
Um levantamento conduzido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) acendeu um sinal de alerta sobre o estado da flora catarinense — e, de quebra, expôs falhas graves na própria lista que deveria protegê-la. A pesquisa, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade e pela International Association for Plant Taxonomy (IAPT), identificou 30 espécies exclusivas da região em risco de extinção. O problema é que boa parte delas nem aparece corretamente na lista de espécies ameaçadas do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), documento que orienta as políticas públicas de conservação no Estado.
À frente do estudo está a professora Mayara Krasinski Caddah, que coordenou uma equipe dedicada a olhar de perto para três espécies em particular: Myrceugenia basicordata, Myrceugenia joinvillensis e Miconia ulei, todas exclusivas de Santa Catarina. A escolha não foi por acaso — essas plantas passaram por uma análise de sistemática molecular voltada à conservação, com foco em entender, através do DNA, como anda a saúde genética dessas populações.
O que o DNA revelou
Os resultados não foram animadores. As espécies analisadas mostraram sinais de isolamento entre populações e baixa diversidade genética, características que reduzem o potencial evolutivo das plantas e as deixam mais vulneráveis. Na prática, isso significa menos capacidade de reagir a doenças e a mudanças no ambiente. O material da pesquisa também aponta evidências de reduções populacionais no passado — um indício de que essas fragilidades genéticas talvez não sejam naturais, mas resultado de perturbações ambientais recentes.
E aqui entra o vilão mais conhecido da história: a perda de habitat. Segundo o estudo, essa é a principal ameaça às espécies analisadas na Mata Atlântica catarinense, agravada pela fragmentação florestal — pequenos pedaços de mata isolados uns dos outros, que impedem a troca genética entre populações. Urbanização e mineração também entram na conta como fatores que fragilizam diretamente essas plantas, enquanto as mudanças climáticas vão, aos poucos, encolhendo as áreas com condições adequadas para espécies mais especialistas sobreviverem.
A abordagem populacional adotada pela pesquisa tem uma vantagem prática: permite identificar quais populações estão em situação mais crítica e precisam de intervenções mais urgentes, e quais podem funcionar como matriz genética para fortalecer as demais.

Extinção projetada para até o fim do século
As projeções feitas pelo estudo não são otimistas, especialmente para as duas espécies de Myrceugenia, extremamente especialistas em relação ao habitat. Já hoje, restam pouquíssimas áreas com vegetação adequada para sua sobrevivência. O caso da Myrceugenia joinvillensis chama atenção: as estimativas indicam que ela pode estar praticamente extinta na natureza até o final deste século. De acordo com o material divulgado pela pesquisa, esse cenário tende a se repetir — e a aparecer com mais frequência na literatura científica à medida que novos estudos avancem.

Para chegar a essas conclusões, a equipe combinou análises laboratoriais de DNA, ferramentas estatísticas e critérios científicos internacionais usados para avaliar risco de extinção. O material genético ajudou a reconstruir o histórico de reduções populacionais, enquanto a modelagem cruzou registros de ocorrência das plantas com dados ambientais como clima, altitude e tipo de vegetação. Além disso, pesquisadoras da UFSC realizaram experimentos inéditos em laboratório com a Miconia ulei, testando seu potencial de uso em projetos de reflorestamento. O resultado foi positivo.
Uma lista desatualizada — e isso tem consequências
Se o lado genético da pesquisa já preocupa, o achado mais relevante em termos práticos foi outro: a lista oficial de espécies ameaçadas de Santa Catarina está desatualizada e cheia de falhas. Segundo o material da pesquisa, isso compromete a conservação de diversas plantas nativas do Estado.
O problema é dimensionado: mais da metade dos nomes presentes na lista apresenta algum tipo de erro, incluindo espécies que sequer ocorrem em território catarinense e nomes que não são reconhecidos pela comunidade científica. O resultado prático é uma falsa sensação de que o Estado está protegendo sua flora, quando na verdade, apenas no grupo de plantas analisado pela equipe, existem seis vezes mais espécies ameaçadas do que a lista oficial reconhece.
Se esse número for parâmetro para os demais grupos de plantas — que não entraram no escopo desta pesquisa —, a dimensão do problema pode ser ainda maior. Por isso, o estudo aponta a revisão da lista como a medida mais urgente a ser tomada, com a ressalva de que esse processo depende da participação de outros taxonomistas especializados nas diferentes famílias da flora catarinense.
A pesquisa foi conduzida ao longo dos últimos quatro anos e já tem um sumário executivo disponível ao público. Além da revisão da lista, o material reforça que Santa Catarina precisa investir mais em pesquisa, monitoramento e conservação de espécies ameaçadas — um patrimônio natural descrito como único e valioso para os desafios ambientais das próximas décadas.
Fonte: UFSC
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