ANVISA avalia novas regras para canetas emagrecedoras no Brasil

Uso indiscriminado e mercado ilegal motivam medidas e alertas de especialistas.

Foto: Caroline Morais [Ministério da Saúde]

A busca por emagrecimento rápido e controle da glicose impulsionou o uso das chamadas canetas emagrecedoras no Brasil. Diante desse cenário, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) discute uma proposta de instrução normativa com regras técnicas para esses medicamentos, conhecidos como agonistas do receptor GLP-1.

Esses produtos incluem substâncias como semaglutida, tirzepatida e liraglutida e só podem ser adquiridos com receita médica. Ainda assim, a popularização ampliou o uso indiscriminado e fortaleceu o mercado ilegal, incluindo versões manipuladas sem autorização.

Para conter os riscos, a Anvisa intensificou ações de fiscalização e criou grupos de trabalho para reforçar o controle sanitário. Neste mês, a agência também firmou uma carta de intenção com o Conselho Federal de Medicina, o Conselho Federal de Odontologia e o Conselho Federal de Farmácia para promover o uso seguro desses medicamentos.

“A ANVISA e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas”, informou a agência. O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Neuton Dornelas, avalia que os medicamentos representam um avanço importante no tratamento de obesidade e diabetes. “São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade”, informou à Agência Brasil.

Ele destaca que os benefícios incluem não apenas a perda de peso e o controle da glicose, mas também a redução do risco cardiovascular. Ao mesmo tempo, reforça que o uso sem acompanhamento médico é preocupante e pode trazer consequências.

Dados da Anvisa mostram que, apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos para manipulação desses medicamentos. O volume seria suficiente para a produção de cerca de 20 milhões de doses, número considerado elevado em relação ao mercado nacional.

Além disso, 1,3 milhão de medicamentos foram apreendidos por irregularidades, envolvendo problemas como transporte e armazenamento. “Isso é estarrecedor. É assustador”, afirmou Dornelas, ao alertar sobre o consumo de produtos sem registro ou de origem desconhecida.

O especialista também mencionou que o consumo desenfreado tem relação com o mercado paralelo e apoiou a decisão da Anvisa de reter receitas desses medicamentos em farmácias desde junho do ano passado. Ele defende ainda a possibilidade de suspender temporariamente a manipulação dessas substâncias.

“Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade”, disse.

Os medicamentos atuam em três frentes principais: controle da glicose, aumento da saciedade por meio do retardo do esvaziamento gástrico e ação no cérebro para reduzir o apetite. Esse conjunto de mecanismos contribui para a redução da ingestão de alimentos e perda de peso.

Em termos de resultados, a semaglutida pode levar a uma perda média de cerca de 15% do peso corporal, enquanto a tirzepatida pode alcançar índices entre 22% e 25%, variando conforme o paciente, a dose e o acompanhamento profissional.

Mesmo com os benefícios, efeitos colaterais são possíveis, principalmente náuseas, vômitos e sintomas gastrointestinais. Em geral, esses sintomas não ocorrem em todos os pacientes e podem variar de intensidade.

Casos mais graves também vêm sendo observados, como pancreatite. No Brasil, a doença já registra cerca de 40 mil internações por ano e costuma estar associada ao consumo excessivo de álcool ou à presença de cálculos na vesícula.

Segundo o especialista, o uso desses medicamentos pode favorecer a formação de cálculos biliares ao retardar o esvaziamento gástrico, aumentando, em alguns casos, o risco de pancreatite. A dor abdominal intensa, especialmente na parte superior do abdômen, é apontada como principal sinal de alerta.

Para reduzir riscos, especialistas indicam quatro pilares: uso de medicamentos registrados, prescrição e acompanhamento médico, compra em farmácias confiáveis e respeito às doses indicadas. Entre 60% e 70% dos pacientes não apresentam efeitos colaterais, segundo o médico.

Mesmo diante de resultados expressivos, o alerta permanece: o uso dessas substâncias sem orientação adequada pode transformar um tratamento promissor em risco real à saúde.

Com informações da Agência Brasil


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