O celular vai continuar na mão e as conversas com os amigos também. Mas, para milhares de adolescentes franceses, o caminho até o Instagram ou o TikTok pode simplesmente deixar de existir.
A partir de setembro, jovens com menos de 15 anos não poderão criar contas em redes sociais na França. A medida, aprovada pelo Parlamento nesta terça-feira (22/07/26), transforma o país no primeiro da União Europeia a adotar uma restrição desse tipo e promete mudar a relação de uma geração inteira com o ambiente digital.
Para muitos adolescentes, as redes sociais vão muito além do entretenimento. É onde conversam com colegas, acompanham criadores de conteúdo, descobrem músicas, estudam e constroem amizades. Agora, parte dessa rotina poderá ser interrompida por uma decisão do Estado, que argumenta estar protegendo crianças e adolescentes dos riscos da internet.
A proposta, defendida pelo presidente Emmanuel Macron desde o início do mandato, foi aprovada por 279 votos favoráveis e 81 contrários.
Logo após a votação, Macron comemorou o resultado. “A França abre caminho na Europa para proteger as nossas crianças e adolescentes. Continuamos em frente”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais.
Depois, reforçou a promessa feita durante o mandato. “Comprometi-me a fazê-lo e agora já está aprovado: as redes sociais serão proibidas para menores de 15 anos a partir do início do ano letivo”.
Como a nova regra vai funcionar
Se passar pela análise do Conselho Constitucional, a lei começa a valer em duas etapas. Em setembro, menores de 15 anos ficarão impedidos de criar novas contas em plataformas digitais. Quem abrir um perfil terá de comprovar a idade.
A segunda fase começa em janeiro de 2027. A partir daí, a verificação será exigida também para contas antigas. Na prática, todos os usuários na França precisarão confirmar a idade para continuar usando as redes sociais.
As plataformas serão obrigadas a utilizar sistemas de verificação autorizados pela autoridade francesa de proteção de dados. O governo afirma que essas ferramentas já são suficientemente confiáveis. Nem todos concordam.
Especialistas em privacidade alertam que exigir documentos ou outros mecanismos de identificação pode aumentar a coleta de dados pessoais. Outros questionam se adolescentes realmente deixarão de acessar as redes ou apenas encontrarão novas maneiras de driblar os bloqueios.
A escola também entra na mudança
A nova legislação não trata apenas das redes sociais. O texto amplia a restrição ao uso de celulares nas escolas de ensino secundário, seguindo um modelo que já existe em parte da educação básica francesa. Cada instituição, no entanto, poderá definir exceções em seu regulamento interno.
Antes da votação, a ministra francesa de Assuntos Digitais, Anne Le Hénanff, defendeu a rapidez da implementação da medida, afirmando que “já existem ferramentas de verificação de idade”.
Um debate que vai além da França
A decisão francesa acompanha uma discussão que cresce em vários países. Governos passaram a olhar com mais atenção para os efeitos das redes sociais sobre crianças e adolescentes, especialmente diante do aumento dos casos relacionados à ansiedade, ao cyberbullying, à exposição precoce a conteúdos inadequados e ao tempo excessivo diante das telas.
A França é o segundo país a aprovar uma proibição desse tipo, seguindo a Austrália. Outros países europeus, como a Áustria, também discutem mudanças semelhantes, embora a maioria das propostas fixe a idade mínima em 16 anos.
A decisão, porém, está longe de encerrar o debate.
De um lado, pais e autoridades defendem regras mais rígidas para reduzir riscos no ambiente digital. Do outro, adolescentes argumentam que as redes sociais também fazem parte da vida social, da educação e da construção da identidade de sua geração.
É justamente nesse equilíbrio que a França aposta agora. A resposta sobre quem tem razão talvez só apareça quando os celulares continuarem nas mãos dos jovens, mas alguns dos aplicativos mais usados deixarem de abrir.





