Uma prática criminosa e silenciosa está custando caro aos brasileiros – não apenas financeiramente, mas também em vidas. O furto de energia elétrica, detalhado em um relatório da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (ABRADEE), revelou-se um problema crônico que, em 2024, gerou um prejuízo de R$ 10,3 bilhões em perdas não técnicas reais.
Esse valor, que reflete a energia consumida e não faturada, é parcialmente repassado para a tarifa de todos os consumidores, tornando a conta de luz mais cara para quem paga em dia.
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DIFERENÇA ENTRE PERDA TÉCNICA E NÃO TÉCNICA
Para entender o tamanho do problema, é preciso diferenciar os tipos de perdas no sistema elétrico:
Perdas Técnicas: São perdas de energia inerentes ao processo de transporte e distribuição, ocorrendo pela dissipação de energia na forma de calor nos fios e transformadores. Esse tipo de perda é calculado e seu custo já é previsto na composição da tarifa.
Perdas não técnicas (ou comerciais): São as perdas decorrentes de ações externas, como as ligações clandestinas (os “gatos”), fraudes nos medidores de energia e erros de faturamento. É aqui que o prejuízo se concentra, pois essa energia é consumida sem o devido pagamento.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabelece uma meta regulatória para as perdas não técnicas, que em 2024 foi de R$ 7,1 bilhões. No entanto, a realidade superou (e muito) a meta, chegando aos R$ 10,3 bilhões. A diferença de R$ 3,2 bilhões entre o valor real e o regulatório é arcada integralmente pelas concessionárias, mas o valor previsto na meta é dividido entre todos os consumidores.
O CENÁRIO NACIONAL: UM RAIO-X DO PROBLEMA
O furto de energia não é distribuído de forma homogênea pelo Brasil. O relatório aponta uma concentração alarmante na Região Norte, que responde por 48,98% de todas as perdas não técnicas do país. A energia desviada apenas nessa região seria suficiente para abastecer 14 estados brasileiros.
A distribuição das perdas por região se apresenta da seguinte forma:
- Norte: 48,98%
- Sudeste: 15,05%
- Nordeste: 12,41%
- Sul: 8,06%
- Centro-Oeste: 7,61%
Estados como Amazonas, Rio de Janeiro, Amapá, Pará e Rondônia são os campeões em registros de furto, afetando principalmente o mercado de baixa tensão, que engloba residências, pequenos comércios e escritórios.
AS CONSEQUÊNCIAS VÃO ALÉM DA CONTA DE LUZ
O impacto do furto de energia transcende a questão financeira. As ligações clandestinas são um grave risco à segurança. Em 2024, 45 pessoas morreram e outras 69 ficaram gravemente feridas ao tentarem manipular a rede elétrica ou furtar equipamentos.
Além disso, essa prática ilegal gera uma sobrecarga no sistema de distribuição, pois a energia consumida não é monitorada, o que pode causar:
- Danos a aparelhos eletrodomésticos dos consumidores regulares, devido à instabilidade da rede.
- Prejuízo ao atendimento, com interrupções e quedas de energia mais frequentes.
- Inviabilização de um serviço público de qualidade, especialmente em regiões onde a prática é mais disseminada.
COMBATE AO CRIME: TECNOLOGIA E CONSCIENTIZAÇÃO
A Abradee e suas associadas têm intensificado as ações de combate. Nos últimos dois anos, mais de 1.500 matérias foram publicadas na imprensa para alertar sobre os prejuízos sociais e econômicos. As empresas também estão investindo em tecnologias avançadas, como medidores mais resistentes e o uso de inteligência artificial para identificar padrões de consumo suspeitos e localizar fraudes.
Contudo, a associação enfatiza que a solução exige um engajamento amplo. É fundamental a atuação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário na criação de políticas e na fiscalização rigorosa. Acima de tudo, é necessária a conscientização da população para que a cultura de “naturalizar o gato” seja combatida, entendendo que o furto de energia é um crime que prejudica a todos, desonera o infrator e onera a sociedade.
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