Fusca De Niro e a Expedição Malte: cineasta vai transformar jornada em filme sobre estrada e cerveja

Na sua passagem por Blumenau, Rodrigo Castelhano compartilhou um pouco de sua jornada, que tem como destino o Alasca (EUA).

Foto: Rodrigo Castelhano

Texto de Claus Jensen, com entrevista em áudio realizada por Josiane Longhi | OBlumenauense

Durante um evento familiar na tarde deste sábado (23/08/25), percebi a presença de um VW Fusca 1300 azul, ano 1974, todo adesivado, no estacionamento do Centro Cultural 25 de Julho, em Blumenau. Sobre o teto, uma barraca automotiva do tipo rooftop tent, estrutura usada por viajantes para acampar em qualquer lugar.

Comentei com a Josiane Longhi (colaboradora do portal), que também estava na festa, sobre o veículo que tinha chamado minha atenção. Ela se prontificou a fazer a entrevista junto com o marido, Alexandre Koball. Pesquisando um pouco mais, e reunindo as informações do áudio, escrevi esta matéria. Espero que gostem.

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Fusca De Niro e a “Expedição Malte – A Cerveja do Novo Mundo”

O carro clássico da Volkwagen que está estacionado tem nome: De Niro. É o “companheiro de viagem” de Rodrigo Castelhano, 45 anos, cineasta nascido em Guarapuava (PR), que decidiu transformar uma nova fase de sua vida em documentário. Apesar de ser paranaense, a família mudou para Porto Alegre (RS) quando ainda era bebê de um ano. Teria sido um sinal de que uma grande viagem o esperarava? Afinal a distância entre as duas cidades é de aproximadamente 755 km.

Rodrigo em Blumenau | Foto: Josiane Longhi

ADVERSIDADES PODEM SE TORNAR OPORTUNIDADES

A história de Rodrigo exemplifica como adversidades podem se tornar oportunidades.  Durante a pandemia de COVID-19, em 2020, o cineasta viu seu projeto cinematográfico “Desumanos” – ironicamente um filme sobre uma pandemia – ser interrompido e sua produtora Núcleo Set Produções, de Porto Alegre, onde também dava aulas de formação de atores, ser fechada. “Todo mundo imaginou que a quarentena ia passar rápido, acabou não passando. Foram quase dois anos”, relembra. “Quando pudemos voltar a gravar, o elenco tinha muita criança e eles cresceram. Muita coisa mudou.”

O NASCIMENTO DA EXPEDIÇÃO MALTE

Foi aos 40 anos que Rodrigo tomou uma decisão que mudaria completamente sua trajetória. “Falei pra minha esposa que eu queria fazer alguma coisa diferente, sair da zona de conforto. Quando é que vai acontecer outra pandemia? O planeta tá à beira de um colapso. Preciso potencializar o tempo que ainda tenho de vida”, explica.

A solução veio da união de suas três paixões: cinema, Fusca e cerveja. Rodrigo é cervejeiro caseiro há mais de 20 anos e acompanhou toda a explosão da cerveja artesanal no Brasil. Assim nasceu a “Expedição Malte – A Cerveja do Novo Mundo”, um projeto ambicioso que consiste em uma viagem overland pelas Américas, de ponta a ponta, documentando a cultura cervejeira regional.

“Sempre fui fusqueiro. Meu primeiro carro foi um Fusca e já tive oito”, conta Rodrigo. O atual, batizado de “De Niro” em homenagem ao ator Robert De Niro de “O Poderoso Chefão”, é o oitavo da coleção e substituiu o anterior, chamado “Forrest Gump”, que foi roubado quando estava sendo preparado para ir ao Peru. O personagem vivido no filme pelo ator Tom Hanks percorreu os EUA correndo, o que explica a escolha do nome daquele carro.

 

Foto: Josiane Longhi

UMA JORNADA INSPIRADA NO CINEMA

O cinema sempre foi a grande inspiração de Rodrigo. “Não faço cinema só porque gosto ou porque é como ganho a vida, mas porque o cinema me inspirou muito. Eu queria transformar minha vida num filme, ser o roteirista e o ator principal”, revela.

Entre os filmes que mais o influenciaram estão “Forrest Gump”, “Vanilla Sky” (que ele usou como tese de estudo para atuação e considera que Tom Cruise deveria ter ganhado o Oscar), “Mr. Nobody”, “O Poderoso Chefão” e “Era Uma Vez no Oeste”.

Também cita “A Vida Secreta de Walter Mitty”, de Ben Stiller, como uma obra que inspira a viajar e sair da zona de conforto. “Quero muito andar naquela rua onde o Forrest Gump corre e tirar aquela foto”, revela, mostrando como o cinema literalmente guia seus passos.

Foto: Josiane Longhi

O ROTEIRO DA AVENTURA

A expedição começou oficialmente em 21 de abril de 2023, partindo de Picada Café (a cerca de 47 km de Gramado), na Serra Gaúcha, rumo à Ushuaia, na Patagônia Argentina. “Em 2023 realizei um dos grandes sonhos da minha vida, que foi percorrer a Patagônia, cruzando Uruguai, Argentina e Chile”, escreveu em suas redes sociais, onde compartilhou fotos do DeNiro em meio à neve

Foto: Rodrigo Castelhano

Após quatro meses viajando, Rodrigo retornou para casa, mas as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 trouxeram novos desafios. “O Fusca ficou muito tempo embaixo d’água e tive que trocar o soalho e o motor novamente”, conta.

A segunda etapa teve início em 6 de abril de 2025, após três anos de preparação desde a concepção da ideia. O roteiro atual contempla todo o território brasileiro, com visitas a cervejarias locais. Na sua passagem pela nossa cidade, também participou do tour para conhecer o complexo Max Wilhem, onde está instalada a Cervejaria Blumenau.

Outro momento especial foi a passagem de Rodrigo por Balneário Camboriú, no mesmo dia em que chegou a Blumenau. Foi de lá que partiu outro aventureiro, o também paranaense Jesse Koz, ao lado do cão Shurastey, com o Fusca Dodongo de 1978, rumo ao Alasca. Infelizmente, ambos perderam a vida em um acidente no dia 23 de maio de 2022, na U.S. Highway 199, próximo à cidade de Selma, no estado do Oregon (EUA).

RETORNO ÀS RAÍZES

Em junho, Rodrigo retornou à sua cidade natal, Guarapuava (PR), após 45 anos. Conhecida pela produção de malte e cevada, a prefeitura o recebeu com um tour organizado pela Secretaria de Turismo, que apresentou atrações naturais e turísticas, além das cervejarias. Ele também concedeu entrevista à TV local e foi convidado a participar de um evento (Congresso Técnico Internacional Agrária 2025) na cidade.

No seu diário de bordo pelas redes sociais, Rodrigo descreveu o que sentiu: “Guarapuava me abraçou e estou me sentindo em casa. Deixei a cidade com a família quando tinha um ano de idade, e agora estou aqui. Parece que nunca saí. Estou muito feliz. É um momento muito especial para mim”. Ele atribuiu esse reencontro à expedição que tem inspiração cervejeira.

PLANOS DE SUBIR O CONTINENTE

Depois de chegar ao Norte do Brasil, ele pretende pegar a Rodovia Pan-Americana por Corumbá, no Mato Grosso do Sul, e seguir rumo à América do Norte. A passagem entre a América do Sul e a Central será feita pelo mar, já que o acesso por terra passa pela selva e é muito perigoso.“Quando chegar no México, vou pro lado de Cancún, depois continuo subindo. Entro nos Estados Unidos por Laredo, no Texas”, detalha.

O plano inclui ainda pontos específicos como a casa onde nasceu Bruce Springsteen, em New Jersey (“sou fã dele”, confessa), a famosa Rota 66, e diversas cidades americanas. A estratégia é entrar pelos Estados Unidos via Laredo, Texas, seguir para Alabama, descer até Miami, subir toda a costa leste até Nova York, depois pegar a Rota 66 até San Diego, subir para São Francisco, Oregon, Canadá e finalmente Alasca. “Los Angeles vai ser o último lugar que vou dos Estados Unidos. Depois começo a descer de novo”, explica.

A conexão com o mundo e seus seguidores | Foto: Josiane Longhi

OS DESAFIOS DA ESTRADA

Roberto chegou em Blumenau no dia 9 de agosto (sexta-feira), comemorando estar na terra da Oktoberfest e do Festival Brasileiro da Cerveja. Para marcar o momento, passou pelo Parque Vila Germânica.

Três dias depois, aproveitou a segunda-feira de sol para dar uma geral no carro. “Dormi duas noites dentro dele (Fusca) e acabo fazendo uma bagunça lá dentro. Como pegamos vários dias de chuva, muitas coisas ficaram úmidas. Estou tirando tudo, colocando no sol e lavando roupa”, contou em vídeo que serve como seu diário de bordo nas redes sociais.

Atualmente em Blumenau há 16 dias – inicialmente seriam apenas três -, Rodrigo exemplifica como a viagem tem dinâmica própria. “Em Garopaba, fiquei 15 dias. Em Guarapuava, 12 dias. No Rio Grande do Sul, quase um mês. Acho que vai se estender muito”, admite.

O maior desafio é a viabilidade financeira. “Não depende só de mim, depende de terceiros, de convencimento”, explica. O financiamento vem através de apoios de cervejarias como a Blue Camp, que foi a primeira a acreditar no projeto, além de parcerias locais com estabelecimentos como Blumenau e Balbúrdia.

“Boto adesivo das cervejarias no carro, uso boné, faço conteúdos. Se entrarem no Instagram @expedicaomalte, vão ver vários vídeos de cervejarias que me apoiam”, conta. Para o futuro, planeja lançar uma loja online vendendo produtos da expedição e criar um sistema de apoio colaborativo.

No fundo, o Monte Fitz Roy ou Cerro Chaltén, montanha localizada na fronteira do Chile com a Argentina na região da Patagônia. | Foto: Rodrigo Castelhano

LEGADO E PERSPECTIVAS

Inicialmente estimada em um ano e meio, a expedição agora pode durar até dois anos. “Na realidade, não digo que é uma viagem. Durante algum tempo, essa é a minha vida”, filosofa Rodrigo.

O projeto resultará no documentário “Expedição Malte – A Cerveja do Novo Mundo”, e todos os apoiadores aparecem nos créditos como agradecimento. Para quem quiser contribuir, o PIX é expedicaomalte@gmail.com.

Após concluir esta etapa, Rodrigo já planeja novos desafios: “Depois vou alçar desafios maiores, levar o Fusca para a Europa e fazer ‘Expedição Malte – A Cerveja do Velho Mundo'”. A história de Rodrigo Castelhano prova que às vezes é preciso sair da zona de conforto para descobrir que a vida pode ser tão emocionante quanto um filme – especialmente quando você é o diretor da própria jornada.

Acompanhe a @expedicaomalte pelas redes sociais pelo Youtube, Instagram e Facebook.

Josiane e Rodrigo | Foto: Alexandre Koball


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