Energia elétrica: negociação de tarifa entre Brasil e Paraguai avança em Itaipu

Revisão do tratado pode reduzir custo da energia a partir de 2027 e impactar consumidores e indústria.

Foto: Tânia Rêgo [Agência Brasil]

A revisão das bases financeiras da Itaipu Binacional começa a ganhar contornos mais concretos — e o impacto pode chegar direto à conta de luz. Em negociação entre Brasil e Paraguai, a nova tarifa da energia gerada pela usina deve ficar mais baixa a partir de 2027, segundo indicou o diretor-geral brasileiro, Enio Verri, em entrevista concedida nesta segunda-feira (13/04/26) à equipe da Agência Brasil, em Foz do Iguaçu (PR) .

A expectativa é de que ainda neste ano, até dezembro, seja anunciado o novo valor — seja para 2027 ou para um período mais longo, dependendo de como as negociações evoluírem. A sinalização é clara: a usina quer se posicionar como fornecedora da energia mais barata do país.

 

Enio José Verri, diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional | Foto: Tânia Rêgo [Agência Brasil]
Anexo C do Tratado de Itaipu

O debate gira em torno do chamado Anexo C do Tratado de Itaipu, firmado em 1973, que define as regras financeiras da hidrelétrica e previa revisão após 50 anos. Esse ponto virou o centro de um embate econômico clássico: de um lado, o Brasil busca reduzir o custo da energia; do outro, o Paraguai vê na tarifa uma fonte estratégica de receita para financiar seu desenvolvimento.

Hoje, há um arranjo provisório. O custo unitário dos serviços de eletricidade (Cuse) foi fixado em US$ 19,28 por kW/mês entre 2024 e 2026, mas a tarifa efetiva para o mercado brasileiro está em US$ 17,66 por kW/mês. Essa diferença só é possível graças a um aporte extra de US$ 285 milhões feito pela própria Itaipu, com o objetivo de segurar o preço final ao consumidor .

Pelo acordo firmado em 2024, a tendência futura é que a tarifa passe a refletir apenas os custos operacionais da usina, ficando entre US$ 10 e US$ 12 por kW/mês — um patamar significativamente mais baixo .

Interesses divergentes

A equação, porém, está longe de ser simples. O Paraguai não consome toda a sua metade da energia gerada e, por isso, tem interesse em elevar o valor cobrado. Já o Brasil quer exatamente o oposto: baratear a energia para consumidores e indústria.

Uma alternativa em discussão é permitir que a energia paraguaia seja vendida diretamente no mercado livre brasileiro, ampliando as possibilidades de receita para o país vizinho .

As decisões precisam ser consensuais: a diretoria da usina é composta por seis representantes de cada país, e qualquer mudança exige acordo entre os dois lados. Além disso, o novo modelo ainda terá que passar pelos parlamentos de Brasil e Paraguai antes de entrar em vigor .

Peso no sistema elétrico

Os números ajudam a entender por que essa negociação é tão sensível. Itaipu responde por cerca de 8% da energia consumida no Brasil e impressionantes 78% no Paraguai. Com 20 unidades geradoras de 700 MW cada e potência instalada de 14 mil MW, a usina figura entre as maiores do mundo — e frequentemente lidera em geração anual .

Modernização e expansão no horizonte

Enquanto a discussão tarifária avança, a usina também passa por um amplo processo de atualização tecnológica. O plano, iniciado em maio de 2022, prevê investimentos de aproximadamente US$ 900 milhões ao longo de 14 anos, com conclusão prevista para 2035 .

O foco está na modernização de sistemas eletrônicos e computacionais, muitos ainda baseados em tecnologia da década de 1980, além da renovação do centro de controle, das 20 unidades geradoras e de uma subestação. Também estão previstos novos espaços para armazenamento de equipamentos .

Equipamentos pesados, como turbinas e a própria barragem — com vida útil estimada em quase 200 anos — ficam fora dessa etapa, já que seguem em boas condições e passam por manutenção contínua .

No campo das possibilidades, a empresa ainda estuda ampliar a geração, seja com a instalação de duas novas turbinas, seja com ganhos de produtividade nas unidades atuais — cenário que depende de estudos técnicos e de impacto socioambiental.

Com informações da Agência Brasil


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