O cheiro de querosene misturado ao perfume do café. Uma TV ligada ao fundo. Linhas coloridas espalhadas sem ordem sobre a mesa — de propósito. Esse era o cenário do quartinho nos fundos da casa de Irmgard Bronemann, a Oma, como os netos a chamavam. Ali, sentada no sofá, ela sempre era vista bordando — um hábito que a acompanhou até o fim da vida, aos 70 e poucos anos.
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Décadas depois, duas de suas netas — Suzan Steinhausen, de 51 anos, pedagoga de formação, e Fábia Lange de Assis, de 52 — transformaram essa memória afetiva em empreendimento. A Casa da Oma, foi aberta em 2023, no mesmo imóvel onde a avó morava, na região Central de Blumenau, próximo ao Supermercado Angeloni. A escola de bordado atende aproximadamente 100 alunas durante a semana.

“Quando eu e minha prima éramos crianças, trocávamos tarefas domésticas na casa da Oma por um pedacinho de tecido riscado para poder bordar”, lembra Suzan. A memória diz muito sobre a relação das duas com a avó — e com a arte que ela praticava.
Uma técnica muito presente no Sul
O bordado que Suzan e Fábia ensinam não é qualquer bordado. É uma técnica regional, fortemente associada à Casa Mayer — loja histórica de Blumenau que vendia bordados, porcelanas, tapetes e cristais, e cujas peças viraram objeto de desejo de gerações. Toalhas bordadas com papoulas, flores de jardim e galhinhos de trigo decoravam muitos enxovais de noivas na região. “Ter uma peça bordada da Casa Mayer era algo muito diferenciado”, lembra Suzan.

A técnica tem características muito específicas: o tecido precisa ter uma trama marcada, quase como uma tela, e a linha precisa fechar exatamente essa trama. O fio usado por elas vem da França (marca DMC), porque a produção nacional praticamente desapareceu. O tecido ainda é fabricado pela Dohler, de Joinville.
Para riscar os desenhos no tecido, as professoras ainda usam uma técnica antiga: o contorno é desenhado em papel vegetal, furado com agulha ponto a ponto, e transferido com uma mistura de parafina, pó xadrez e querosene. “Esse cheiro de querosene lembra muito a Oma”, diz Suzan.
O carro que bordou uma festa histórica
Em 2022, o bordado blumenauense foi reconhecido como patrimônio imaterial da cidade. Para celebrar, a prefeitura quis que o carro alegórico da Oktoberfest daquele ano — o primeiro após a pandemia — fosse todo bordado à mão. Suzan e Fábia toparam o desafio. Foram 240 horas de trabalho só no carro. Os trajes da realeza, bordados pelas duas, demandaram um mês cada.
“Até hoje fico deslumbrada olhando as fotos”, diz Suzan. Foi também esse projeto que aproximou as primas como dupla de trabalho — e deu o empurrão para a abertura da Casa da Oma no ano seguinte.
Dezenas de alunas e o bordado como terapia
As aulas acontecem de segunda a quinta, das 14h às 17h, com café e conversa garantidos. Há também uma turma noturna, mais jovem — mulheres entre 35 e 45 anos que trabalham durante o dia. A maioria das alunas, porém, tem mais de 60 anos: aposentadas que vão tanto para aprender quanto para se encontrar.
“Às vezes a pessoa nem vai porque quer aprender a bordar. Já sabe. Vai pela interação, para curar uma depressão, uma crise de ansiedade. É uma terapia”, define Suzan. Ela conta que não são raras as mensagens de alunas dizendo que adiantaram tarefas domésticas para poder bordar.
Além das turmas fixas em Blumenau, Suzan já levou aulas para outras cidades como Rodeio, Ascurra e Timbó. O convite geralmente parte de particulares ou lojas de aviamentos. Em todas elas, o modelo é o mesmo: grupos pequenos, ambiente acolhedor e muito fio.

“Para nós não é trabalho”
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, Suzan reflete sobre o que significa empreender a partir de uma paixão. A Casa da Oma nasceu sem grande planejamento — “começamos sem pretensão nenhuma” —, e foi crescendo por acerto, erro e muito amor pelo que fazem.
“Para mim e para minha prima aquilo ali não é trabalho. É uma realização. Então se tivermos que passar o final de semana bordando, criando peças, fazendo encomendas, não é algo maçante”, diz ela.
A mensagem que ela deixa para outras mulheres que pensam em empreender é direta: “Meu desejo seria que todo mundo pudesse trabalhar com o que ama. Porque daí não é trabalho.” A mãe de Suzan, com 83 anos, ainda borda. A Oma seria capaz de imaginar que o quartinho bagunçado e cheiroso de querosene um dia se tornaria escola?
A reportagem de hoje é em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, comemorado neste domingo, 8 de março de 2026. Tanto as empreendedoras quanto o público que atendem são mulheres.
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