
Em Blumenau, Paulo Doniseti Leme Jr. sorriu para a câmera e levantou o polegar poucos dias depois de receber um novo fígado. A cena registrada no Hospital Santa Isabel parecia simples. Mas, para o professor de biologia e barbeiro de 38 anos, representava o fim de uma espera marcada pela doença, pela distância da família e pela incerteza sobre o futuro.
Natural de São Paulo, ele recebeu em 2024 o diagnóstico de colangite esclerosante primária, uma doença rara e autoimune que compromete os canais biliares do fígado. Com a progressão do quadro, o transplante hepático tornou-se sua única alternativa de tratamento.
Em dezembro de 2025, ele entrou para a fila de transplante do Hospital Santa Isabel e precisou se mudar temporariamente para Blumenau para aguardar um órgão compatível. Foram cerca de 40 dias longe da família, convivendo com sintomas cada vez mais severos, como cansaço extremo, falta de ar, dificuldades de memória e uma intensa coceira causada pela doença.
A distância foi um dos desafios mais difíceis. A espera pela ligação que poderia mudar sua vida exigiu equilíbrio emocional diante da ansiedade e das dúvidas que acompanham quem depende de um transplante.
Até que o telefone tocou. “A ligação foi uma explosão de sentimentos. Vontade de chorar, de pular de alegria, de ligar para todos da família e contar que a espera tinha chegado ao fim”, lembra.

O transplante foi realizado no dia 9 de abril, no Hospital Santa Isabel. Ainda durante a recuperação, Paulo registrou outro momento que hoje guarda com carinho: o período em que passou internado após a cirurgia, já sentindo os primeiros sinais de uma vida diferente.
As mudanças vieram rápido. Os sintomas que limitavam sua rotina desapareceram e atividades simples voltaram a fazer parte dos dias. “Hoje minha qualidade de vida é de uma pessoa que não fez transplante. Consigo me alimentar, dormir e fazer todas as tarefas que faria normalmente”, afirma.
Para a médica Dra. Maíra Silva de Godoy, responsável técnica pela Equipe de Transplante Hepático do Hospital Santa Isabel, o procedimento costuma representar muito mais do que a recuperação física.
Depois de meses ou até anos convivendo com doenças graves, muitos pacientes passam a enxergar novamente perspectivas para o futuro. “O transplante geralmente devolve autonomia, melhora significativa da qualidade de vida e possibilita a retomada de atividades pessoais, profissionais e sociais”, explica.
Ela destaca que o sucesso do tratamento não depende apenas da cirurgia. O acompanhamento contínuo é essencial para preservar a saúde do órgão transplantado e garantir qualidade de vida ao paciente.
No Hospital Santa Isabel, esse cuidado envolve uma equipe multiprofissional formada por médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e assistentes sociais, que acompanham cada etapa da jornada.
Referência para os 293 municípios catarinenses e também para pacientes de outros estados, o Hospital Santa Isabel acompanha atualmente 881 pacientes transplantados de fígado e 32 transplantados cardíacos.
Somente em 2025, a instituição realizou 368 transplantes. Foram 220 de rim, 102 de fígado, 22 de pâncreas, 16 de córnea e 8 de coração.
Entre tantos momentos vividos durante a doença e a recuperação, um deles permanece especial para Paulo. Meses depois da cirurgia, a cena era outra. Dentro do carro, ao lado da esposa e da filha, ele voltava a viver algo que a doença havia interrompido: a rotina em família.

“Meu sonho era rever minha filha. Fiquei dois meses sem vê-la e isso era o que eu mais queria. Graças a Deus consegui abraçar e beijar muito ela”, conta. No Dia Mundial dos Transplantados, a experiência do professor também serve como mensagem de conscientização sobre a importância da doação de órgãos.
Para ele, o impacto vai muito além de quem recebe o transplante. Alcança toda a família que acompanha a luta contra a doença e compartilha a espera por uma nova chance. “Quando o telefone toca, toda a vida dos familiares volta a ser restaurada. Eu vivenciei isso e a felicidade é incrível”, diz.
Histórias como a de Paulo ajudam a dimensionar a importância da doação de órgãos em um país que registrou mais de 31 mil transplantes em 2025, o maior número da história, mas que ainda convive com milhares de pacientes à espera de uma oportunidade para voltar a viver plenamente.




