Morre aos 91 anos o ator e dramaturgo Juca de Oliveira

Artista estava internado no Hospital Sírio-Libanês desde o dia 13 de março devido a pneumonia e problemas cardíacos.

Juca de Oliveira - 26° Prêmio da Música Brasileira 2015, no Theatro Municipal, no Centro do Rio de Janeiro/RJ. | Foto (10/06/15) : Roberto Filho/Divulgacão

O ator e dramaturgo Juca de Oliveira morreu na madrugada deste sábado (21/03/26), aos 91 anos, em São Paulo. Um dos maiores nomes da história da televisão e do teatro brasileiro, o artista estava internado na UTI cardíaca do Hospital Sírio-Libanês desde o dia 13 de março, quando deu entrada com um quadro de pneumonia associado a uma condição cardiológica.

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A morte foi confirmada pela família em nota à imprensa na manhã deste sábado. “Com pesar, comunicamos o falecimento do ator, autor e diretor Juca de Oliveira, ocorrido neste madrugada de 21 de março de 2026, aos 91 anos. Reconhecido como um dos grandes nomes das artes cênicas brasileiras, Juca de Oliveira construiu uma trajetória sólida e admirada no teatro, na televisão e no cinema”, diz o comunicado divulgado pela família .

O velório será realizado no Funeral Home, na Bela Vista, centro da capital paulista, das 15h às 21h deste sábado.

De bancário a ícone das artes

Nascido José Juca de Oliveira Santos em São Roque, interior de São Paulo, no dia 16 de março de 1935, Juca começou sua vida profissional de forma modesta: chegou a cursar Direito na Universidade de São Paulo (USP) e trabalhou em um banco. Mas a vocação artística falou mais alto.

Após um teste vocacional indicar sua inclinação para as artes, Juca ingressou na Escola de Arte Dramática de São Paulo, onde conheceu nomes como Glória Menezes e Aracy Balabanian. Sua estreia nos palcos aconteceu com a peça “Frei Luis de Sousa”, que rendeu um convite para integrar o prestigiado Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) , onde atuou em montagens como “A Semente” e “A Morte do Caixeiro Viajante”.

“Eu descobri, naquele momento, que eu podia ser um ator. Foi absolutamente genial”, declarou o artista em depoimento ao projeto Memória Globo sobre a descoberta da vocação.

Resistência cultural e exílio

Nos anos 1960, Juca de Oliveira assumiu um papel de protagonista não apenas nos palcos, mas também na política e na resistência cultural. Ao lado de nomes como Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Paulo José e Flávio Império, ele liderou o Teatro de Arena, transformando o espaço em um polo de resistência contra a ditadura militar.

Membro do Partido Comunista Brasileiro, Juca foi perseguido pelo regime e viu o Teatro de Arena ser fechado pelos militares. A perseguição política o forçou a se exilar na Bolívia.

“Fiquei entusiasmadíssimo, porque Flávio Rangel, Boal e Guarnieri, homens tão importantes, estavam sendo procurados, e eu, que não era absolutamente ninguém, também. Por um lado, fiquei em pânico, mas por outro meu ego ficou insuflado”, relembrou Juca ao Memória Globo. “Paulo José falava assim para mim: ‘Você não está sendo procurado por talento, é por política. Não fica alegrinho, não’. Aí baixei um pouco a bola”.

Após retornar ao Brasil, sua trajetória política continuou: em 1968, assumiu a presidência do Sindicato dos Atores de São Paulo, lutando por melhores condições de trabalho, como limite de horas de gravação e prazo para memorização de textos.

Uma carreira de sucesso na televisão

A estreia de Juca na televisão ocorreu ainda em 1964, na TV Tupi, com a novela “Quando o Amor é Mais Forte” . Foi também na Tupi que ele protagonizou “Nino, o Italianinho”, um dos primeiros grandes sucessos da teledramaturgia brasileira.

Em 1973, migrou para a TV Globo, onde consolidou sua carreira como um dos grandes nomes da emissora. Ao longo de mais de 40 anos de contrato, participou de mais de 30 novelas e minisséries, além de dezenas de especiais.

Entre seus papéis mais marcantes estão:

  • João Gibão na primeira versão de “Saramandaia” (1976), um personagem que escondia asas sob o casaco e voava sobre a cidade de Bole-Bole;
  • Professor Praxedes em “Fera Ferida” (1993);
  • Dr. Augusto Albieri em “O Clone” (2001-2002), o geneticista obcecado pela clonagem humana que realizou a inseminação artificial em Deusa para clonar seu afilhado Diogo;
  • Santiago Moreira em “Avenida Brasil” (2012), o pai e mentor da vilã Carminha;
  • Dr. Natanael Montserrat em “O Outro Lado do Paraíso” (2017-2018), seu último trabalho na televisão.

Sobre seu personagem em “O Clone”, Juca se emocionava ao recordar: “Esse personagem tem uma particularidade excepcional do ponto de vista do texto. Eu fico até arrepiado quando penso nisso. É muito bonita a maneira como ele se refere à dor da perda daquele menino que era toda a sua vida, que dava sentido inclusive à sua existência. A perda é tão grande que daí ele parte para a construção de um igual para substituir”.

Legado no teatro e na literatura

Apesar do sucesso na televisão, Juca de Oliveira nunca abandonou sua primeira paixão: o teatro. Ao todo, atuou em cerca de 60 peças, muitas delas também escritas por ele . Em 1990, venceu o prêmio de melhor autor no Prêmio APETESP de Teatro com a comédia romântica “Qualquer Gato Vira-Lata Tem Uma Vida Sexual Mais Sadia Que A Nossa”.

Em 2017, foi eleito membro da Academia Paulista de Letras, consolidando também sua contribuição para a literatura brasileira. Nos últimos anos, Juca dividia seu tempo entre o teatro, os palcos que nunca deixou, e a administração de sua fazenda de gado de corte.

Uma despedida sentida

A morte de Juca de Oliveira representa uma perda significativa para a cultura brasileira. Em seu comunicado, a família agradeceu as manifestações de carinho e solidariedade recebidas. Com uma trajetória que atravessou mais de seis décadas, o artista deixa um legado que marcou gerações de espectadores e influenciou inúmeros atores que vieram depois dele.

Desde os palcos revolucionários do Teatro de Arena até os estúdios da TV Globo, passando pelo exílio político e pela consagração popular, Juca de Oliveira construiu uma obra que é, ela mesma, parte fundamental da história da arte no Brasil.


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