O aviso foi dado com números na mão e tom direto: o El Niño vem aí, e desta vez com força. Em coletiva de imprensa realizada na manhã desta terça-feira (19/05/26), no Salão Nobre da Prefeitura de Blumenau, meteorologistas da Secretaria de Proteção e Defesa Civil apresentaram as previsões para os próximos meses — e o cenário não deixa muito espaço para otimismo.
A probabilidade de configuração do fenômeno já a partir do trimestre maio/junho/julho está em 82%, segundo a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration Home), o órgão americano que monitora esse tipo de coisa. No decorrer da primavera, esse número sobe para 98%. Traduzindo: o El Niño não é mais uma possibilidade, é praticamente certo. A dúvida agora é só sobre a intensidade.
E aí está o ponto que mais preocupa. Quando a anomalia de temperatura na região do Pacífico Equatorial ultrapassa 2 graus, o fenômeno é classificado como “super El Niño”. Vários modelos climáticos — incluindo os da Universidade de Columbia (USA) e de outros centros de referência mundial — já indicam que esse limiar deve ser atingido entre outubro e dezembro, justamente o pico da primavera. Mais de 60% de chance de ser um episódio forte ou muito forte.
Para Blumenau, isso significa chuvas acima da média a partir de junho — quando o volume esperado normalmente gira em torno de 115 mm — e um agravamento progressivo até o fim do ano. Setembro já entra com mínimo esperado de 128 mm, outubro com algo em torno de 170 mm, e esses números tendem a ser ainda maiores com o El Niño no pico. Durante a primavera toda, os modelos apontam para um excedente de 150 a 200 mm acima do climatologicamente esperado.

Um detalhe que os meteorologistas foram enfáticos em explicar: saber que vai chover mais não significa conseguir prever quando essa chuva vai cair. Se o volume se distribuir ao longo do mês, o impacto é bem diferente do que se vier concentrado em uma ou duas semanas. Essa é exatamente a limitação dos modelos climáticos de longo prazo — eles mostram o quanto, mas não o quando. Por isso a Defesa Civil não cansa de dizer: acompanhem os canais oficiais, porque o alerta preciso só vem com dias ou poucas semanas de antecedência.
Vale entender também por que o inverno assusta mesmo com menos volume total. Em janeiro, que é o mês que mais chove em Blumenau, o que cai são aquelas trovoadas de fim de tarde — intensas, mas localizadas. No inverno, as frentes frias, ciclones e sistemas de baixa pressão trazem chuvas mais abrangentes, que não ficam só no litoral ou no perímetro urbano: atingem o alto Vale e toda a bacia do rio, o que pressiona o nível da água de forma diferente.
O que a história ensina
Não é a primeira vez que Blumenau enfrenta esse tipo de cenário. Os registros mostram 102 enchentes no município, a maioria delas entre maio e novembro — exatamente o período de maior influência de sistemas meteorológicos vindos do sul. E o El Niño aparece em vários dos episódios mais graves.
Em 1982 e 1983, o último super El Niño registrado até então deixou a cidade debaixo d’água por cerca de 30 dias. Quatro enchentes em um só ano. Em 1984, já no enfraquecimento do fenômeno — tecnicamente em situação de neutralidade —, o rio chegou a 15 metros. Em 2015, outro El Niño forte e novamente uma marca de 10 metros.
O comparativo com 2023 é o mais recente na memória de todo mundo. Com um El Niño de intensidade forte — anomalia de 1,5 grau —, foram seis enchentes em 45 dias, a máxima chegando a 10,76 metros. E depois, em maio de 2024, já no enfraquecimento do fenômeno, mais uma enchente de quase 9 metros. Ou seja: mesmo quando o El Niño começar a enfraquecer em 2027, a região sul ainda vai sentir os efeitos.
Mas os técnicos foram cuidadosos em um ponto: o El Niño sozinho não causa desastre. O que aconteceu no Rio Grande do Sul em 2024, com quase 700 mm em uma semana, foi resultado de uma combinação de fatores — o fenômeno, bloqueios atmosféricos, oscilação Madden-Julian, frentes frias. “É como uma refeição”, explicou um dos meteorologistas. “Precisa de vários ingredientes juntos.” O El Niño aumenta o risco. Não é garantia de catástrofe.
E 2008 e 2011 estão ali como lembrete: foram anos de La Niña — o fenômeno oposto — e ainda assim Blumenau teve enchentes grandes e muitos deslizamentos. Em janeiro de 2025, com La Niña ainda presente, 140 mm caíram em apenas 20 horas e a cidade registrou vários deslizamentos. A equipe de meteorologia monitora o tempo independente do fenômeno em vigor — El Niño, La Niña ou neutralidade, o trabalho é o mesmo.
O que a prefeitura está fazendo
O prefeito Egidio Ferrari apresentou o conjunto de ações que a gestão vem desenvolvendo desde o início do mandato. Os cinco diques estão em pleno funcionamento e receberam mais de R$ 12,5 milhões em investimentos — só no Dique da Fortaleza, o número de bombas passou de duas para quatro, com gerador instalado para funcionar mesmo sem energia elétrica. Os outros diques também passaram por reforços e são testados com frequência.
Pelo Programa Rio Seguro, em parceria com o governo do estado, chegaram R$ 9,7 milhões para limpeza e desassoreamento de rios e ribeirões — o programa ainda aguarda os trâmites administrativos para liberação formal dos recursos e início das obras. Enquanto isso, a força-tarefa já executou mais de 12 km de limpeza de ribeirões, desobstruiu mais de 16 km de tubulações e limpou mais de mil caixas coletoras. Os serviços continuam avançando.
São 59 abrigos mapeados, com 400 kits de emergência prontos — cada um com colchão, manta, toalha, travesseiro e itens de higiene. Os abrigos também estão preparados para receber animais de estimação, com a Diretoria de Bem-Estar Animal já envolvida. A Secretaria de Inclusão está mapeando famílias com pessoas com deficiência ou dificuldade de locomoção para garantir atendimento diferenciado. Como o prefeito resumiu: “Aqui ninguém fica para trás.”
Há ainda um pacote de obras com recurso federal para vias afetadas em 2023. O pedido foi feito na época, as tratativas levaram tempo, e o recurso acaba de ser liberado. As ações administrativas estão sendo implementadas agora.
O secretário de Defesa Civil, Carlos Menestrina, detalhou três cenários possíveis. O primeiro seria um El Niño “puro”, sem combinação com outros fenômenos — o menos preocupante. O segundo seria um El Niño com chuvas bem distribuídas ao longo dos meses — também administrável. O terceiro, e o mais temido, é o volume se concentrar em uma ou duas semanas. “Esse é nosso grande desafio”, disse. Como ainda não é possível saber qual cenário vai se confirmar, as duas palavras de ordem são atenção e preparação.
Menestrina também listou os três grandes desafios climáticos do município: as enchentes — para as quais existe monitoramento e previsão de nível do rio já consolidado —, as enxurradas localizadas, e os deslizamentos. Esse último é o que mais preocupa. “Cada região do município tem a sua particularidade. Não conseguimos prever exatamente onde vai acontecer”, disse. A Defesa Civil tem mapeados todos os locais suscetíveis, mas isso não elimina a imprevisibilidade de quando e onde um talude vai ceder.
A prefeitura também trabalha em um decreto de emergência climática municipal, seguindo o exemplo do governo do estado, que já tomou essa medida.
O que melhorou desde 2023
A Defesa Civil aproveitou a coletiva para mostrar o que evoluiu. Em 2022, a diretoria de meteorologia iniciou um curso de capacitação com o professor Ademar Cordeiro, da FURB. Ironicamente, as enchentes de 2023 viraram aula prática. O curso foi concluído em maio de 2024 — logo depois de mais uma enchente.
Na parte tecnológica, a aquisição de um novo supercomputador permitiu ampliar de um para três os modelos meteorológicos rodando simultaneamente, todos com resolução de 4 km. Isso significa mais conta de previsão sendo feita a cada quatro quilômetros da região. Os dados de radar chegam mais rápido, e os modelos globais rodam com maior frequência.
A rede AlertaBlu, que opera 17 estações de monitoramento desde 2014, atualizou sua frequência de transmissão: os dados que antes chegavam a cada 15 minutos passaram a ser enviados a cada 5 — e há projeto em andamento para chegar a 1 minuto. O sistema de alertas por Cell Broadcast (mensagem por SMS), que não precisa de cadastro prévio e funciona para qualquer celular dentro do polígono delimitado, foi acionado cerca de 10 vezes só em 2026 desde que entrou em operação consolidada em janeiro de 2025. As cotas de enchente também estão sendo atualizadas — as tabelas anteriores eram referência de 2011 e a cidade cresceu muito desde lá.
GRAC planeja simulado para julho
Logo após a coletiva, o Grupo de Ações Coordenadas (GRAC) realizou sua reunião bimestral no próprio Salão Nobre. O assunto principal foi o simulado da Defesa Civil, marcado dentro da programação do Julho Laranja. O treino vai acontecer no Distrito da Vila Itoupava e vai testar os protocolos de resposta das entidades que compõem o grupo.
A mensagem geral da manhã foi de preparação sem alarmismo. O cenário pode ser grave. Pode também ser mais brando do que os modelos sugerem. O que a prefeitura quer deixar claro é que está trabalhando para o pior cenário possível — e que a população precisa fazer a sua parte: limpar bueiros e calhas, não mexer em encostas sem profissional habilitado, e ficar de olho nos canais oficiais enquanto os meses chegam.
https://youtu.be/PdVwoU_Eu18?si=KbJgZFkF4nPECSv5










