A principal novidade da construção civil em 2026 está na maneira de projetar, comprar e montar. Um levantamento do portal OBlumenauense revelou que a tendência é empregar menos matéria-prima, substituir parte do clínquer do cimento (principal ingrediente e base), produzir componentes em fábrica, reformar antes de demolir e acompanhar cada material desde a origem até seu reaproveitamento.
Esse movimento, porém, ocorre em mercados muito diferentes. O Brasil apresenta crescimento moderado, mas convive com juros e custos elevados. A União Europeia direciona investimentos para infraestrutura, eficiência energética e renovação de edifícios. A China enfrenta uma forte retração imobiliária, ao mesmo tempo que amplia a construção pré-fabricada, os materiais verdes e a modernização dos prédios existentes.
Para ilustrar cada uma das ideias, abusamos da Inteligência Artificial, portanto, nenhuma dessas imagens é real. O objetivo é dar uma ideia, até por conta de direitos autorais. Já os conceitos e dados, têm sempre o link (em azul) de onde foram buscados para produzir essa matéria.
Brasil: atividade cresce, mas o mercado de materiais perde força
A construção brasileira avançou 2,9% no primeiro trimestre de 2026. Depois de um crescimento de apenas 0,5% em 2025, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção projeta expansão de 1,2% para o PIB setorial neste ano. Entre janeiro e abril, foram criados 143.547 empregos formais, 8,1% acima do mesmo período de 2025, segundo a CBIC.
O quadro muda quando se observa a indústria de materiais. Em julho, a Abramat reduziu sua previsão de crescimento das vendas em 2026 de 1,9% para 0,5%. No primeiro semestre, o faturamento deflacionado do setor caiu 3,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Juros elevados, endividamento das famílias e a baixa velocidade dos programas de reforma pesaram no resultado, conforme a Abramat.
Os números não são necessariamente contraditórios. O PIB da construção acompanha obras em andamento, enquanto as vendas de materiais também dependem do varejo, das pequenas reformas, dos estoques e das condições de crédito. O resultado é uma recuperação desigual: infraestrutura, obras contratadas e determinados segmentos habitacionais podem avançar, mesmo com fraqueza na loja de material de construção.

Europa: a recuperação passa pela reforma
A Federação da Indústria Europeia da Construção estima crescimento de 2,7% do investimento no setor em 2026. A engenharia civil continua como o segmento mais resistente, apoiado por projetos de transporte, energia e água. A construção residencial deve reagir depois de uma base muito baixa, enquanto a recuperação de edifícios ganha espaço, segundo o Relatório Estatístico 2026 da FIEC.
A reforma deixou de ser um mercado complementar. Cerca de 85% dos edifícios europeus foram construídos antes de 2000, 75% apresentam baixo desempenho energético e apenas 1% passa por renovação a cada ano. Os edifícios respondem por aproximadamente 40% do consumo de energia da União Europeia, segundo a Comissão Europeia.
A nova diretiva europeia para o desempenho energético dos edifícios, cujo prazo de transposição pelos países terminou em maio de 2026, estabelece metas graduais. No setor residencial, o consumo médio de energia primária deverá cair 16% até 2030 e entre 20% e 22% até 2035. Pelo menos 55% dessa redução terá de vir dos imóveis com pior desempenho.
A consequência para o mercado é direta: fachadas, isolamento, janelas, bombas de calor, ventilação, automação e geração solar passam a movimentar uma cadeia tão importante quanto a construção de prédios novos.

China: retração imobiliária e modernização caminham juntas
A China já não vive o ciclo de expansão imobiliária que sustentou sua construção durante décadas. No primeiro semestre de 2026, o investimento em desenvolvimento imobiliário caiu 18%. A área vendida de novos imóveis comerciais recuou 11,6%, enquanto o valor das vendas diminuiu 13,6%, conforme o Escritório Nacional de Estatísticas da China.
Em julho, o índice de atividade da construção ficou em 47 pontos. Números abaixo de 50 indicam retração. Mesmo assim, a expectativa empresarial permaneceu acima dessa linha, em 51,8 pontos, segundo a pesquisa oficial chinesa.
A desaceleração não interrompeu a transformação tecnológica. Em 2024, os projetos pré-fabricados em construção somaram 672 milhões de metros quadrados e representaram mais de 30% dos novos edifícios. Quase 98% da área construída naquele ano atendeu aos padrões chineses de edifícios verdes. Até junho de 2025, o país já havia emitido mais de 10 mil certificados de materiais verdes, de acordo com um documento oficial do governo chinês.
O novo plano climático chinês, divulgado em julho de 2026, determina que todos os edifícios urbanos novos atendam aos padrões verdes. Também incentiva construções pré-fabricadas, edifícios de consumo ultrabaixo, integração de painéis fotovoltaicos às construções e renovação do estoque existente. A meta é reduzir em 3% as emissões diretas de carbono por unidade de área construída entre 2026 e 2030, segundo o Ministério de Ecologia e Meio Ambiente da China.

Menos clínquer, mais argila calcinada
Entre os materiais que avançam em 2026 está o cimento produzido com menor quantidade de clínquer, componente responsável pela maior parte das emissões do processo tradicional. Argila calcinada, escória, pozolanas e fíler calcário substituem uma parcela do clínquer sem eliminar a função estrutural do cimento.
A Holcim informa que a utilização de argila calcinada pode reduzir pela metade a pegada de carbono do cimento, dependendo da formulação. A empresa instalou unidades na França e na República Tcheca e pretende produzir um milhão de toneladas de cimento com argila calcinada em 2026. Os números são metas e estimativas divulgadas pela própria fabricante em seu levantamento de inovações para a construção em 2026.
O Brasil parte de uma posição relativamente favorável. A indústria nacional registra aproximadamente 580 quilos de CO₂ por tonelada de cimento, abaixo da média mundial estimada em 610 quilos. O roteiro brasileiro de neutralidade climática prevê ampliar adições, combustíveis alternativos, eficiência energética, eletrificação e captura de carbono até 2050, segundo a Associação Brasileira de Cimento Portland.

Capturar carbono sem mudar a função do cimento
Em Brevik, na Noruega, entrou em funcionamento a primeira instalação industrial de captura de carbono integrada a uma fábrica de cimento. A unidade pode capturar cerca de 400 mil toneladas de CO₂ por ano, equivalentes a aproximadamente metade das emissões da fábrica. O gás é liquefeito, transportado e armazenado permanentemente sob o Mar do Norte, segundo a Heidelberg Materials.
A tecnologia mostra que é possível reduzir emissões do cimento que não desaparecem apenas com eficiência ou substituição de matérias-primas. Também expõe uma limitação: o projeto dependeu de infraestrutura específica, transporte marítimo e forte apoio público. Portanto, ainda não é uma solução que possa ser simplesmente replicada em qualquer fábrica.
Outra frente é o biochar, material rico em carbono obtido pelo tratamento térmico de resíduos orgânicos (como restos agrícolas e madeira) sem oxigênio. Ele funciona como um condicionador de solo de longa duração, retém água e nutrientes essenciais, e captura carbono da atmosfera para ajudar no combate às mudanças climáticas. Ele pode ser incorporado a concretos e argamassas, armazenando parte do carbono biogênico no produto.
Em Londres, um concreto-piloto com biochar apresentou, segundo a Holcim, potencial de aquecimento global negativo de 14 quilos de CO₂ equivalente por metro cúbico nas etapas de produção. Ainda se trata de uma aplicação inicial, dependente de disponibilidade de biomassa, controle de qualidade e comprovação em escala.

O prédio como banco de materiais
Resíduos de construção e demolição representam mais de um terço de todos os resíduos produzidos na União Europeia. Embora muitos países apresentem taxas elevadas de recuperação, boa parte do material ainda termina em usos de menor valor, como enchimentos e bases rodoviárias, segundo a Agência Europeia do Ambiente.
Novos sistemas de britagem procuram separar o agregado da pasta de cimento aderida. Isso permite produzir agregados reciclados mais limpos e reaproveitar a fração cimentícia em novos produtos. A diferença está em reciclar concreto como insumo para outro concreto, e não apenas triturá-lo para pavimentação.
O problema também é expressivo no Brasil. O Panorama dos Resíduos Sólidos estimou a geração de aproximadamente 44 milhões de toneladas de resíduos de construção e demolição em 2023, último dado consolidado disponível no levantamento da ABREMA.
Para melhorar o aproveitamento, a separação precisa começar no projeto e no canteiro. Concreto misturado com gesso, madeira, plástico, terra e material contaminado perde valor rapidamente. Edifícios desmontáveis, ligações reversíveis e cadastros digitais dos componentes transformam a demolição em uma futura fonte de matéria-prima.

Madeira engenheirada sobe de escala
A madeira laminada colada e os painéis de madeira laminada cruzada, conhecidos como CLT, permitem fabricar pilares, vigas, lajes e paredes estruturais com precisão industrial. As peças chegam cortadas ao canteiro e são montadas com menos operações úmidas.
Em Estocolmo, o projeto Stockholm Wood City ocupa uma área planejada de 250 mil metros quadrados, com cerca de 2 mil residências e espaços de trabalho para 7 mil pessoas. As obras começaram em 2024, segundo a Atrium Ljungberg, responsável pelo empreendimento.
O material reduz o peso da estrutura e o número de viagens de cargas pesadas. Entretanto, seu benefício ambiental depende da origem da madeira, do manejo florestal, da durabilidade e do destino dado às peças no fim da vida útil. Proteção contra umidade, projeto de incêndio, acústica e disponibilidade de seguros também interferem na adoção.

Industrialização sai da fábrica e entra no projeto
A construção industrializada não significa apenas produzir paredes ou banheiros fora do canteiro. Ela exige que arquitetura, estrutura, instalações, compras e montagem sejam planejadas em conjunto. O conceito DfMA — projeto para fabricação e montagem — busca reduzir cortes, adaptações e retrabalho.
A China ganhou escala nessa área porque combinou padronização, demanda urbana, capacidade fabril e políticas nacionais. O país também estabeleceu como objetivo elevar a receita anual da indústria de materiais verdes para mais de 300 bilhões de yuans, com crescimento médio superior a 10% entre 2024 e 2026, segundo o Conselho de Estado chinês.
No Brasil, o MDIC lançou em 2026 uma formação gratuita sobre construção industrializada, abrangendo DfMA, BIM, planejamento, produção e contratação. O programa mostra uma tentativa de preparar profissionais e fornecedores, conforme divulgado pelo Centro Brasileiro da Construção em Aço.
A expansão ainda esbarra em tributação, normas municipais, financiamento e falta de continuidade da demanda. Uma fábrica de módulos precisa de volume previsível; sem uma carteira de projetos, o custo fixo pode anular a economia obtida na montagem.

BIM e passaporte digital reduzem desperdício invisível
O BIM permite cruzar arquitetura, estrutura e instalações antes da execução. Conflitos entre tubulações, vigas e equipamentos podem ser identificados digitalmente, evitando quebra de paredes, compras extras e correções no canteiro.
A Estratégia BIM BR, regulamentada pelo Decreto nº 11.888/2024, prevê maior adoção em obras públicas, interoperabilidade entre sistemas e integração com a construção industrializada. A política considera todo o ciclo de vida, do planejamento à operação e à eventual desmontagem, de acordo com o MDIC.
Na União Europeia, o novo Regulamento de Produtos da Construção começou a ser aplicado de forma geral em janeiro de 2026. Ele cria a base para passaportes digitais com informações sobre desempenho, conformidade, segurança, uso e impactos ambientais. A implantação será gradual e dependerá das regras específicas de cada família de produto, explica a Comissão Europeia.
A mudança permite comparar materiais e calcular o carbono incorporado no edifício inteiro. Também facilita localizar peças que podem ser recuperadas durante uma reforma ou desmontagem.

Reformar pode economizar mais material do que construir “verde”
A Europa está tornando a renovação energética um mercado de massa. A China também informa que as reformas realizadas em edifícios públicos entre 2021 e 2025 melhoraram sua eficiência energética em aproximadamente 20%.
No Brasil, a Taxonomia Sustentável classifica retrofit, sistemas de eficiência, geração renovável no local, carregadores para veículos elétricos e soluções de água como atividades elegíveis. Entre os parâmetros previstos estão a redução de pelo menos 15% no consumo de água potável e o aproveitamento de fontes alternativas, conforme o Ministério da Fazenda.
Preservar uma estrutura existente pode evitar a fabricação de grandes quantidades de cimento e aço. Nem todo prédio deve ser mantido, mas demolir para construir outro com certificação ambiental não é automaticamente a opção de menor impacto.

O que o Brasil pode aproveitar
A experiência europeia mostra a importância de medir o desempenho do edifício, dar transparência aos materiais e transformar a reforma em política permanente. A China demonstra como padronização, formação profissional, compras públicas e escala industrial podem reduzir a distância entre o protótipo e o mercado.
O Brasil reúne uma indústria de cimento relativamente eficiente, capacidade de produção florestal, grandes volumes de resíduos reaproveitáveis e demanda por habitação e infraestrutura. O avanço depende menos de importar um sistema completo e mais de adaptar esses aprendizados: contratos compatíveis com BIM, componentes padronizados, rastreabilidade, projeto para desmontagem e financiamento para modernizar imóveis existentes.
Madeira engenheirada precisa de controle florestal e normas adequadas ao clima local. Captura de carbono requer infraestrutura e financiamento de longo prazo. Pré-fabricação depende de volume e logística. Materiais reciclados exigem demolição seletiva e especificações que lhes garantam mercado.
Em 2026, a obra mais avançada não é necessariamente aquela que usa o material mais exótico. É a que conhece a quantidade exata que precisa comprar, evita retrabalho, consome menos água e energia, prolonga a vida do edifício e consegue provar de onde vieram seus materiais — e para onde poderão ir depois.





