Entidades de tecnologia cobram coordenação do governo para evitar falhas na Reforma Tributária

Manifesto enviado ao ministro da Fazenda diz que empresas apoiam a reforma, mas alertam que falta de regras claras pode dificultar adaptação dos sistemas usados por milhões de contribuintes.

As principais entidades que representam as empresas de tecnologia no Brasil decidiram fazer um alerta ao governo federal. A Federação Nacional das Empresas de Informática (FENAINFO), a Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), a Associação Brasileira de Tecnologia para o Comércio e Serviços (AFRAC), a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom) e a Associação de Empresas de Desenvolvimento Tecnológico Nacional e Inovação (P&D Brasil) enviaram um manifesto ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, com um pedido: mais organização e previsibilidade na implantação da Reforma Tributária.

As cinco entidades representam empresas que desenvolvem os programas de computador responsáveis por calcular impostos, emitir notas fiscais eletrônicas e transmitir informações para a Receita Federal. Esses sistemas são usados diariamente por milhões de empresas em todo o país. Se as regras mudam constantemente ou não ficam claras, os softwares precisam ser refeitos, testados e atualizados várias vezes antes de entrarem em operação.

No documento, as entidades deixam claro que são favoráveis à Reforma Tributária sobre o Consumo. O objetivo do manifesto não é pedir adiamento do cronograma nem alterar a lei aprovada pelo Congresso. O pedido é outro: que o governo coloque em prática mecanismos de coordenação já previstos na Constituição, na Lei Complementar nº 214/2025 e no Decreto nº 12.955/2026 para que Receita Federal, Comitê Gestor do IBS e demais órgãos atuem de forma integrada.

Segundo as associações, essa integração ainda não aconteceu de forma efetiva. O manifesto afirma, por exemplo, que o setor ainda não conhece a composição do Fórum de Harmonização previsto na legislação, responsável por alinhar normas, interpretações e procedimentos entre os tributos criados pela reforma.

Na prática, a falta dessa coordenação deixa dúvidas sobre como funcionarão diversos pontos do novo sistema tributário. Entre eles estão os modelos de documentos eletrônicos, a comunicação entre os sistemas do governo e das empresas (APIs), as regras do Split Payment — mecanismo que fará a divisão automática do pagamento dos tributos —, a forma de apuração dos impostos, além do tratamento do Imposto Seletivo, do IPI e das empresas enquadradas no Simples Nacional. Enquanto essas definições não são consolidadas, as empresas de tecnologia precisam desenvolver soluções sem saber se terão de refazê-las mais adiante.

Outro fator que preocupa o setor é a velocidade das mudanças. Apenas entre janeiro e junho de 2026 foram identificadas aproximadamente 386 normas fiscais, das quais 116 tratavam diretamente da Reforma Tributária. Muitas sofreram alterações ou revisões, obrigando as empresas a interromper projetos, refazer códigos, repetir testes e reiniciar processos de homologação. Isso aumenta custos e consome tempo das equipes de desenvolvimento.

As entidades alertam que esse cenário se torna ainda mais delicado porque a nova fase da Reforma Tributária começa em 1º de janeiro de 2027. Na avaliação do setor, manter mudanças constantes até próximo da entrada em vigor do novo modelo pode comprometer a entrega dos sistemas necessários para empresas e contribuintes cumprirem corretamente suas obrigações fiscais.

Para reduzir esses riscos, o manifesto apresenta duas medidas consideradas prioritárias. A primeira é criar um repositório único com todas as normas da Reforma Tributária e um canal permanente de comunicação técnica entre Receita Federal, Comitê Gestor do IBS e os demais órgãos responsáveis. A intenção é evitar interpretações diferentes sobre um mesmo tema e facilitar o acesso às informações por empresas e desenvolvedores.

A segunda proposta é manter ambientes de testes estáveis durante toda a implantação da reforma. Assim, as empresas poderão validar seus sistemas sempre que houver mudanças técnicas, sem precisar reiniciar todo o processo de desenvolvimento a cada nova atualização publicada pelo governo.

No encerramento do documento, as entidades reforçam que o manifesto não representa oposição à Reforma Tributária. O texto afirma que o objetivo é contribuir para que a maior mudança no sistema tributário brasileiro seja implementada com segurança jurídica, regras claras e coordenação entre os órgãos públicos, reduzindo riscos para empresas, desenvolvedores e contribuintes.


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