A cena tem se repetido em supermercados de todo o país: menos itens no carrinho, mais atenção ao preço e a sensação de que o dinheiro já não rende como antes. Em março de 2026, os números confirmaram o que muita gente já vinha percebendo na prática — a cesta básica ficou mais cara em todas as capitais brasileiras. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos.
O levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), aponta que São Paulo segue com o maior custo, chegando a R$ 883,94. Já Aracaju apresentou o menor valor médio, de R$ 598,45.
Boa parte desse aumento vem de produtos que fazem parte do dia a dia. Feijão, batata, tomate, carne bovina e leite puxaram a alta. No caso dos três primeiros, as chuvas nas regiões produtoras reduziram a oferta e impactaram diretamente os preços. O açúcar foi exceção e ficou mais barato em 19 capitais, influenciado pelo excesso de oferta.
Entre as maiores altas no mês estão Manaus (7,42%), Salvador (7,15%), Recife (6,97%), Maceió (6,76%) e Belo Horizonte (6,44%). Também registraram aumentos relevantes Aracaju (6,32%), Natal (5,99%), Cuiabá (5,62%), João Pessoa (5,53%) e Fortaleza (5,04%).
No ranking dos valores, além de São Paulo, aparecem Rio de Janeiro (R$ 867,97), Cuiabá (R$ 838,40), Florianópolis (R$ 824,35) e Campo Grande (R$ 805,93). As demais capitais ficaram abaixo de R$ 800.
Para quem recebe salário mínimo, o impacto é direto. Com o valor fixado em R$ 1.621, são necessárias cerca de 109 horas de trabalho para comprar a cesta básica. Em março, o tempo médio foi de 97 horas e 55 minutos, acima das 93 horas e 53 minutos registradas em fevereiro.
Na prática, isso significa comprometer quase metade da renda. Em março de 2026, o trabalhador destinou, em média, 48,12% do salário mínimo líquido para adquirir os alimentos básicos. Em fevereiro, esse percentual era de 46,13%. Um ano antes, em março de 2025, era ainda maior: 52,29%, considerando 17 capitais.
Na comparação dos últimos 12 meses, houve aumento em 13 capitais e queda em quatro. As maiores altas ocorreram em Aracaju (5,09%), Salvador (4,51%) e Recife (4,38%). Já Brasília (-4,63%) e Florianópolis (-0,91%) registraram as principais reduções.
Essa análise anual considera apenas 17 capitais, já que o Dieese não realiza levantamento mensal em cidades como Boa Vista, Cuiabá, Macapá, Maceió, Manaus, Palmas, Porto Velho, Rio Branco, São Luís e Teresina.
O feijão, presença constante no prato do brasileiro, teve alta em todas as capitais. O tipo preto subiu entre 1,68% em Curitiba e 7,17% em Florianópolis. Já o carioca variou de 1,86% em Macapá até 21,48% em Belém.
A explicação está na menor oferta, causada por dificuldades na colheita, redução da área plantada e expectativa de produção menor na segunda safra.
O presidente do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe), Marcelo Lüders, explica que o aumento não significa necessariamente mais lucro para o produtor. “Quando a gente vê um aumento de preços, tende a pensar que os produtores estão lucrando mais, mas nesses casos menos produtores têm o produto e aí podem estar vendendo por mais, só que o que aconteceu bastante neste ano é que quem plantou, por exemplo, 60 sacas colheu apenas 30 ou 40. O clima prejudicou no Paraná e na Bahia, e a gente tem uma área plantada menor”.
Ele também aponta impactos do excesso de chuvas em regiões como Mato Grosso do Sul.
“Os números que a gente tem hoje não refletem a nossa realidade, a gente tem tido menos o carioca, pois é um feijão que o governo não garante preço, já que o preço mínimo existe para enfeite, o produtor não se beneficia em nenhum momento disso não há mercado externo”.
Hoje, o feijão carioca chega a R$ 350 por saca, com possibilidade de queda entre agosto e outubro. O feijão preto varia entre R$ 200 e R$ 210, mas pode ficar mais caro ao longo de 2026.
“Isso é terrível para os produtores. A exportação diminuiu em 2025, isso é cíclico. O estímulo para plantar o feijão carioca é muito grande, e isso é um risco pois pode derrubar o preço”, completou.
A Conab estima produção superior a 3 milhões de toneladas, com crescimento de 0,5% em relação ao ciclo anterior. Ainda assim, há incertezas sobre custos, principalmente com fertilizantes e combustíveis, além da expectativa de alta global dos alimentos.
O levantamento também mostra o quanto o salário mínimo ainda está distante do necessário. Para sustentar uma família de quatro pessoas com despesas básicas, o valor deveria ser de R$ 7.425,99 em março de 2026 — 4,58 vezes o mínimo atual.
Em fevereiro, o valor estimado era de R$ 7.164,94 (4,42 vezes o mínimo). Já em março de 2025, era de R$ 7.398,94, equivalente a 4,87 vezes o salário vigente na época, de R$ 1.518.
Com informações da Agência Brasil





