Santa Catarina intensificou ações de prevenção a desastres naturais ao mesmo tempo em que acompanha mudanças previstas no clima para os próximos meses. A possível atuação do fenômeno El Niño deve influenciar o volume de chuvas e as temperaturas ao longo do ano, exigindo planejamento e reforço na estrutura de resposta.
A projeção foi discutida no 240º Fórum Climático Catarinense, que reuniu meteorologistas da Defesa Civil estadual, da Epagri/Ciram, do AlertaBlu e pesquisadores do IFSC e da UFSC. O indicativo é de aumento na frequência e no volume de chuva no Sul do Brasil, especialmente no segundo semestre, com maior atenção para a primavera.
Apesar da tendência, ainda não é possível definir com precisão quais regiões serão mais afetadas nem quando os impactos serão mais intensos. Até lá, o cenário deve ser de menor volume de chuva. Entre abril e maio, a previsão indica precipitação entre normal e abaixo da média, mantendo o alerta para áreas com escassez hídrica. A partir de junho, os volumes tendem a aumentar gradualmente.
No campo das temperaturas, a expectativa é de queda nas mínimas ao longo dos próximos meses, embora os valores devam permanecer acima da média. Episódios de frio mais intenso podem ocorrer a partir da segunda quinzena de maio, mas de forma menos duradoura, intercalados com períodos de aquecimento — comportamento típico em anos de El Niño.
Aprendizados recentes e resposta antecipada
A mobilização do estado ocorre após eventos recentes que deixaram impactos significativos. Entre 2023 e o início de 2024, períodos de chuva persistente provocaram transtornos, especialmente no Alto Vale do Itajaí. Em outubro de 2023, o aumento rápido no nível dos rios resultou em inundações em diversos municípios.
A experiência levou à ampliação de investimentos e ao fortalecimento das estratégias de prevenção. Apenas no Alto Vale do Itajaí, os recursos superam R$ 485 milhões, destinados a obras e ações estruturantes.
Um dos principais focos é o sistema de barragens. Com investimento de R$ 324 milhões, as intervenções incluem recuperação, modernização e melhorias operacionais, além de estudos para novas soluções de contenção. Essas estruturas ajudam a controlar o volume de água durante períodos de chuva mais intensa, reduzindo impactos nas cidades.
Também foram destinados mais de R$ 133 milhões para limpeza, desassoreamento e melhorias em rios, aumentando a capacidade de escoamento e diminuindo o risco de transbordamentos, principalmente em áreas urbanas.
Monitoramento ampliado e atuação local
A estratégia inclui ainda o reforço no monitoramento. A rede de estações hidrometeorológicas será ampliada de 42 para 172 unidades até o fim do ano, permitindo acompanhamento em tempo real de chuva, nível dos rios e ventos, além de melhorar a emissão de alertas.
No âmbito municipal, o estado também investiu na estrutura das defesas civis. Desde 2023, foram entregues mais de 196 kits de pontes para restabelecer acessos em áreas afetadas, além de equipamentos distribuídos às equipes locais, ampliando a capacidade de resposta.
Segundo o secretário estadual de Proteção e Defesa Civil, Mário Hildebrandt, a preparação envolve diferentes frentes, incluindo obras, tecnologia e capacitação. Duas edições do Simulado Geral de Desastres já foram realizadas, sendo que a mais recente contou com a participação de 294 municípios.
Além disso, o estado mantém estrutura para atendimento imediato. Desde 2023, mais de R$ 40 milhões foram aplicados em assistência humanitária, com distribuição de itens essenciais às famílias atingidas. Três centros regionais também mantêm estoques para envio rápido aos municípios.
O que está por trás das mudanças no clima
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico na faixa equatorial, com elevação de pelo menos 0,5 °C acima da média por vários meses. Esse processo altera a circulação atmosférica e interfere na distribuição de calor e umidade em diferentes regiões do planeta.
O fenômeno oposto, a La Niña, ocorre quando há resfriamento dessas águas, também com impactos no clima global.
De acordo com os meteorologistas Nicolle Reis e Caio Guerra, da Defesa Civil estadual, os episódios de El Niño não seguem um intervalo fixo, mas costumam ocorrer a cada dois a sete anos, com duração média entre nove meses e um ano — podendo se prolongar, como no evento de 2015 e 2016.

Impactos esperados em Santa Catarina
No Sul do Brasil, o El Niño está associado a temperaturas mais elevadas e aumento das chuvas, especialmente na primavera e no verão. Em Santa Catarina, isso pode significar maior frequência de dias quentes e de episódios de chuva volumosa.
O transporte de umidade da região amazônica, combinado com o aquecimento, pode antecipar a formação de tempestades ainda no fim do inverno. Com isso, cresce a possibilidade de temporais com chuva intensa, rajadas de vento e granizo.
O período de maior atenção costuma ocorrer entre setembro e novembro, quando aumenta o risco de enxurradas, elevação dos níveis dos rios e inundações.
Diante desse cenário, sob a gestão do governador Jorginho Mello, o estado busca antecipar riscos, combinar investimentos estruturais com monitoramento climático e garantir respostas mais rápidas para reduzir impactos à população.





