionais que incluem também o toque de alphorn (trompas alpinas) e o canto coral rural. O reconhecimento reforça o papel do jodel como uma expressão viva da cultura das regiões alpinas.

Antes de chegar aos palcos e gravações modernas, o jodel fazia parte da vida cotidiana nas montanhas. Pastores utilizavam esse tipo de canto para se comunicar entre encostas distantes, chamar rebanhos ou enviar sinais entre aldeias separadas por vales profundos. A própria geografia — com rochedos que ampliam e devolvem o som — ajudou a moldar essa forma singular de expressão vocal.

O CANTO QUE NASCEU ENTRE OS VALES ALPINOS

Ao longo do século XIX e início do século XX, o Jodeln consolidou-se como uma das expressões mais marcantes da cultura popular das regiões alpinas. Festivais de canto — conhecidos na Suíça como Jodlerfeste — passaram a reunir intérpretes de diferentes cantões, fortalecendo a tradição e criando espaços de celebração coletiva.

Nesses encontros, cantores apresentavam variações do estilo, combinando o canto com instrumentos típicos da música regional. Com o tempo, estudiosos passaram a identificar diferentes formas técnicas do jodeln suíço, como o Singjodel (jodel cantado de forma melódica), o Kehljodel (produzido com forte uso da garganta) e o chamado Tröhljodel (um estilo tradicional caracterizado por ressonância profunda e som mais robusto).

Apesar dessa diversidade técnica, a essência permanece a mesma: uma forma de canto profundamente ligada à vida nas montanhas. Mesmo em uma época dominada pela música digital e pelas plataformas de streaming, o jodel continua sendo um símbolo cultural forte — uma herança musical que conecta gerações.

Jodlergruppe Ostrachtal, representa a tradição alpina

 

UMA HERANÇA MUSICAL TRANSMITIDA ENTRE GERAÇÕES

Entre os artistas que ajudaram a manter essa tradição viva, poucos nomes ganharam tanta projeção quanto Oesch’s die Dritten, uma banda suíça que transformou o canto alpino em um fenômeno internacional.

A história musical da família começa com Hans Oesch, avô da atual geração de músicos. Em 1971, ele fundou o Trio Oesch, um conjunto familiar dedicado à música popular das montanhas suíças. O grupo apresentava repertório tradicional e rapidamente se tornou conhecido em festivais regionais e encontros de música folclórica.

Hans Oesch era mais do que músico: era um entusiasta da cultura musical alpina. A família vem do Oberland Bernês, região da Suíça conhecida como um dos grandes centros da tradição do Jodeln e da Volksmusik. Ali surgiram diversos festivais e encontros de cantores alpinos, criando um ambiente cultural onde o jodel sempre esteve presente na vida cotidiana.

Foi nesse ambiente que seus filhos cresceram. Ensaios aconteciam frequentemente na sala de casa, instrumentos estavam sempre à mão e apresentações em festas locais faziam parte da rotina familiar. A música não era apenas profissão — era parte da vida cotidiana.

A TERCEIRA GERAÇÃO ASSUME O PALCO

No início dos anos 2000, uma nova geração decidiu continuar essa história. Surgia então Oesch’s die Dritten — literalmente “os terceiros”, referência direta à terceira geração de músicos da família.

A formação reúne Hansueli Oesch, sua esposa Annemarie, e os filhos Melanie, Kevin e Mike, além do acordeonista Urs Meier. Desde o início, a proposta era clara: preservar o espírito da música montanhosa tradicional, mas apresentá-la de forma vibrante e acessível para novos públicos.

O grupo rapidamente chamou atenção por sua energia em palco. O repertório combina jodel, Volksmusik, folk alpino e arranjos contemporâneos. Essa mistura cria um som que agrada tanto aos amantes da tradição quanto a ouvintes que descobrem o jodel pela primeira vez.

Oesch’s die Dritten – Heimat

A VOZ QUE LEVOU O JODEL PARA O MUNDO

No centro desse sucesso está Melanie Oesch, considerada hoje uma das Jodlerinnen (cantoras de jodel) mais reconhecidas da atualidade.

Desde muito jovem, Melanie demonstrou talento vocal e grande presença de palco. Seu estilo combina domínio técnico com uma abordagem rítmica e expressiva do canto alpino, criando interpretações que mantêm a tradição, mas soam modernas e vibrantes.

Nos concertos da banda, seu entusiasmo é evidente. Melanie não apenas canta jodel — ela o vive. Essa intensidade emocional se transforma em energia no palco e ajuda a explicar a forte conexão que o grupo estabelece com o público.

Reconhecida como uma das vozes mais marcantes do jodel contemporâneo, ela também recebeu homenagens dentro do próprio universo do canto alpino, incluindo sua inclusão no Yodel Hall of Fame, reconhecimento dedicado a artistas que contribuíram para preservar e expandir essa tradição musical.

QUANDO O ECO DOS ALPES ATRAVESSA FRONTEIRAS

Com o crescimento da popularidade na Suíça, Oesch’s die Dritten passou a aparecer em programas de televisão na Alemanha e na Áustria, ampliando rapidamente sua audiência. A exposição abriu portas para turnês internacionais e apresentações em festivais culturais em diversos países.

Ao mesmo tempo, vídeos de suas apresentações começaram a circular amplamente na internet. Essa visibilidade digital levou o jodel a públicos que jamais haviam tido contato com a tradição musical alpina.

Hoje, a banda é frequentemente citada como uma das principais representantes contemporâneas desse estilo de canto, levando o eco das montanhas suíças para plateias ao redor do mundo.

Oesch’s die Dritten – Älpler & Bluemechind

HÄNDMADE: TRADIÇÃO ALPINA NA ERA DIGITAL

O capítulo mais recente dessa trajetória é o álbum “Händmade”, título que remete à palavra alemã Handgemacht — algo feito artesanalmente, com as próprias mãos.

O disco reforça justamente essa ideia: música construída a partir da tradição familiar, mas apresentada com linguagem contemporânea. As novas canções ganharam destaque durante a Händmade Tour 2025, considerada pela própria banda como a turnê mais bem-sucedida de sua carreira.

HALLO HEIMAT CONVERSA COM MELANIE OESCH

Para compreender melhor como essa tradição continua viva no século XXI, a coluna Hallo Heimat conversou com Melanie Oesch, uma das vozes mais reconhecidas do jodel contemporâneo. Na entrevista a seguir, ela fala sobre suas memórias de infância, o aprendizado do canto alpino, a vida musical em família e os novos caminhos do jodel no cenário internacional.

Hallo Heimat – Você começou a “jodelar” ainda muito jovem. Como foi esse processo de aprendizado? Ele surgiu naturalmente dentro da sua família ou houve algum momento específico — uma pessoa, uma experiência — que despertou em você o desejo de dominar a arte do jodeln?

Melanie Oesch: Cresci em uma família musical. Meu avô e meu pai tocavam em duas bandas naquela época e também acompanhavam um dos primeiros quartetos de jodel da Suíça. Eles costumavam ensaiar em nossa casa e, quando éramos crianças, às vezes podíamos participar. Eu sempre gostei de jodelar e dizia, desde muito pequena, que um dia queria fazer isso. Meu pai, que também jodelava quando era menino, me ensinou os primeiros passos e canções. Mais tarde comecei a praticar sozinha, às vezes acompanhando outros estilos de música. Rapidamente percebi que gostava mais do jodel rítmico, então comecei a praticar até conseguir dominar os tempos e técnicas que imaginava ou que ouvia de outros jodelistas, como Peter Hinnen ou Vreny Staldemann.

Oesch’s die Dritten – Es gibt wohl kein Leben (Küherleben)

Hallo Heimat – O jodel é uma técnica ancestral, mas sua interpretação apresentou esse canto a novas gerações. Como você enxerga seu papel como uma ponte entre tradição e modernidade?

Melanie Oesch: As técnicas continuam sendo basicamente as mesmas. Aqui na Suíça costumamos falar em cinco tipos de jodel: o jodel cantado, o jodel de garganta, o Tröhljodel, o jodel de língua e o bullet jodel. Eu gosto de combinar essas diferentes técnicas e colocar as partes de jodel dentro de um ritmo, para que o jodel também tenha groove. Há muito tempo me vejo como uma construtora de pontes e me sinto muito confortável nesse papel. Acredito que o jodel é para todos, e fico muito feliz quando ele permanece tradicional, mas ao mesmo tempo aberto a novas formas e combinações.

Hallo Heimat – Seu canto exige grande domínio técnico. Como você equilibra a precisão vocal com a energia das apresentações ao vivo, mantendo o jodeln acessível para novos públicos?

Melanie Oesch: Esse é realmente o grande desafio. Nossos concertos são longos e muitas vezes duram duas horas ou mais. Claro que também canto outros estilos de música, mas as canções de jodel são as mais intensas. Eu realmente exijo muito da minha voz e, depois de vários concertos seguidos, preciso de alguns dias para que ela se recupere. Eu não apenas canto o jodel — eu o vivo. E isso muitas vezes faz a diferença. Adoro quando meu entusiasmo por esse estilo de canto contagia o público e cria uma sensação de fascínio e euforia.

Hallo Heimat – A banda foi fundada por seu avô Hans Oesch e hoje está na terceira geração. Como essa dinâmica familiar influencia o processo criativo — tanto nos momentos de inspiração quanto nos de desafio?

Melanie Oesch: Meu avô fundou o Trio Oesch, a primeira banda da família, em 1971. Oesch’s die Dritten foram independentes desde o início; meu avô nunca fez parte da banda. No entanto, nos primeiros anos havia muitas apresentações conjuntas com o Trio Oesch. Naturalmente, ele e, principalmente, meu pai estabeleceram a base do nosso atual entendimento musical e nos ensinaram muito sobre temperamento, ritmo e interpretação. Estar no palco como família e trabalhar juntos tem vantagens e desvantagens. Às vezes nos entendemos sem palavras, e isso é mágico. Mas também existem momentos em que acabamos atrapalhando uns aos outros justamente porque nos conhecemos bem demais.

 

Oesch’s die Dritten – Jodelmedley

Hallo Heimat – A música brasileira possui muitos ritmos e tradições fortes, e o Sul do Brasil tem uma profunda ligação com a cultura germânica. Você já conheceu algum estilo, artista ou música brasileira que tenha chamado sua atenção?

Melanie Oesch: Sim, já ouvi falar de alguns deles. Vi vídeos de Luiz Gonzaga no YouTube. E também gosto muito da Bruna Viola. É impressionante o tamanho da cena musical de vocês.

Hallo Heimat – O novo álbum Händmade foi muito bem recebido pelos fãs. O que inspirou sua criação e como está sendo a turnê de 2025 dedicada à divulgação desse trabalho?

Melanie Oesch: Sim, o novo álbum foi muito bem recebido, e é interessante ver como as diferentes músicas foram acolhidas em diferentes regiões da Suíça e também ao redor do mundo. A Händmade Tour 2025 foi a turnê mais bem-sucedida que já fizemos, e estamos extremamente felizes com isso. Infelizmente, o álbum não foi muito promovido pela gravadora e pela empresa fonográfica, então estamos tentando fazer isso por conta própria através de nossas redes sociais. Como resultado, em 2025 conseguimos alcançar mais pessoas ao redor do mundo com nossa música do que nunca. Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer a todos os nossos fãs e amigos por esse apoio incrível.

Hallo Heimat – Como autora, você publicou dois livros infantis. Essas histórias têm alguma ligação com a cultura alpina, com a música ou com as tradições que inspiram sua vida artística?

Melanie Oesch: As histórias são uma mistura da minha imaginação com muitas lembranças maravilhosas da minha infância. Quero transmitir que, mesmo vivendo em um mundo moderno e digital, nunca devemos perder nossas raízes e nossa conexão com a natureza. O livro também fala sobre valores que são importantes para mim, como respeito, cuidado e gratidão. E, no fim das contas, a música realmente é a chave para a felicidade.

 

Clay Schulze (@clay.schulze) é Presidente do Centro Cultural 25 de Julho de Blumenau, além de integrante do Männerchor Liederkranz e da Blumenauer Volkstanzgruppe.

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