Tem uma comporta parada lá no Alto Vale do Itajaí desde 2023. E não é qualquer comporta: é uma das duas da Barragem Norte, em José Boiteux, a maior estrutura de contenção de cheias de Santa Catarina. Quem garante isso é o próprio secretário de Estado da Proteção e Defesa Civil, coronel Fabiano de Souza, durante reunião da Comissão Mista sobre os Impactos do El Niño, na Assembleia Legislativa, nesta quinta-feira (25/06/26).
E o motivo de tanta atenção em cima do assunto tem nome: Super El Niño. A previsão da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration / EUA), divulgada no começo de junho, é de chuva bem acima da média para o segundo semestre, com pico esperado entre outubro e dezembro. Justo no período em que a barragem precisaria estar 100% em operação.
Por enquanto, não está. A comporta segue fechada, emperrada, desde as cheias de 2023. E não foi só a peça que quebrou na época: o casaril inteiro do maquinário foi destruído. Resultado disso? Hoje, pra abrir ou fechar a comporta que ainda funciona, é preciso levar um equipamento externo até o local e fazer um bombeamento hidráulico manual. Em plena emergência, isso não é nada prático.
Uma barragem gigante, com um problema do tamanho dela
José Boiteux não é uma estrutura qualquer. Acumula 357 milhões de metros cúbicos de água — três vezes e meia a capacidade de Ituporanga, e uma vez e meia a soma das outras duas barragens da região, Ituporanga e Taió juntas. Protege boa parte do Médio e do Baixo Vale do Itajaí, incluindo Blumenau, Indaial, Timbó, Gaspar, Ilhota e Itajaí. Já o Alto Vale, segundo o secretário, não sofre influência direta dela.
Só que é, disparado, a mais complicada das três. Está dentro da Terra Indígena Xokleng, é propriedade da União, e carrega décadas de pendência. Foi erguida ainda nos anos 80 e entregue no início dos 90 — sem que o berço do vertedouro fosse totalmente concluído. Tem sambaqui no entorno, exige autorização de órgãos federais como ICMBio e Ibama (o secretário, inclusive, recebe técnicos desses órgãos já na semana seguinte à audiência pra fazer uma análise do sítio arqueológico) e arrasta processos judiciais que remontam ao início dos anos 2000.
Por isso o secretário fez questão de separar bem as coisas: uma coisa é manutenção de rotina, outra é manutenção emergencial. E a de agora, segundo ele, entra na segunda categoria. Simples assim: é a única das três que não está com 100% da capacidade operacional.
O que está sendo feito, afinal
O contrato com a empresa responsável foi assinado há pouco mais de um mês. São quatro frentes de trabalho, mas duas concentram a prioridade. A primeira é o desempenamento do êmbolo da comporta — serviço que acontece literalmente dentro da estrutura, num vão de cerca de 60 metros, em área de acesso restrito. É por isso, segundo Fabiano de Souza, que os vídeos que circularam nas redes sociais mostrando “nenhuma obra acontecendo” não captam nada do que de fato está sendo feito. Simplesmente não tem como filmar aquilo de fora.
A segunda frente é a recomposição da casa de máquinas, pra acabar com a dependência do bombeamento externo. Essa parte, sim, vai aparecer: envolve alvenaria em cima da barragem e cercamento da área.
A meta é concluir o desempenamento até o final de julho. A reconstrução completa da casa de máquinas deve levar um pouco mais de tempo. Mas a ideia, segundo o secretário, é deixar tudo resolvido antes da primavera, quando o volume de chuva costuma disparar no estado.
E a história dos anos parados?
Outro ponto cobrado na comissão foi sobre uma licitação pra recuperar a barragem que teria sido aberta lá em 2023 e cancelada na sequência, com recursos federais inclusive já reservados na época. O secretário não confirmou se é exatamente o mesmo processo, mas reconheceu que existe, sim, um histórico e tanto de idas e voltas envolvendo acordos com a União, estudos ambientais, questões fundiárias e demandas da comunidade indígena. Um exemplo citado por ele: a reclamação de que a estrada de acesso fica abaixo da cota do reservatório, alagando toda vez que a barragem enche — um erro de projeto topográfico da época da construção, segundo o próprio secretário.
Direto ao ponto
Foi isso, basicamente, que o deputado Napoleão Bernardes pediu ao secretário: uma resposta clara pra população do Vale do Itajaí, sem termo técnico. E a resposta foi essa. Ituporanga: 100% operacional, com controle remoto. Taió: 100% operacional, com controle local. José Boiteux: em manutenção, com expectativa de ficar plenamente funcional dentro de mais ou menos 60 dias.
Vale lembrar uma coisa que o coronel repetiu várias vezes na audiência: obra de barragem mitiga o risco de enchente, não elimina ele. El Niño, segundo ele, também não é sinônimo de desastre — é sinônimo de chuva acima da média. O problema mesmo é quando essa chuva cai concentrada, em poucas horas, como aconteceu em 2023 e nos grandes desastres de 1983 e 1984. E é justamente para esses momentos que a comporta de José Boiteux precisa estar pronta pra fechar.
Vídeo da Comissão Mista da Alesc sobre os Impactos do El Niño com o Secretário da Defesa Civil de Santa Catarina.





