Lula e Trump abrem negociação sobre comércio, segurança e minerais estratégicos

Reunião em Washington passou do tempo previsto e terminou com promessa de novas conversas entre equipes dos dois países.

Foto: Ricardo Stuckert [Presidência da República]

Depois de mais de três horas de reunião na Casa Branca, Luiz Inácio Lula da Silva apareceu diante da imprensa com uma mensagem calculada: o encontro com Donald Trump, segundo ele, abriu uma nova etapa na relação entre Brasil e Estados Unidos.

O presidente brasileiro disse ter saído “muito satisfeito” e “muito otimista” da conversa, que passou por comércio, tarifas, crime organizado, minerais críticos, plataformas digitais, eleições, Cuba, Irã, Venezuela e a reforma da ONU.

Lula tentou apresentar o encontro por volta do meio-dia (horário local) na Casa Branca, em Washington, como mais do que uma visita diplomática. Para ele, a aproximação entre Brasil e Estados Unidos tem peso simbólico porque envolve as duas maiores democracias do continente. “A boa relação entre Brasil e Estados Unidos é uma demonstração ao mundo de que as duas maiores democracias do hemisfério podem efetivamente servir de exemplo”, afirmou.

Estados Unidos X China

Mas o discurso também teve cobrança. Lula lembrou que os Estados Unidos foram o principal parceiro comercial do Brasil durante todo o século XX, mas perderam espaço a partir de 2008, quando a China passou a comprar em grande escala produtos brasileiros. Na avaliação dele, Washington deixou de olhar para a América Latina com interesse econômico mais amplo e passou a enxergar a região, durante muito tempo, quase sempre pela lente do combate ao narcotráfico.

O presidente disse ter provocado Trump sobre a ausência de empresas americanas em projetos brasileiros. Citou licitações internacionais para obras como rodovias e ferrovias, nas quais, segundo ele, os Estados Unidos muitas vezes não participam, enquanto empresas chinesas aparecem com mais frequência. A mensagem foi direta: o Brasil quer mais investimento norte-americano, mas não pretende esperar parado.

Tarifas

Na área comercial, Lula reconheceu divergências com o governo Trump, especialmente em torno de tarifas. Segundo ele, os Estados Unidos tiveram mais de US$ 400 bilhões de superávit comercial com o Brasil nos últimos 15 anos. No último ano, afirmou, o Brasil registrou déficit de US$ 14 bilhões na relação bilateral.

Lula também contestou a avaliação norte-americana de que o Brasil cobraria tarifas excessivas. De acordo com ele, a média do imposto brasileiro sobre produtos dos Estados Unidos é de 2,7%, embora autoridades americanas apontem casos específicos com cobrança de até 12%. Para evitar que a discussão ficasse presa no impasse, Lula propôs que representantes dos dois governos apresentem uma solução em até 30 dias.

A ideia, segundo ele, é que os ministros responsáveis pelo comércio nos dois países coloquem os números na mesa e indiquem onde cada lado precisa ceder. “Quem tiver errado vai ceder”, resumiu Lula. O presidente também criticou o ritmo da burocracia estatal, dizendo que presidentes têm prazo de validade, mas a máquina pública tende a se arrastar quando não há metas claras.

O tema das tarifas apareceu ligado a uma defesa mais ampla do multilateralismo. Lula citou acordos do Mercosul com a União Europeia, EFTA e Singapura, além do interesse em avançar com Canadá e Japão. Para ele, essa rede de acordos ajuda a proteger o comércio internacional diante de medidas unilaterais, como as taxações adotadas por Trump.

Talvez Trump ainda faça um PIX

Um assunto que poderia gerar atrito, mas acabou não sendo discutido diretamente, foi o Pix. Lula disse ter levado um representante da área econômica porque imaginava que Trump poderia abordar o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. Como o presidente norte-americano não tocou no tema, Lula também não levou a conversa adiante. Em tom de brincadeira, disse esperar que Trump “um dia ainda faça um Pix”.

Minerais críticos e terras raras

A pauta dos minerais críticos ocupou espaço importante na reunião. Lula afirmou que o Brasil conhece apenas 30% do próprio território em termos de potencial mineral e precisa chegar a 100% de mapeamento. O tema foi tratado por ele como uma questão de soberania nacional, especialmente diante da corrida global por terras raras e insumos usados em tecnologias estratégicas, energia e defesa.

O presidente disse que o Brasil está aberto a parcerias com empresas dos Estados Unidos, China, Alemanha, Japão, França, Índia e qualquer outro país interessado. Mas fez uma ressalva: o país não quer repetir ciclos históricos em que exportou riqueza bruta e deixou a transformação industrial para outras nações.

A comparação foi feita com a prata, o ouro e o minério de ferro. Lula afirmou que, no caso das terras raras e dos minerais críticos, o Brasil pretende participar da mineração, da separação e da transformação. “Nós não queremos ser meros exportadores dessas coisas”, disse. A ideia é que a cadeia produtiva gere valor dentro do país.

Trump, segundo Lula, não assumiu compromisso público de investimento específico nem apresentou números. O que ficou, pela versão brasileira, foi a abertura para tratar o tema como oportunidade de parceria. Lula disse que a legislação brasileira sobre minerais críticos havia avançado na Câmara e deveria seguir para votação no Senado, com previsão de criar uma estrutura coordenada pela Presidência da República.

Combate ao crime organizado

Outro ponto forte da conversa foi o combate ao crime organizado. Lula defendeu uma articulação internacional, com participação de países da América do Sul, da América Latina e de outras regiões. Para ele, não basta uma nação tentar impor sozinha sua estratégia de segurança. O crime, disse, já opera em rede e precisa ser enfrentado da mesma forma.

Lula afirmou que o Brasil tem uma Polícia Federal experiente no combate ao tráfico de drogas, ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro. Também disse que parte das armas que chegam ao Brasil sai dos Estados Unidos e que há lavagem de dinheiro em território norte-americano. Para ele, reconhecer esses pontos é o primeiro passo para uma ação conjunta mais eficiente.

O presidente também mencionou uma base instalada em Manaus para enfrentar o crime organizado, o tráfico de armas e de drogas nas fronteiras brasileiras, com participação de delegados de países da América do Sul. Disse que os Estados Unidos estão convidados a participar, caso queiram compartilhar informações e ações.

Lula adiantou ainda que o governo brasileiro pretende lançar, na semana seguinte, um plano de combate ao crime organizado. Segundo ele, uma das frentes será financeira, voltada a destruir a capacidade econômica das facções. O presidente afirmou que grupos criminosos passaram a atuar como empresas multinacionais, com presença no futebol, na política, no meio empresarial e em diferentes estruturas de poder.

Questionado sobre a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras, como CV e PCC, como organizações terroristas, Lula respondeu que esse ponto não foi discutido com Trump. A conversa, segundo ele, ficou concentrada na cooperação contra o crime organizado, sem avançar para esse tipo de enquadramento.

Plataformas digitais devem respeitar a legislação brasileira

A soberania brasileira também apareceu quando Lula falou sobre plataformas digitais. Ele disse ter explicado a Trump que o Brasil não quer impedir empresas americanas de atuar no país. A condição, segundo ele, é que qualquer plataforma, de qualquer lugar do mundo, respeite a regulamentação brasileira.

A relação pessoal entre Lula e Trump foi tratada com um tom incomum para uma coletiva diplomática. O presidente brasileiro disse que a aproximação evoluiu desde um primeiro encontro de 29 segundos em Nova York, passando por telefonemas, uma conversa na Malásia e, agora, pela reunião em Washington. Em uma frase que chamou atenção, comparou a sintonia entre os dois a “amor à primeira vista” e falou em “química”.

Lula também fez questão de afastar a eleição brasileira da conversa. Questionado se temia apoio de Trump à oposição ou algum tipo de interferência, respondeu que esse assunto não seria tratado com presidente de nenhum país. Disse que respeita Trump por ter sido eleito pelo povo americano e espera o mesmo em relação ao Brasil.

O presidente afirmou ainda que, se Trump tentou interferir nas eleições brasileiras, “perdeu”, porque Lula venceu. Mas evitou transformar a resposta em confronto. Segundo ele, quem decide a eleição brasileira é o povo brasileiro, assim como cabe ao povo americano escolher o destino dos Estados Unidos.

Autoridades brasileiras com restrições de visto para entrar nos Estados Unidos

Na mesma linha, Lula disse ter entregado novamente a Trump uma lista de autoridades brasileiras que seguem com restrições de visto para entrar nos Estados Unidos. Citou ministros do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República e familiares de autoridades, incluindo uma criança de 10 anos, filha do ministro Alexandre Padilha. Lula disse que continuará entregando a lista até que o assunto seja resolvido.

A política internacional ocupou uma parte extensa da coletiva. Lula afirmou que está disposto a conversar com Trump sobre Cuba, Venezuela, Irã ou qualquer outro país, caso o Brasil possa ajudar. Mas ressaltou que foi aos Estados Unidos principalmente para tratar de assuntos brasileiros: comércio, investimentos, crime organizado, minerais críticos e regulação de plataformas.

Cuba

Sobre Cuba, Lula disse ter ouvido, pela intérprete, que Trump não pensa em invadir a ilha. Para o presidente brasileiro, isso seria um sinal importante, porque Cuba quer dialogar e encontrar uma saída para o bloqueio iniciado após a Revolução de 1959. Lula classificou o bloqueio como o mais longo da história da humanidade.

Venezuela

Em relação à Venezuela, Lula afirmou esperar que o país resolva seus próprios problemas e que o povo do país tenha chance de viver melhor. Disse também que mantém diálogo com a Venezuela desde 2002 e que está disposto a tratar do tema com Trump, caso seja necessário.

Irã

O Irã apareceu em um dos trechos mais longos da coletiva. Lula contou que entregou a Trump, pela segunda vez, o acordo firmado em 2010 por Brasil e Turquia sobre o programa nuclear iraniano. Ele lembrou que, naquele período, conversou por duas horas com o aiatolá Ali Khamenei, por mais de duas horas no Parlamento iraniano e passou um dia inteiro em negociações.

Lula disse ter explicado a Trump que o Brasil não produz armas nucleares porque a Constituição de 1988 determina o uso pacífico da energia nuclear. Segundo ele, essa decisão não depende de um presidente específico, mas está inscrita na própria Constituição brasileira.

Ao relembrar o episódio de 2010, Lula disse que líderes como Barack Obama e Angela Merkel não queriam que ele fosse ao Irã, por desconfiarem do cumprimento de acordos pelo governo iraniano. Mesmo assim, Brasil e Turquia conseguiram a assinatura de um documento. Lula lamentou que, depois disso, Estados Unidos e União Europeia tenham aumentado punições contra o Irã.

Desativar de 10 ogivas por ano

O presidente brasileiro também criticou a lógica armamentista internacional. Disse que países com armas nucleares deveriam começar a desativar seus arsenais e chegou a sugerir, como exemplo, a retirada de 10 ogivas por ano. Segundo ele, como os arsenais são grandes, esse processo ainda levaria décadas, mas poderia criar um sinal de compromisso com a paz.

Reforma da ONU

A reforma da ONU foi outro tema levado a Trump. Lula disse que o Conselho de Segurança ainda reflete a geopolítica de 1945, e não a de 2026. Para ele, o mundo mudou, a comunicação mudou e países como Brasil, México, Índia, Alemanha, Japão, Egito, África do Sul, Argélia, Etiópia e Indonésia poderiam ter papel mais relevante.

Lula citou que a Etiópia tem 126 milhões de habitantes e a Indonésia, 200 milhões, para defender que há países com peso demográfico e político suficiente para participar de uma nova arquitetura internacional. Segundo ele, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança são os únicos com poder real para iniciar essa mudança.

Guerras

A guerra entre Rússia e Ucrânia também foi usada como exemplo. Lula lembrou que o conflito era esperado para durar três meses, mas já se aproxima de quatro anos. Para ele, guerras começam com facilidade, mas ninguém sabe como terminam. O presidente voltou a defender a diplomacia como saída mais barata, mais eficaz e sem destruição de vidas, casas, escolas e cidades.

Ao falar de conflitos, Lula disse ser crítico da guerra na Ucrânia, das ações de Israel em Gaza e no Líbano, e dos ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. Afirmou que o mundo precisa de paz e que os países mais poderosos têm responsabilidade direta nisso, justamente porque receberam poder de veto na estrutura da ONU.

Conversa descontraída

Mesmo nos temas duros, a coletiva teve momentos de descontração. Lula comentou que Trump rindo é melhor do que “de cara feia” e disse ter incentivado o presidente americano a rir mais. Também contou que os dois falaram sobre a Copa do Mundo. Trump perguntou se a seleção brasileira estava bem, e Lula respondeu que esperava que ele não anulasse o visto dos jogadores brasileiros, porque o Brasil iria aos Estados Unidos para ganhar a Copa.

O almoço também virou comentário. Lula disse que havia salada e carne, brincou que esperava que fosse carne brasileira e contou que Trump retirou pedaços de laranja da salada porque não gostava do ingrediente. Foram detalhes leves em meio a uma agenda carregada de disputas comerciais, tensões diplomáticas e interesses estratégicos.

Ao final, Lula tentou deixar uma imagem de abertura, mas com limites claros. Disse que o Brasil está preparado para discutir qualquer assunto com qualquer país do mundo, sem vetos e sem temas proibidos. A única exceção, afirmou, são a democracia e a soberania nacional.

Futuro

A coletiva mostrou um Lula empenhado em transformar a reunião com Trump em ponto de partida, não em fotografia protocolar. O presidente brasileiro cobrou mais presença econômica dos Estados Unidos, ofereceu cooperação em segurança, abriu portas para investimentos em minerais críticos e tentou posicionar o Brasil como interlocutor em conflitos internacionais. A aposta, agora, está nos 30 dias dados aos ministros para mostrar se a boa conversa na Casa Branca conseguirá sair do discurso e virar acordo.


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