Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos, e TV brasileira perde um de seus maiores contadores de histórias

Criador de novelas como Pantanal, O Rei do Gado e Terra Nostra, dramaturgo morreu em São Paulo após complicações de insuficiência renal crônica.

Ilustrado por OBlumenauense a partir de uma foto da TV Globo

O berrante ecoando pelo Pantanal. As brigas entre as famílias Mezenga e Berdinazzi em O Rei do Gado. O amor interrompido de Matteo e Giuliana logo na chegada ao Brasil em Terra Nostra. Ou a força de José Inocêncio em Renascer. Talvez você não lembre ou saiba, mas todas essas histórias nasceram da mente criativa de Benedito Ruy Barbosa.

O dramaturgo e escritor morreu aos 95 anos nesta terça-feira (7/07/26), em São Paulo (SP), em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor). Em janeiro deste ano, ele já tinha ficado 19 dias internado para tratar uma infecção urinária associada ao quadro de saúde que o levou ao óbito.

O corpo será velado nesta terça-feira, das 15h às 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, região central de São Paulo. Entre 15h e 16h, a cerimônia será aberta ao público.

Ao longo da carreira, Benedito fez do interior brasileiro muito mais do que cenário. Transformou rios, fazendas, cafezais, plantações e pequenas cidades em personagens das próprias histórias. Também levou para a televisão temas como imigração italiana, conflitos pela terra, diferenças entre gerações e romances que atravessavam décadas.

Nascido em Gália, no interior de São Paulo, em 1931, Benedito cresceu em Vera Cruz, região cercada por cafezais e marcada pela presença de imigrantes japoneses e italianos. O ambiente que conheceu ainda menino acabaria servindo de inspiração para boa parte de sua obra.

A vida, porém, começou longe da televisão. Depois da morte precoce do pai, precisou trabalhar para ajudar a sustentar a família. Foi auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro antes de conseguir emprego como revisor no jornal Estado de S. Paulo.

A escrita apareceu primeiro na literatura. Seu romance Fogo Frio foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. O reconhecimento abriu caminho para uma carreira como roteirista.

A estreia na TV aconteceu em 1966, com Somos Todos Irmãos, na TV Tupi. Depois vieram trabalhos na Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, escreveu Meu Pedacinho de Chão, exibida em parceria entre a Cultura e a Globo.

Alguns anos depois, contratado pela Globo, adaptou Cabocla (1979) e consolidou espaço na dramaturgia. Mas foi em 1990, na TV Manchete, que mudaria a história da televisão brasileira.

Com Pantanal, apostou em gravações em locações externas e colocou a natureza no centro da narrativa. O sucesso foi tão grande que a novela virou um marco da dramaturgia nacional.

O retorno à Globo trouxe novos sucessos. Vieram Renascer (1993), O Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999), novelas que uniram dramas familiares, disputas por terra, imigração e personagens movidos por valores que o próprio autor definia como de “bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos”.

Benedito também voltou a revisitar a própria obra. Em 2006 e 2014, escreveu as novas versões de Sinhá Moça e Meu Pedacinho de Chão. Sobre esta última, disse que finalmente conseguia colocar na tela ideias que haviam sido barradas pela censura durante a ditadura militar.

Seu último trabalho inédito foi Velho Chico, em 2016, ambientada na fictícia Grotas do São Francisco. Décadas depois de criar suas histórias, duas delas, Pantanal e Renascer, ganharam novas versões assinadas por seu neto, Bruno Luperi.

Benedito Ruy Barbosa deixa personagens que atravessaram gerações. E prova que, às vezes, uma boa história é capaz de fazer um país inteiro se lembrar de um lugar onde nunca viveu.


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