A notícia chegou na madrugada desta terça-feira (18/08/26), pelo perfil oficial da atriz no Instagram. Laura Cardoso morreu na noite anterior, por volta das 23h20, em sua casa no bairro de Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo. A família informou que foi por causas naturais. Nada de trágico, nada de inesperado — mas ainda assim, uma perda que pesa.
Ela faria 99 anos no próximo mês.
Naturalidade, força e ousadia. É assim que Welington Andrade, pesquisador do Itaú Cultural, define a atuação de Laura Cardoso. E não é para menos: são mais de oito décadas dedicadas à arte, um percurso que começa em 1942, quando ela ainda era uma adolescente e passou num teste para a Rádio Cosmos. Naquela época, ser atriz de radionovela “simplesmente não estava na lista de empregos para moças direitas”, como ela mesma contou em sua biografia. O pai, comerciante e apreciador de teatro, não se opôs à escolha da filha. A mãe, porém, resistiu.
Não foi a única vez que Laura precisou enfrentar barreiras. Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni em 13 de setembro de 1927, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, ela cresceu em uma família de imigrantes portugueses. E desde criança, brincava de teatro — transformava caixotes de madeira em palco e encenava para a avó, sua primeira espectadora. O sonho era claro, mas o caminho, tortuoso. O preconceito contra mulheres que trabalhavam no teatro, na década de 1940, era forte.
A estreia na televisão veio em 1952, com o programa “Tribunal do Coração”, na recém-inaugurada TV Tupi. A emissora, a primeira do país, começara a operar dois anos antes. Laura estava ali, acompanhando de perto a transformação da dramaturgia brasileira — desde os tempos do rádio até a consolidação da televisão. Ao lado de nomes como Lima Duarte, Yara Lins, Lolita Rodrigues e Vida Alves, ela ajudou a formar uma geração de artistas que fez a transição entre os dois meios.
O reconhecimento veio cedo. Em 1956, atuando na “TV de Vanguarda”, recebeu o Troféu Roquette Pinto como melhor revelação feminina, o prêmio mais importante da época. Nos anos seguintes, foi eleita Melhor Atriz pelo Troféu Imprensa por dois anos consecutivos, em 1963 e 1964, por “A Noite Eterna” e “Moulin Rouge, a Vida de Toulouse-Lautrec”.
Mas a carreira de Laura não se limitou à televisão. O teatro sempre foi uma de suas paixões. Ela integrou o elenco de peças como “As Criadas” (1968), “Venha Ver o Sol na Estrada” (1973), “Volpone” (1977), “A Nonna” (1980) e “Órfãos de Jânio” (1981). No teatro, recebeu dois Prêmios Shell, por “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu” (1990) e “Vereda da Salvação” (1993). No cinema, foi aclamada por “Através da Janela” (2000), pelo qual recebeu um Prêmio APCA. Ao todo, acumulou três Prêmios Grande Otelo e cinco estatuetas da APCA.
Em 1981, já com 54 anos, Laura chegou à TV Globo, estreando em “Brilhante”. Foi ali que ela construiu alguns de seus personagens mais inesquecíveis. Dona Isaura, em “Mulheres de Areia” (1993), a mãe protetora das gêmeas Ruth e Raquel. Dona Guiomar, em “A Viagem” (1994), a mulher que sofre influência espiritual após a morte do marido. Soraya, a matriarca cigana em “Explode Coração” (1995). Dona Carmem, a avó afetuosa de “Chocolate com Pimenta” (2003). Laksmi Ananda, a matriarca rígida e apegada às tradições em “Caminho das Índias” (2009). Também participou de “Gabriela” (2012), “Sol Nascente” (2016) e “O Outro Lado do Paraíso” (2017).
Seu último trabalho em uma novela foi “A Dona do Pedaço”, em 2019. Em 2025, ainda atuou no filme “Dona Rosinha”. Mesmo aos 95 anos, não falava em aposentadoria. Em entrevista ao Estadão, em 2023, disse: “Gosto de estar com a minha gente. Em um estúdio, nada me cansa. Quero morrer trabalhando”.
Trabalhou até quando foi possível.
As homenagens se multiplicaram nos últimos anos. Em 2021, recebeu o Prêmio Guarani Honorário pelo conjunto da obra. Em 2023, foi agraciada com o Troféu Oscarito no Festival de Gramado. No ano passado, inaugurou a Calçada da Fama dos Estúdios Globo. E em março deste ano, recebeu o Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz, concedido pelo Senado Federal.
A despedida, dessa vez, é verdadeira. Diferente das duas fake news sobre sua morte que a atriz chegou a comentar em uma entrevista ao Fantástico, em 2018 — “É horrível”, disse ela na ocasião. Agora, a notícia veio da família.
O velório acontece nesta terça-feira, das 8h às 14h, na Funeral Home, na Bela Vista, em São Paulo, em cerimônia restrita. O sepultamento está previsto para após as 14h. Sem grandes holofotes. Do jeito que talvez ela preferisse.
Nas redes sociais, os artistas se despediram. Miguel Falabella escreveu: “Para mim, era sempre um privilégio estar com ela e assisti-la debruçar-se sobre algumas personagens. Te amo, Laura! Muito mesmo! Até um dia!”. Marcelo Adnet, em uma palavra: “Eterna”. Fabiana Karla: “Não estava preparada para uma despedida assim”.
Laura Cardoso deixa duas filhas, Fátima e Fernanda — um terceiro filho, José, faleceu poucos dias depois do nascimento —, além de netos, bisnetos e uma legião de fãs que cresceram vendo suas personagens na telinha.
E deixa também um legado que não cabe em lista nenhuma. Mais de 150 personagens, mais de 60 novelas, oito décadas de história. Uma operária da arte, como ela gostava de ser chamada. Que, de caixotes de madeira, construiu um dos maiores palcos da dramaturgia brasileira.





