Blumenau olha para frente e aposta na tecnologia para desenhar seu futuro

Cidade reúne cerca de 300 empresas de software e TI e está no centro de uma região que responde por quase um quarto do faturamento da tecnologia catarinense.

Centro de Inovação de Blumenau | Foto: divulgação

Blumenau completou 176 anos na quarta-feira (2/09/26). A data naturalmente puxa histórias do passado, dos personagens que ajudaram a construir a cidade e das transformações de quase dois séculos. Mas existe outra Blumenau pedindo espaço nessa conversa. É a cidade que ainda está sendo construída.

E parte desse futuro passa por computadores, códigos, inteligência artificial, desenvolvimento de software e, principalmente, gente. Segundo dados da Blusoft, Blumenau tem aproximadamente 300 empresas ligadas aos setores de software e Tecnologia da Informação. Já o Secretário Municipal de Desenvolvimento, Walfredo Balistieri, confirmou que são mais de 2.300 empresas.

A cidade está inserida em um Vale Europeu que concentra cerca de 26,3% das empresas de tecnologia mapeadas em Santa Catarina. É a segunda principal força tecnológica do estado.

Quando a conta passa para o dinheiro movimentado, o peso continua grande. As empresas de tecnologia do Vale Europeu respondem por aproximadamente 23,9% do faturamento anual do setor em Santa Catarina, também conforme dados da entidade.

Só que empresas não formam um polo tecnológico sozinhas. É preciso encontrar profissionais, preparar gente para as vagas, aproximar instituições de ensino, empresários e poder público e fazer com que ideias e interesses que surgem em lugares diferentes acabem sentados à mesma mesa.

Há 34 anos, esse é justamente um dos espaços ocupados pela Blusoft — Polo Tecnológico de Informação e Comunicação da Região de Blumenau.

A entidade sem fins lucrativos reúne atualmente mais de 170 empresas associadas, distribuídas por diferentes municípios, segmentos e estágios de maturidade. O objetivo é fomentar o ecossistema de tecnologia do Vale Europeu e promover a região como um polo tecnológico de referência.

Na prática, isso passa pela geração de conexões, capacitação, inovação, treinamentos, recursos e eventos voltados ao desenvolvimento do setor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC).

Para Marcelo Sardagna, fundador e CEO da Tempo Certo, empresa que desenvolve soluções logísticas para gestão de pátio, o impacto dessa articulação vai além dos negócios. “A Blusoft é muito importante para o ecossistema de Blumenau porque promove, além dos encontros, pautas relevantes para o nosso cenário empresarial no ramo de TI.”

Sardagna aponta especialmente para uma questão que acompanha qualquer cidade que pretende crescer como polo tecnológico: de onde virão os profissionais? “Uma das coisas que considero mais importantes é a coordenação de todos os programas de formação que a Blusoft tem, como o Entra21 e o +Devs2Blu, que trazem mão de obra para o nosso setor.”

Os dois programas já contribuíram para a capacitação de mais de 9 mil pessoas, ajudando a aproximar talentos das oportunidades existentes no mercado de tecnologia.

O Entra21 nasceu em 2005 justamente diante da necessidade de ampliar a oferta de mão de obra qualificada para o setor. O +Devs2Blu, por sua vez, é uma iniciativa da Prefeitura de Blumenau, com apoio da Blusoft e de empresas parceiras, destinada à capacitação de profissionais que já possuem algum nível de experiência.

Para Sardagna, essa formação produz efeitos que escapam das paredes das empresas. “Além de ser um benefício para todos os atores do ecossistema de inovação e tecnologia, é muito importante também para a parte social, de formação de pessoas, acadêmica, institucional e profissionalizante”, afirma.

Essa mistura entre formação, mercado e articulação também aparece na avaliação de Rodrigo Hülsenbeck, CEO da Premiersoft. A empresa atua com alocação de profissionais, squads especializados, desenvolvimento de software personalizado, suporte AMS, inteligência artificial e consultoria. “Para uma região que tem a tecnologia como uma de suas grandes vocações, ter uma instituição capaz de articular e fortalecer esse ecossistema é fundamental.”

Hülsenbeck diz que a Premiersoft procura participar e apoiar essas iniciativas justamente porque o resultado não fica restrito a uma única companhia. “Nós, como Premiersoft, fazemos questão de apoiar essas iniciativas e estar presentes nessas construções, porque entendemos que um ecossistema forte beneficia todo o mercado.”

É uma lógica que ajuda a explicar o peso que a tecnologia ganhou no Vale Europeu. Empresas, profissionais, instituições e poder público acabam fazendo parte de uma mesma engrenagem, cada um com seu papel. “É essa atuação conjunta que ajuda Blumenau a se consolidar cada vez mais como um dos principais polos de tecnologia do país”, destaca Hülsenbeck.

Para Cesar Griebeler, presidente da Blusoft, pensar no crescimento tecnológico de Blumenau exige olhar além do número de empresas instaladas na cidade. “O crescimento de um polo tecnológico não acontece apenas a partir das empresas. É necessário criar um ambiente em que conhecimento, talentos, negócios e instituições possam se encontrar.”

Aos 176 anos, Blumenau tem muita história para contar. Mas, para uma cidade que fez da tecnologia uma de suas grandes vocações, talvez a pergunta mais interessante agora não seja apenas como ela chegou até aqui.

É quem — e o que — está construindo os próximos anos. “A Blusoft tem justamente esse papel de fomentar essas conexões e contribuir para que o desenvolvimento aconteça de forma coletiva”, finaliza Griebeler.

Grupo ProWay

A trajetória do Grupo ProWay, fundado em Blumenau em 1995, acompanha a transformação tecnológica da cidade. Sérgio José Tomio criou a empresa quando computadores e novas ferramentas começavam a mudar a rotina das empresas. O movimento também passava pela indústria têxtil, que mantinha grandes estruturas de processamento de dados. Com as mudanças no setor, parte desses profissionais saiu das fábricas e abriu negócios de tecnologia.

A formação de mão de obra virou outro desafio. Nesse ambiente, a ProWay participou do Entra21, iniciativa que aproximou jovens do mercado e formou gratuitamente milhares de programadores. Tomio liderou o programa durante 18 anos e avalia que ações desse tipo, junto à articulação da Blusoft, contribuíram para diversificar a economia e consolidar empresas de tecnologia em Blumenau.

Agora, Tomio participa da articulação do Distrito de Inovação de Blumenau. Inspirado no 22@Barcelona, o projeto prevê uma área de aproximadamente 200 hectares na região central e a participação de governo, empresas, academia e sociedade civil. “O Distrito de Inovação não é uma coisa tecnológica. Ele precisa envolver também as empresas tradicionais.” A proposta avançou em 2026 e tem perspectiva de R$ 60 milhões em investimentos do Governo do Estado.


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