Menos de um dia após o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) confirmar, por unanimidade, a continuidade da recuperação judicial da Teka, a direção da companhia já tratava o resultado como um ponto de virada.
Durante uma coletiva de imprensa online realizada na manhã desta quarta-feira (10/06/26), o diretor-presidente da empresa, Rogério Aparecido Marques, falou sobre os próximos passos da indústria têxtil que completa 100 anos em 2026 e detalhou os planos para os próximos meses.
Segundo o executivo, a decisão da 2ª Câmara de Direito Comercial do TJSC trouxe segurança jurídica para trabalhadores, fornecedores, clientes e credores. O colegiado decidiu por 3 votos a 0 afastar a falência decretada em primeira instância e manter a recuperação judicial da companhia. A análise levou em consideração, entre outros fatores, um relatório da consultoria Grant Thornton, que concluiu que a empresa possui condições operacionais e financeiras para continuar suas atividades.
Apesar da comemoração, Marques explicou que o processo ainda não chegou ao fim. A decisão não transitou em julgado e ainda cabe recurso. Com o julgamento desta semana, o caso retorna ao juiz responsável pela recuperação judicial, que deverá analisar o relatório da auditoria e dar continuidade ao processo.
Enquanto a discussão jurídica segue seu curso, a empresa tenta avançar em outra frente considerada prioritária: os pagamentos trabalhistas. De acordo com o CEO, cerca de R$ 18 milhões que estão depositados judicialmente poderão ser liberados nos próximos dias para iniciar o pagamento de trabalhadores contemplados em um acordo homologado pelos Tribunais Regionais do Trabalho de Santa Catarina e São Paulo. O acordo envolve aproximadamente R$ 70 milhões.
Marques afirmou que a Teka já deposita R$ 500 mil mensais para essa finalidade desde dezembro de 2025. Somados, os aportes já ultrapassam R$ 3 milhões. Além disso, imóveis considerados não operacionais foram vinculados ao acordo trabalhista. Um deles já foi vendido e outros estão em fase avançada de negociação. Durante a coletiva, o executivo revelou que um imóvel localizado em Blumenau foi negociado por cerca de R$ 12 milhões para ajudar a financiar os pagamentos.
Outro passo aguardado pela empresa é a realização da assembleia geral de credores. Segundo Marques, o encontro nunca ocorreu em quase 14 anos de recuperação judicial. A expectativa da companhia é convocar a assembleia nas próximas semanas para discutir o plano de recuperação protocolado em dezembro de 2025.
A Teka também aproveitou a coletiva para apresentar números da operação atual. A empresa informou que investiu cerca de R$ 37,5 milhões na modernização das unidades de Blumenau e Artur Nogueira (SP). Mais de 90% dos novos equipamentos já estão em funcionamento e a etapa final das instalações deve ser concluída ainda neste mês.
Na unidade paulista, os investimentos resultaram em um aumento de 44% na capacidade produtiva, com a instalação de teares de última geração e uma linha automatizada de confecção. Já em Blumenau, o foco esteve na melhoria da qualidade dos produtos e na eficiência dos processos de beneficiamento e confecção.
Os investimentos, segundo o CEO, não param por aí. A empresa pretende adquirir novos equipamentos para ampliar a produtividade e modernizar sistemas internos de gestão. “Não estamos remendando o passado, mas reequipando a empresa para competir na próxima década”, afirmou.
A estratégia de crescimento também passa pela expansão comercial. Nesta quarta-feira, a Teka inaugurou uma nova loja de 220 metros quadrados no Outlet Premium de Itupeva, interior de São Paulo. Desde janeiro, a marca operava no local em uma estrutura menor. A aposta é transformar a unidade em uma vitrine da força da marca junto aos consumidores.
O comércio eletrônico é outro canal que vem ganhando importância. De acordo com Marques, o e-commerce lançado neste ano tem apresentado crescimento acelerado e já se tornou relevante para os resultados da companhia.
A empresa também estruturou uma nova operação logística. A Teka Trading, criada para concentrar a distribuição dos produtos fabricados em Blumenau e Artur Nogueira, opera a partir de um centro de distribuição no interior paulista. Com isso, a companhia passou a realizar entregas próprias em um raio de até 200 quilômetros, buscando reduzir custos e acelerar o atendimento aos clientes.
Outro mercado que passa a receber atenção especial é o hospitalar. Segundo o CEO, a empresa já está homologada em duas das maiores redes hospitalares privadas do país. A expectativa é que os primeiros resultados apareçam no segundo semestre, período que tradicionalmente também registra aumento da demanda dos setores de hotelaria e produtos profissionais.
A projeção da companhia é encerrar 2026 com faturamento superior a R$ 550 milhões. Em 2025, a receita ficou em R$ 476 milhões. O número atual é tratado pela direção como conservador. Isso porque a empresa decidiu reduzir a dependência de produtos importados e concentrar esforços na comercialização da própria produção, especialmente em linhas de maior valor agregado.
Segundo Marques, a mudança ocorreu após a alta dos custos logísticos internacionais e o aumento nos preços de matérias-primas como algodão e poliéster. A companhia entende que crescer com produtos próprios e margens maiores é mais sustentável do que buscar volume a qualquer custo.
O executivo também abordou a situação financeira da empresa. Ele afirmou que o passivo apresentado nos balanços ainda não reflete renegociações em andamento. Um dos principais exemplos é a dívida tributária federal, atualmente próxima de R$ 2,3 bilhões. Segundo a empresa, a negociação com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional poderá reduzir esse valor em mais de 90%, utilizando mecanismos previstos na legislação. Além disso, a companhia sustenta possuir créditos reconhecidos judicialmente que superariam o saldo remanescente dessa dívida.
No ano em que celebra um século de história, a Teka tenta virar a página de um dos períodos mais turbulentos de sua trajetória. Com a recuperação judicial mantida, investimentos em andamento, negociações avançando e novos mercados sendo explorados, a direção aposta que o futuro da companhia será construído muito mais dentro das fábricas e dos centros de distribuição do que nos tribunais.





