A poucos quilômetros do litoral catarinense, um pequeno grupo de mamíferos segue sobrevivendo isolado entre pedras, vegetação e mar aberto. São menos de 50 indivíduos vivendo nas Ilhas Moleques do Sul, dentro do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. O cenário parece remoto. E é justamente isso que mantém a espécie viva.
O preá-de-moleques-do-sul (Cavia intermedia), descendente da Cavia magna, carrega um título raro até para os padrões da ciência: é a espécie com a menor distribuição geográfica do planeta. Vive apenas naquele arquipélago, considerado um dos ambientes mais frágeis de Santa Catarina.
O arquipélago está situado a 8,25 quilômetros da ponta sul de Florianópolis e a 14 quilômetros da Praia da Ponta do Papagaio, em Palhoça. No Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina, a bióloga Luthiana Carbonell dos Santos acompanha de perto os esforços de conservação. Segundo ela, a raridade da espécie também trouxe um problema difícil de contornar.
“O preá-de-moleques-do-sul é uma espécie ameaçada de extinção e tem uma distribuição muito restrita. Ao longo da evolução, os indivíduos vêm cruzando entre si, o que reduz a variabilidade genética e confere pouca resiliência frente a impactos externos que possam ser levados para a ilha”, afirma.
Por causa dessa vulnerabilidade, o arquipélago foi classificado como Zona Intangível do parque. O desembarque sem autorização prévia do IMA é proibido. “A ilha é um verdadeiro extremo biológico; é admirável como um mamífero conseguiu evoluir e persistir por tanto tempo em um espaço tão pequeno, com recursos tão escassos”, ressalta Luthiana.
A fiscalização envolve a Marinha, a Polícia Ambiental e o IMA. Quem presenciar desembarque irregular nas Ilhas Moleques do Sul pode entrar em contato com a Polícia Militar Ambiental pelo telefone (48) 3365-4906.
A proteção do preá também depende de um esforço coletivo. A espécie possui um plano estadual de conservação coordenado pelo IMA e é prioridade nacional dentro do Plano Nacional para a Conservação dos Pequenos Mamíferos Florestais, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
“É um grande desafio por se tratar de uma área muito próxima ao continente. Por isso, levar o conhecimento científico à população é fundamental para que todos compreendam por que não se pode desembarcar na ilha e para que esse ecossistema possa ser admirado e preservado”, conclui a bióloga.
Mas o parque guarda outras raridades. O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro funciona como um laboratório natural onde novas descobertas continuam aparecendo.

Um exemplo é o Brachycephalus tabuleiro, conhecido como pingo-de-ouro-do-tabuleiro. O anfíbio foi descrito recentemente e recebeu o nome em homenagem à unidade de conservação. Para o biólogo Daniel de Araújo Costa, essas descobertas mostram que o parque ainda tem muito a revelar.
“Não temos apenas espécies exclusivas, mas também espécies com distribuição extremamente restrita. A descoberta desse novo anfíbio reforça que a unidade é um espaço de constante revelação científica e indica que ainda há muito a ser descoberto dentro do parque”, afirma Daniel.
Além da biodiversidade rara, o parque tem papel direto na vida de mais de um milhão de pessoas. Com 84.130 hectares, a unidade é a principal fonte de abastecimento hídrico da Grande Florianópolis e do Litoral Sul.
A preservação das bacias dos rios Cubatão, D’Una e Vale do Braço garante o fornecimento de água potável para a população.
Reconhecido pela UNESCO como Zona Núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, o parque é administrado pelo IMA e reúne ações com apoio da Polícia Militar Ambiental, Marinha do Brasil, Universidade Federal de Santa Catarina, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Instituto Tabuleiro.

Enquanto o movimento segue no continente, uma das espécies mais raras do planeta continua escondida em um pedaço isolado de Santa Catarina. Quieta. E dependente de distância para sobreviver.
Centro de Visitantes do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro
- Localização: Centro de Visitantes do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, Maciambu. O acesso é feito pela BR-101, no km 238.
- Funcionamento: de quarta a domingo, das 9h às 17h.
- Atividades: o centro oferece suporte aos visitantes por meio de palestras e acesso ao Eco Museu, com foco na conscientização sobre a importância dos recursos hídricos e da fauna protegida pela unidade de conservação.





