Medicamentos lideram intoxicações em SC e casos cresceram quase 60% em cinco anos

Pesquisa da FURB aponta alta nos atendimentos entre 2020 e 2024 e acende alerta para os riscos da automedicação.

Imagem (ilustrativa): OBlumenauense

Um remédio para aliviar a dor ou controlar uma doença pode virar um risco quando usado da forma errada. Em Santa Catarina, os medicamentos foram os principais responsáveis pelas intoxicações registradas entre 2020 e 2024, segundo uma pesquisa desenvolvida no curso de Biomedicina da Universidade Regional de Blumenau (FURB).

O levantamento foi realizado pelos estudantes Milene Mayara Wartha e Murilo Nepomuceno Fiamoncini, com orientação da professora Ana Paula Dalmagro, doutora em Ciências Farmacêuticas. O objetivo é dar visibilidade ao tema e chamar atenção para um problema que pode causar complicações graves e até levar à morte.

As intoxicações são alterações provocadas por agentes nocivos ao organismo na concentração em que a pessoa foi exposta. “As intoxicações causam efeitos deletérios como reações alérgicas, dores de cabeça e alterações sanguíneas, por exemplo. Mas dependendo do grau de exposição, podemos ter complicações graves”, explica Dalmagro.

Os dados analisados vieram do Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (CIATox/SC), unidade pública de referência no Estado em toxicologia clínica. Os registros mostram crescimento contínuo no número de atendimentos: foram 17.643 casos em 2020 e 28.201 em 2024, um aumento de quase 60% no período.

Segundo os autores do estudo, esse avanço pode refletir tanto um aumento das ocorrências quanto uma procura maior pelo serviço de orientação oferecido pelo CIATox.

Os medicamentos lideraram os registros durante todo o período analisado. Só em 2024, foram mais de 8 mil casos relacionados a esses produtos, cerca de 50% a mais do que em 2020. Antidepressivos, anti-inflamatórios e analgésicos aparecem entre os principais envolvidos.

Para a orientadora da pesquisa, o resultado chama atenção porque muita gente associa intoxicações apenas ao uso de drogas ilícitas ou a acidentes com animais peçonhentos. Na prática, substâncias presentes no dia a dia estão entre as maiores responsáveis pelos registros.

Os autores apontam que automedicação, uso de doses incorretas e combinações inadequadas de medicamentos podem contribuir para esse cenário. Os resultados também acompanham o que já foi observado em estudos nacionais, que colocam os medicamentos como os principais causadores de intoxicações humanas no Brasil.

Na sequência aparecem os acidentes com animais peçonhentos e venenosos. Os registros passaram de cerca de 4 mil em 2020 para 6 mil em 2024. Produtos de limpeza, produtos químicos residenciais e industriais, agrotóxicos e drogas de abuso completam a lista dos principais agentes causadores de intoxicações no Estado.

Os autores alertam que os números reais podem ser ainda maiores, já que o levantamento considera apenas os casos que geraram atendimento no CIATox.

O estudo também identificou que jovens adultos entre 20 e 29 anos concentram o maior número de registros. Automedicação, uso de substâncias psicoativas e questões relacionadas à saúde mental ajudam a explicar esse cenário e reforçam a necessidade de ações de educação em saúde voltadas a essa faixa etária.

As crianças pequenas também exigem atenção. A curiosidade típica da idade aumenta o risco de acidentes envolvendo medicamentos, produtos químicos e outras substâncias tóxicas. Entre os casos que terminaram em morte, as drogas de abuso aparecem como principal causa, seguidas pelos medicamentos e pelos agrotóxicos.

Vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, o CIATox oferece atendimento gratuito 24 horas por dia, todos os dias da semana, para orientar a população e profissionais de saúde em casos de exposição a medicamentos, produtos químicos, agrotóxicos, plantas tóxicas, drogas de abuso e acidentes com animais peçonhentos. O serviço também auxilia na identificação de espécies e indica os locais adequados para atendimento e tratamento. O contato pode ser feito gratuitamente pelo telefone 0800 643 5252.

O levantamento reforça que o risco nem sempre está em situações extremas. Em muitos casos, começa com um remédio usado da forma errada.


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