Luísa Soares tinha 13 anos quando entrou em uma aula gratuita do projeto Dança nos Bairros, mantido pelo município de Blumenau. Logo no primeiro ano, ainda dando os passos iniciais como bailarina, procurou a professora para saber o que precisava fazer para trabalhar profissionalmente com aquilo.
Não era apenas curiosidade. Já havia um plano começando a surgir.
Luísa buscou novas aulas, participou de cursos e passou a se dedicar cada vez mais à dança. Estudou o ensino fundamental na Escola Básica Municipal Lúcio Esteves e o ensino médio na Escola de Educação Básica Luiz Delfino. Depois, ingressou no curso de Educação Física da FURB.

A formação não parou na graduação. Luísa concluiu licenciatura e bacharelado em Educação Física e também fez pós-graduação em Dança Educacional. Desde 2013, atua como professora e, ao longo da carreira, assumiu ainda as funções de coreógrafa, diretora artística, diretora pedagógica e produtora de espetáculos e projetos de dança.
Aos 32 anos, ela é fundadora, proprietária e diretora da Station Housin, escola que reúne cerca de 300 bailarinos e uma equipe de 12 professores.
Uma escola criada durante a pandemia
A Station Housin nasceu em fevereiro de 2021, em um período ainda marcado pelas restrições e incertezas da pandemia. Luísa já dava aulas em diferentes pontos de Blumenau, mas queria construir um espaço próprio, preparado para receber os alunos com mais segurança, liberdade e acolhimento.
Desde o início, a proposta não era apenas oferecer aulas. A ideia era desenvolver artistas, formar pessoas e criar oportunidades para crianças, adolescentes e adultos descobrirem até onde poderiam chegar por meio da dança. “Eu queria proporcionar um ambiente onde as pessoas se sentissem vistas e pudessem acreditar mais em si mesmas”, contou.
Para Luísa, muito do que se aprende em uma sala de dança segue com os alunos quando eles saem dali. A disciplina aparece nos estudos. A confiança pesa nas decisões. E a coragem necessária para subir ao palco também ajuda a enfrentar outros desafios.
A escola foi criada inicialmente com o nome Station Dance Complex. Mais tarde, passou por uma reformulação de marca e se tornou Station Housin.
A escolha veio depois de uma pesquisa com os próprios alunos. Muitos disseram que enxergavam a escola como uma segunda casa. Alguns a descreveram até como o lugar onde mais se sentiam acolhidos, compreendidos e à vontade.
A casa acabou entrando no conceito da marca. Um dos personagens usados pela escola é justamente uma pequena residência em movimento.

Matheus Vinotti entrou no projeto em 2021
Matheus Vinotti começou a trabalhar na Station Housin em 2021, como professor das turmas de hip hop. Em 2023, tornou-se diretor artístico e coreógrafo das companhias oficiais da escola.
Ao lado de Luísa, ele participou da criação dessas equipes e assumiu um papel importante na construção artística e coreográfica dos projetos competitivos. A intenção não era apenas preparar apresentações, mas formar bailarinos capazes de enfrentar processos longos, intensos e coletivos.
Além da companhia que representou o Brasil no Mundial, a Station Housin mantém as companhias Júnior e Sênior. Os grupos representam a escola e Blumenau em competições e festivais nacionais, como o Prêmio Curitiba, o Timbó em Dança e o Festival de Dança de Joinville, entre outros eventos.
É uma rotina que envolve aulas, preparação física, ensaios, viagens e construção de coreografias. Não se resume aos minutos passados no palco.

A experiência que despertou o projeto mundial
A aproximação de Luísa e Matheus com o World Hip Hop Dance Championship aconteceu em 2023. Naquele ano, os dois viajaram aos Estados Unidos com a Dança Ventura, companhia de Indaial que havia aberto uma chamada para integrar o grupo.
Eles participaram do Mundial como bailarinos. A experiência mudou a dimensão do que imaginavam ser possível.
O evento reúne equipes classificadas em seletivas realizadas em dezenas de países. Durante vários dias, bailarinos e coreógrafos acompanham apresentações, participam de aulas e entram em contato com diferentes formas de trabalhar o hip hop e as danças urbanas.
Ao retornar a Blumenau, Luísa e Matheus decidiram que queriam proporcionar aquela experiência aos alunos da Station. Começaram, então, a estruturar uma companhia adulta e abriram audições.

Não havia garantia de classificação. Havia trabalho pela frente.
Em 2024, o projeto ganhou preparação física, desenvolvimento técnico, ensaios intensivos e construção coreográfica. A equipe participou da Seletiva Nacional do Hip Hop International e conquistou duas vagas para o Mundial: uma na categoria MegaCrew, voltada às grandes formações, e outra na Adult, com nove bailarinos maiores de 18 anos.
Pasteladas, brigadeiros e muitos ensaios
A aprovação na seletiva resolveu apenas uma parte da jornada. Os custos da viagem ficaram sob responsabilidade dos participantes, e foi preciso buscar recursos para que todos conseguissem embarcar.
Bailarinos, professores e familiares organizaram pasteladas, vendas de brigadeiros e outros eventos. Enquanto o dinheiro era arrecadado, os treinos continuavam.
Em julho de 2025, cerca de 30 bailarinos, com idades entre 12 e 30 anos, viajaram para Phoenix, no estado norte-americano do Arizona. A Station Housin tornou-se a primeira escola de Blumenau a participar do World Hip Hop Dance Championship, integrando a Seleção Brasileira de Hip Hop.
A coreografia foi construída a partir de uma mixagem de músicas e terminou com uma composição de Sérgio Mendes, levando uma referência brasileira ao palco.

O maior resultado não veio em forma de colocação.
Para quase todos os bailarinos, aquela foi a primeira viagem internacional. O grupo assistiu a algumas das equipes mais preparadas do mundo, conheceu participantes de diferentes nacionalidades e acompanhou de perto novas linguagens, métodos de treinamento e formas de interpretar a cultura hip hop.
“Foi uma experiência de muita aprendizagem, determinação e coragem. Esse intercâmbio cultural foi o que mais trouxemos para casa”, resumiu. O Mundial também conta com batalhas, workshops e atividades formativas. As apresentações são avaliadas por critérios como técnica, execução, musicalidade, criatividade, presença, variedade de estilos, construção coreográfica e trabalho coletivo.
Viver da dança é possível
Mesmo depois de mais de uma década trabalhando na área, Luísa ainda encontra jovens que enfrentam resistência quando dizem à família que pretendem viver da dança. Há quem veja a arte apenas como uma atividade paralela, sem imaginar as diferentes possibilidades profissionais que existem no setor.
Luísa segue por outro caminho. Para ela, a dança exige estudo, planejamento e dedicação como qualquer outra profissão. Um bailarino pode trabalhar com ensino, companhias, espetáculos, produções culturais, shows, cinema, música, turismo e entretenimento.
Ela cita colegas que construíram carreiras em países como Turquia e China. A própria Station Housin produz espetáculos e desenvolve projetos além das aulas regulares. “Não é uma jornada fácil, mas é possível ter uma vida próspera e plena através da arte e da dança”, afirmou.
Novo MegaCrew começa a ser formado
A participação no Mundial de 2025 não encerrou o projeto. A escola agora começa a formar um novo MegaCrew para disputar a Seletiva Nacional do Hip Hop International em 2027.
O primeiro objetivo será conquistar novamente uma vaga na Seleção Brasileira. Caso consiga a classificação, a equipe representará o país no World Hip Hop Dance Championship de 2028, nos Estados Unidos.
A audição gratuita será realizada no dia 26 de agosto de 2026, às 20h, na sede da Station Housin, localizada na Rua Almirante Tamandaré, 888, em Blumenau. Podem participar bailarinos de Blumenau e região a partir de 13 anos, mesmo que estudem ou tenham estudado em outras escolas e grupos.
A seleção não busca somente quem já chega tecnicamente pronto. A escola também observará o comprometimento, a responsabilidade, a disposição para aprender, a capacidade de trabalhar em equipe e a disponibilidade para enfrentar um projeto de longo prazo.
Depois da escolha dos integrantes, começam os treinamentos para a seletiva de 2027. Será um caminho de ensaios, preparação física, competições e desenvolvimento coletivo.
Caso a vaga seja conquistada, a escola também pretende estender parte da viagem até Los Angeles. A cidade concentra estúdios, coreógrafos e profissionais ligados às indústrias da música, do cinema e do entretenimento.
Mas isso vem depois. Primeiro, será preciso formar o grupo e conquistar o direito de retornar aos Estados Unidos.
A caminhada lembra aquela iniciada por Luísa aos 13 anos, em uma atividade gratuita oferecida nos bairros de Blumenau. Naquele momento, ela ainda perguntava o que precisava fazer para se tornar profissional.
Hoje, ajuda outros bailarinos a fazerem a mesma pergunta — e a encontrarem caminhos para chegar lá. As inscrições para a audição devem ser feitas por mensagem no perfil do Instagram @station.housin.







