Luis Fernando Verissimo morre aos 88 anos em Porto Alegre (RS)

Escritor vendeu mais de 5 milhões de livros, criou personagens marcantes e uniu humor, literatura, jazz e paixão pelo Inter.

Foto (2018): Alice Vergueiro / ABRAJI

Quem nunca riu com as tiradas do analista de Bagé, se divertiu com a astúcia de Ed Mort ou se reconheceu nas situações de Comédias da vida privada? Para muitos brasileiros, Luis Fernando Verissimo era mais do que escritor: era companhia diária em jornais, livros e até na televisão.

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Na madrugada deste sábado (30/08/25), Porto Alegre se despediu desse cronista que transformava o cotidiano em humor e poesia. Verissimo morreu aos 88 anos, vítima de complicações de uma pneumonia, após permanecer internado desde 11 de agosto na UTI do Hospital Moinhos de Vento.

Da infância nos EUA ao estilo herdado do pai

Nascido em 26 de setembro de 1936, na capital gaúcha, Luis Fernando era filho de Erico Verissimo, autor de “O Tempo e o Vento” e referência da literatura nacional. Durante a infância, morou nos Estados Unidos, período em que o pai lecionava em universidades americanas. Mais tarde, reconheceria a influência de Erico em sua escrita: “O pai foi um dos primeiros escritores brasileiros a escrever de uma maneira mais informal. E eu acho que herdei um pouco isso”.

Uma carreira que virou legado

Antes de se tornar um dos escritores mais lidos do país, foi revisor do jornal Zero Hora em 1966 e trabalhou como tradutor no Rio de Janeiro. O primeiro livro, O Popular, foi lançado em 1973. Daí em diante, vieram mais de 70 títulos publicados e cerca de 5,6 milhões de exemplares vendidos. Suas crônicas, contos e romances também chegaram a leitores de jornais como O Estado de S.Paulo, O Globo e Zero Hora.

Personagens e humor inconfundível

O humor era sua marca registrada. Verissimo deu vida a personagens como Ed Mort, “O analista de Bagé” e “A velhinha de Taubaté”. Criou a tirinha “As cobras”, na década de 70, e viu “Comédias da Vida Privada” ganhar adaptação televisiva em 1994. Também participou da equipe de roteiristas da irreverente “TV Pirata” e publicou sucessos como “As mentiras que os homens contam”.

Apesar da fama de humorista, sempre fez questão de dizer que o riso em seus textos era fruto de esforço: “Não tenho uma vocação humorística, mas consigo eventualmente produzir humor. É uma coisa mais deliberada, mais pensada”.

O homem por trás das crônicas

Discreto nos hábitos, manteve-se até o fim na mesma casa do bairro Petrópolis, em Porto Alegre, comprada pelo pai em 1941. Enquanto o escritório de Erico permanece intacto, Luis Fernando escrevia em outro espaço, cercado de livros, discos de jazz e o saxofone que aprendeu a tocar ainda jovem, em Washington (USA).

Reservado, evitava entrevistas e falas públicas, mas encontrava liberdade no texto curto: “Essa é uma das vantagens da crônica. A gente pode ser o que quiser escrevendo”.

Paixão pelo Internacional

Além da literatura e da música, o futebol ocupava lugar especial em sua vida. Torcedor apaixonado pelo Internacional, escreveu Internacional, Autobiografia de uma Paixão e não escondia a emoção ao relembrar jogos históricos. Cobriu Copas do Mundo desde 1986 e eternizou o título mundial do Inter em 2006 na crônica Não me acordem, celebrada pelos colorados.

Últimos anos e despedida

Verissimo enfrentava problemas de saúde nos últimos anos. Além do Parkinson, tratou doenças cardíacas — implantando um marcapasso em 2016 — e sofreu um AVC em 2021, que trouxe dificuldades motoras e de comunicação.

Ele deixa a esposa, Lúcia Helena Massa, três filhos e dois netos. Informações sobre velório e sepultamento ainda não foram divulgadas. Luis Fernando Verissimo agora se junta à constelação de artistas que permanecem vivos na história — e na memória de quem aprendeu a rir, pensar e se emocionar com suas palavras.


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