Aipim de terra preta avança rumo à IG e ganha força com dados científicos

Estudos apontam mais amido, compostos fenólicos e solo favorável como trunfos do produto de Itajaí.

O que se destaca primeiro no prato — a cremosidade e o sabor — agora ganha respaldo técnico. O aipim cultivado em solo turfoso de Itajaí avança no processo de Indicação Geográfica (IG), apoiado por estudos que confirmam diferenças relevantes em relação ao produto de outras regiões.

Pesquisas da Epagri/Ciram e da Univali apontam que o aipim local tem maior teor médio de amido (38,13% contra 29,92%), além de mais umidade e lipídeos. O diferencial está no solo rico em matéria orgânica, em contraste com áreas de solo mineral em municípios como Navegantes e Luiz Alves.

Foto: Renata Rosa/Epagri

Também foi registrada maior concentração de compostos fenólicos — 0,601 mg contra 0,415 mg — substâncias ligadas à defesa da planta e associadas, na degustação, à cor e ao aroma.

A análise do solo revela outra vantagem: menor densidade aparente na terra preta, tanto na camada superficial (0,51 g/cm³ contra 1,34 g/cm³) quanto em profundidade (0,46 g/cm³ contra 1,23 g/cm³). Isso favorece o crescimento das raízes e facilita a colheita.

“Este tipo de solo mais soltinho promove um melhor desenvolvimento das raízes e facilita a vida do agricultor”, afirma o extensionista Antônio Henrique dos Santos, que iniciou a articulação pela IG após seminário na Alesc, em 2019.

A base histórica também sustenta a tese. Referências bibliográficas indicam o uso de solos turfosos no cultivo de hortaliças por descendentes de japoneses no Brasil desde a década de 1980. Em Itajaí, áreas como Rio Novo, Espinheiros e São Roque concentram esse tipo de solo.

O processo envolve Epagri, Univali, Sebrae, prefeitura e a Cooperar. Ao final, o dossiê será submetido ao INPI na categoria Denominação de Origem, que exige comprovação rigorosa da relação entre produto e território.

Novas análises estão previstas para o segundo semestre, incluindo estudos cromatográficos e mapeamento por drones para identificar áreas e teor de carbono do solo. A proposta é aprofundar a conexão entre características do aipim e o ambiente de produção.

Na prática, o diferencial já é reconhecido. “Na Bahia é muito comum a gente comer aipim, mas acho o de Itajaí melhor, é mais macio e muito cremoso”, diz a nutricionista Mabel Gomes Dias Lago.

Na cozinha profissional, a versatilidade também chama atenção. “Ele cozinha mais rápido, tem uma textura super macia e um sabor de cereais”, afirma o chef Carlos Silva, que já utilizou o ingrediente em pratos salgados e até sorvete.

Entre laboratório, lavoura e cozinha, o aipim de terra preta consolida um ativo regional que pode transformar ciência em valor — e origem em diferencial competitivo.

Foto: Renata Rosa/Epagri
Foto: Renata Rosa/Epagri

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