A nova tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros deixou de fora alguns dos principais itens vendidos pelo Brasil ao mercado norte-americano. Entre eles estão produtos da aviação civil, petróleo, carne bovina e café, que juntos representaram cerca de um terço das exportações brasileiras para os EUA no primeiro semestre deste ano.
A decisão foi anunciada na quarta-feira (15/07/26) pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). Além desses produtos, também escaparam da sobretaxa itens como celulose, minério de ferro, ferro-gusa, laranja e suco de laranja.
Nem todos os setores tiveram o mesmo resultado. Permaneceram sujeitos à nova tarifa produtos como ferro e aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, medicamentos, máquinas agrícolas, máquinas elétricas que não atendem ao setor aeronáutico e outros bens manufaturados.
Segundo os Estados Unidos, as exceções foram concedidas porque esses produtos brasileiros não são fabricados internamente em quantidade suficiente ou a preços considerados adequados. A intenção é evitar desabastecimento e impactos na economia e no mercado consumidor norte-americano.
As tarifas entram em vigor no próximo dia 22 e foram definidas após uma investigação conduzida pelo USTR. O órgão norte-americano afirmou que determinadas práticas adotadas pelo Brasil seriam injustificadas e acabariam onerando ou restringindo o comércio de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores dos Estados Unidos.
O governo brasileiro reagiu à medida afirmando que não reconhece a legitimidade da investigação realizada pelo USTR e que não existe justificativa para a imposição das novas tarifas. Também informou que iniciará imediatamente os procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, além de voltar a discutir o caso no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A exclusão do café foi recebida de forma positiva por entidades que representam a cadeia produtiva. Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) afirmaram que o resultado é consequência das ações desenvolvidas desde o primeiro tarifaço, em 2025, incluindo a participação nas audiências públicas promovidas pelo USTR nos dias 6 e 7 de julho.
Em nota conjunta, as entidades destacaram que o trabalho realizado em parceria com a National Coffee Association (NCA), com apoio dos importadores norte-americanos, garantiu dois resultados considerados importantes: a manutenção dos cafés que já estavam na lista de exceções da investigação da Seção 301 do USTR e a ampliação dessa lista, que passou a incluir também o café solúvel não aromatizado entre os produtos isentos da nova cobrança.
As entidades afirmam que a decisão protege exportações brasileiras de café estimadas entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano para os Estados Unidos, principal consumidor e importador mundial da bebida. Segundo elas, isso também reforça a posição do Brasil como maior produtor e exportador global de café e parceiro considerado insubstituível para o mercado norte-americano.
Apesar disso, ABIC, ABICS e Cecafé alertam que ainda existe uma segunda investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Caso avance, ela poderá resultar em uma nova tarifa de aproximadamente 12,5% sobre o café brasileiro. As entidades afirmaram que continuarão atuando para defender a sustentabilidade, a qualidade e a competitividade do café brasileiro, buscando representar os interesses de toda a cadeia produtiva.

Indústria vê cenário mais difícil
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou que acompanha com preocupação o anúncio da nova tarifa. Para a entidade, a medida amplia a insegurança para empresas brasileiras e norte-americanas e agrava um cenário que já vinha pressionando as exportações.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos vêm sendo sentidos pela indústria brasileira. Segundo ele, 20 dos 27 estados reduziram as exportações para o mercado norte-americano no primeiro semestre e a nova sobretaxa tende a aumentar a perda de competitividade da indústria nacional. Alban também defendeu esforços para reverter esse cenário e preservar a relação comercial construída entre os dois países.
De acordo com a CNI, desde o início das tarifas adotadas em 2025, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. A redução foi puxada pela queda de 8,7% nas vendas de produtos industriais, principalmente semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e produtos semimanufaturados de outras ligas de aço. Mesmo com essa retração, os Estados Unidos continuam sendo o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira.

Fiesc vê impacto maior em Santa Catarina e projeta perda de até 25 mil empregos
Na avaliação da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), o segundo tarifaço dos Estados Unidos deve atingir a economia catarinense com intensidade maior do que a média nacional. Segundo a entidade, mais de 80% dos produtos exportados pelo estado para o mercado norte-americano serão atingidos pela nova medida, o que representa cerca de 56% do valor das vendas de Santa Catarina aos EUA.
A Fiesc afirma que, entre mais de 1.300 produtos exportados pelo estado, 518 terão uma piora na competitividade em relação aos concorrentes internacionais. Outros 608 produtos continuarão enfrentando perdas semelhantes às do primeiro tarifaço, mas com uma pequena melhora, em geral entre dois e três pontos percentuais.
Entre os setores mais afetados estão as portas de madeira, principal produto catarinense exportado aos Estados Unidos. Segundo os cálculos da entidade, a desvantagem competitiva frente aos concorrentes internacionais passa de 24,7 para 26,8 pontos percentuais. Nas obras de marcenaria para construção, essa diferença sobe de 23,2 para 26,6 pontos percentuais.
Há alguns segmentos que apresentam redução nessa desvantagem, embora continuem enfrentando um cenário difícil. É o caso da madeira compensada, cuja diferença cai de 30,3 para 25,9 pontos percentuais, e da carne suína congelada, que passa de 28,9 para 27,3 pontos percentuais.
A entidade compara os efeitos esperados com os resultados observados após o primeiro tarifaço. Na ocasião, as exportações catarinenses para os Estados Unidos recuaram 38,5% e, segundo a FIESC, cerca de 7,6 mil empregos deixaram de ser gerados em razão da queda na demanda pelos produtos do estado.
Para a federação, a nova rodada de tarifas deve produzir um impacto semelhante sobre as exportações. A diferença, segundo a análise, é que Santa Catarina depende mais dos produtos atingidos do que a média brasileira. Enquanto boa parte das exportações nacionais permaneceu isenta das tarifas, a pauta exportadora catarinense concentra itens sujeitos à cobrança.
A FIESC calcula que a tarifa efetiva aplicada às exportações brasileiras caiu de 23,8% no primeiro tarifaço para uma estimativa de 20,7% nesta segunda rodada. Em Santa Catarina, porém, a tarifa efetiva passou de 47,8% para uma projeção de 35,9%, percentual ainda considerado elevado pela entidade.
Com base em simulações econômicas e nos resultados registrados desde 2025, a Fiesc estima que, se o novo tarifaço permanecer em vigor por mais um ano e meio, Santa Catarina poderá perder entre 20 mil e 25 mil empregos. A projeção atualiza estudos anteriores da federação, que trabalhavam com cenários de perdas entre R$ 400 milhões e R$ 2,8 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB), dependendo da intensidade da queda nas exportações.
Impacto do tarifaço em Santa Catarina
Exportações afetadas ████████████████████████████ 56%
Tarifa efetiva (1º) ████████████████████████ 47,8%
Retração prevista ████████████████████ 40%
Queda das exportações ███████████████████ 38,3%
Tarifa efetiva (novo) ██████████████████ 35,9%





