Flauta doce conecta mundos: de Amsterdam a Blumenau, música transforma vidas

Masterclass com flautista paranaense radicado na Holanda reuniu músicos e estudantes na FURB.

Foto: Susana Bartira Wagner Bilck Venturi

No sábado (21/02/26), Blumenau sediou uma masterclass de flauta doce no Campus 1 da FURB, com o objetivo de fortalecer e reativar a presença do instrumento na formação musical da cidade. O encontro reuniu estudantes e educadores da rede pública e integrou uma iniciativa voltada à ampliação do acesso à música e à valorização da flauta doce como instrumento de ensino e expressão artística.

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A atividade foi organizada pela professora doutora Camila Werling, vinculada à Secretaria Municipal de Educação e à FURB, e pelo professor Leonardo Andrietti Rosa, da EBM Bilíngue Prof.ª Hella Altenburg, e responsável pela Banda de Percussão Melódica e Flauta Doce da Secretaria Municipal de Educação. O convidado do evento foi o flautista e professor Lucas Debortoli, músico paranaense radicado na Holanda, com atuação internacional e experiência no ensino e na difusão da flauta doce em contextos educacionais e artísticos.

Susana Bartira Wagner Bilck Venturi, Coordenadora da EBM Bilíngue Prof.ª Hella Altenburg, e colaboradora do portal OBlumenauense, também esteve presente no evento e conversou com Lucas Debortoli.

Lucas Debortoli | Foto: Redes Sociais

OBlumenauense: Você estuda atualmente no Conservatório de Amsterdam. Como é a sua realidade como estudante de música no exterior?

Lucas Debortoli: Eu estudo no Conservatório de Amsterdam, na Holanda, e me mantenho lá de forma particular. Tenho ajuda dos meus pais, mas também trabalho, dou aulas e me sustento. Infelizmente, não há muito apoio nem do governo brasileiro para estudantes de música, especialmente da flauta doce, nem do governo holandês para estudantes internacionais. Neste ano, eu tenho uma bolsa parcial referente à anuidade do conservatório, mas todas as demais despesas ficam por minha conta.

OBlumenauense: Como você enxerga a flauta doce em um cenário cada vez mais dominado pela música eletrônica?

Lucas Debortoli: A música eletrônica tem muitas possibilidades e está ganhando cada vez mais espaço. Existem até flautas eletrônicas, que também são uma opção válida de estudo. Mas o instrumento acústico ainda tem um charme muito próprio. Ele tem uma relação com a natureza, com aquilo que é natural. A flauta tem uma importância histórica muito grande e continua sendo relevante porque, de alguma forma, conversa diretamente com as pessoas.

 

Foto: Susana Bartira Wagner Bilck Venturi

OBlumenauense: O que torna a flauta um instrumento tão especial para você?

Lucas Debortoli: Existe uma imagem mais poética que eu gosto muito: a ideia de que a gente sopra a alma dentro do instrumento. O som da flauta não é apenas o som do ar, mas o ar da pessoa, a alma da pessoa sendo transmitida pelo instrumento. Isso é algo muito forte. É uma dimensão que, mesmo que um instrumento eletrônico tente alcançar, não consegue substituir.

OBlumenauense: Essa simbologia da flauta aparece também na música clássica?

Lucas Debortoli: Com certeza. Ao longo de muitos séculos, a flauta foi explorada por diferentes compositores. Johann Sebastian Bach, por exemplo, usava a flauta doce em contextos muito específicos, como situações ligadas ao espiritual, ao fúnebre ou ao pastoral. Ela carregava essa conotação de algo ligado ao divino, às coisas mais puras, ao que está além do material. Isso é algo que atravessa o tempo.

OBlumenauense: Você trabalha hoje exclusivamente com aulas on-line. Como isso começou?

Lucas Debortoli: Eu comecei a fazer aulas on-line em 2016 e, nesse mesmo período, já passei a dar aulas também nesse formato. Quando chegou a pandemia, em 2020, esse ambiente já era muito natural para mim. Como eu me mudei bastante — do Paraná para São Paulo e depois para a Holanda — o ensino on-line acabou sendo a forma mais viável de manter meus alunos. Hoje, todas as minhas aulas são on-line.

OBlumenauense: O ensino on-line funciona bem para a música?

Lucas Debortoli: Funciona, sim, mas exige adaptação. Quando cursei Licenciatura em Música na USP, desenvolvi meu Trabalho de Conclusão de Curso justamente sobre o ensino on-line com o método Suzuki de Educação Musical. A partir dessa pesquisa, fui ajustando minha metodologia para esse formato, e é com isso que trabalho atualmente.

OBlumenauense: O método Suzuki foi bastante citado durante o encontro. Como ele funciona?

Lucas Debortoli: O método Suzuki não utiliza a partitura no início do aprendizado. A criança começa aprendendo de memória, desenvolvendo a escuta e a atenção ao som. Quando você toca de memória, está completamente aberto à música, focado na pureza do som. Só depois de dominar o instrumento é que o aluno passa a ter contato com a leitura musical. Isso é especialmente importante com crianças pequenas, porque o aprendizado acontece de forma mais intuitiva.

OBlumenauense: Qual é o perfil dos seus alunos hoje?

Lucas Debortoli: É bem variado. Já tive períodos com muitos alunos da terceira idade, outros com mais crianças ou adultos. Hoje, a maior parte do meu público é adulta, mas também tenho crianças estudando flauta doce. O que acontece é que a criança, geralmente, não decide sozinha que quer estudar música. É importante que os pais apresentem essa possibilidade. Muitas vezes, o interesse surge depois que a criança assiste a uma apresentação e se encanta com o instrumento.

OBlumenauense: Você também atua com grupos musicais na Holanda. Como são esses trabalhos?

Lucas Debortoli: Eu participo de dois grupos. Um deles é formado majoritariamente por brasileiros, de diferentes regiões do Brasil, além de um músico francês. Tocamos música antiga, barroca, mas também música brasileira, porque essa é a nossa identidade. O outro grupo é formado por estudantes internacionais que vivem na Holanda, com integrantes de vários países, e o foco é o repertório da música renascentista.

OBlumenauense: Você já tinha uma relação com Blumenau antes desta masterclass?

Lucas Debortoli: Sim, eu já estive em Blumenau no ano passado, quando também ministrei algumas aulas. Gosto muito de vir para cá e espero retornar em breve.

Fotos do evento:

Lucas Debortoli | Foto: Redes Sociais

Sobre Lucas Debortoli

Lucas Debortoli é flautista doce e professor. Iniciou sua trajetória artística na dança, em sua cidade de origem, São Jorge d’Oeste, no interior do Paraná. Aos 12 anos teve o primeiro contato com a flauta doce, instrumento que passou a estudar e aprofundar desde então.

Em 2016, começou a estudar flauta doce de forma on-line com Gustavo de Francisco, do Centro Suzuki de Educação Musical, em São Paulo, onde concluiu sua formação em 2023. No mesmo ano, iniciou sua atuação como professor, ministrando aulas presenciais em sua região.

Lucas realizou diversos cursos de formação reconhecidos pela Associação Suzuki das Américas, entre eles: Filosofia Suzuki (2017 e 2020), Flauta Doce Unidade 1 (2017 e 2020), Flauta Doce Unidade 2 (2021) e Flauta Doce Unidade 3 (2021). Trabalha com diferentes métodos de ensino, incluindo o método Suzuki, que prioriza a execução musical sem o uso de partituras, com apresentações realizadas de memória, favorecendo maior conexão com o público.

Como professor convidado, participou de festivais como o Festival de Música de Cascavel (2021), FESTCEM, em Leopoldina (MG), em 2022 e 2024, e da Maratona Suzuki de Flauta Doce de São Paulo, em 2022 e 2023.

Como solista, foi semifinalista da competição internacional Open Recorder Days Amsterdam, em 2019, e vencedor do concurso Jovens Solistas do Festival de Música de Santa Catarina (FEMUSC), em 2023.

Em 2020, mudou-se para São Paulo, onde cursou Licenciatura em Música na Universidade de São Paulo, concluída em 2023. Seu trabalho de conclusão de curso teve como tema “Ensino on-line com método Suzuki: um estudo de caso sobre a flauta doce”.

Ainda em São Paulo, estudou Música Antiga na Escola de Música do Estado de São Paulo (EMESP), entre 2022 e 2023, com Ricardo Kanji, e integrou o grupo Quinta Essentia no projeto Pré-Pró, em 2023.

Em 2024, foi aprovado para estudar flauta doce no Conservatório de Amsterdam. Desde então, reside na capital da Holanda, onde atua regularmente com os grupos Il Canzoniere e Os Sabiás, ambos fundados nos Países Baixos.


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