“A saúde pública exige planejamento contínuo e respostas rápidas”, afirma secretário Douglas Rafael de Souza

Um ano de gestão: números históricos na dengue, novo hospital universitário em funcionamento e desafios estruturais.

Douglas Rafael de Souza, secretário de Promoção da Saúde de Blumenau | Foto: divulgação

Na manhã de terça-feira (3/02/26), o secretário de Promoção da Saúde de Blumenau, Douglas Rafael de Souza, concedeu uma entrevista por telefone ao portal OBlumenauense. Ele assumiu a pasta em janeiro de 2025 com a posse do prefeito Egídio Ferrari.

Com quase 23 anos de atuação na área da saúde, o gestor falou sobre sua trajetória profissional, os principais desafios da pasta, o funcionamento do Hospital Universitário da FURB, a estrutura da rede hospitalar do município, a situação do quadro médico e os entraves estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS).

Trajetória profissional e vínculo com Blumenau

Douglas Rafael de Souza é blumenauense, nasceu, cresceu e estudou na cidade. Todo o ensino fundamental e a graduação foram realizados em Blumenau. As especializações e o MBA em administração de clínicas e hospitais foram concluídos pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Atualmente, aos 39 anos, acumula quase 23 anos de experiência na área da saúde, com atuação voltada principalmente à gestão de serviços.

Iniciou a carreira em grandes hospitais do município, com passagem de mais de 15 anos pelo Hospital Santa Catarina (atual Hospital Unimed), além de atuação no Hospital Santo Antônio. Antes de assumir a Secretaria de Promoção da Saúde, trabalhou na gerência regional do Governo do Estado, sendo responsável pela contratualização, habilitações e regulação de leitos de alta complexidade em 53 municípios do Médio e Alto Vale do Itajaí.

 

Douglas Rafael de Souza, secretário de Promoção da Saúde de Blumenau | Foto: Giovanni Silva [SECOM/BNU]
Influência familiar na escolha pela área da saúde

Embora seja formado em Direito, Douglas explica que sua ligação com a saúde começou antes mesmo da graduação. Segundo ele, a escolha pela área foi fortemente influenciada pelo ambiente familiar. O pai é bombeiro militar, a mãe atuou como auxiliar de enfermagem e a esposa é enfermeira.

De acordo com o secretário, a formação em Direito surgiu da necessidade de compreender legislações, portarias e normas que regem o setor da saúde, especialmente no ambiente hospitalar. Após a graduação, direcionou sua qualificação para a gestão em saúde, com cursos voltados à administração hospitalar, relacionamento com pacientes e organização de serviços.

A saúde como sistema cíclico

Durante a entrevista, Douglas destacou que os serviços de saúde funcionam de forma cíclica ao longo do ano. No início de 2025, o principal desafio enfrentado pela gestão foi o combate à dengue. Segundo ele, a atuação envolveu poder público, imprensa e população.

Blumenau não registrou óbitos por dengue em 2025, diferente do ano anterior, quando 39 morreram com a doença. O número de casos também apresentou redução significativa: 411 confirmados. Na sequência, o município enfrentou o período de aumento das doenças respiratórias, com intensificação das campanhas de vacinação e fortalecimento da rede hospitalar.

Segundo Douglas, Blumenau conseguiu atender sua população e ainda absorver pacientes de municípios vizinhos, atuando como referência regional, graças ao planejamento preventivo e à organização da rede de saúde.

 

Foto: Giovanni Silva / Prefeitura de Blumenau

Hospital Universitário da FURB

O secretário destacou a importância do Hospital Universitário da FURB, que entrou em funcionamento no final de 2025. Apesar de a estrutura existir desde 2012, a unidade nunca havia operado efetivamente como hospital.

Segundo ele, a ativação do hospital representa a inauguração de uma nova unidade hospitalar em Blumenau após cerca de 100 anos. Localizado na região norte da cidade, área que apresenta crescimento populacional acelerado, a unidade é para contribuir no desafogar dos hospitais Santo Antônio e Santa Isabel.

O atendimento ocorre de forma gradativa. A estimativa inicial de cerca de 5 mil atendimentos mensais ainda não foi atingida, mas, conforme o secretário, os números atuais atendem à expectativa e à demanda existente. A gestão prevê crescimento progressivo, conforme a unidade se consolide junto à população.

Além disso, a Secretaria de Promoção da Saúde pretende ampliar a inserção do hospital em programas de redução de filas, fortalecendo a rede municipal.

 

Foto: Marlise Cardoso Jensen [OBlumenauense]
Hospitais Santo Antônio, Santa Isabel e Misericórdia

Douglas também comentou os investimentos no Hospital Santo Antônio, realizados em parceria com o Governo do Estado. As obras incluem a construção de uma nova torre e ampliação de serviços, com investimento estimado em cerca de R$ 98 milhões. Afinal, o hospital atende não apenas Blumenau, mas a macrorregião.

Sobre o Hospital Santa Isabel, o secretário afirmou que houve aproximação da atual gestão com a administração da unidade. Segundo ele, dificuldades financeiras relatadas em anos anteriores deixaram de ser pauta recorrente, e o hospital segue fortalecido como referência em diversas especialidades, incluindo transplantes em nível nacional.

O Hospital Misericórdia foi citado como parceiro importante, especialmente em atendimentos cirúrgicos, consultas e saúde mental. A secretaria avalia integrar a unidade à Rede de Urgência e Emergência, com a instalação de tomógrafo e reforço médico no pronto atendimento, o que permitirá descentralizar atendimentos de emergência em determinadas regiões da cidade.

 

Foto: Studio Roman [via Canvas]
Quadro médico e rotatividade

Questionado sobre a falta de médicos, Douglas afirmou que essa não é a realidade de Blumenau. Segundo ele, apenas em 2025 foram contratados mais de 50 médicos, resultando em um preenchimento superior a 95% do quadro funcional da Secretaria de Promoção da Saúde.

A pasta conta com cerca de 2.600 servidores, sendo a segunda maior do município. O secretário explica que há rotatividade natural, principalmente no início do ano, quando médicos deixam os cargos para ingressar em residências e especializações.

Para reduzir impactos, a secretaria mantém equipes itinerantes, processos seletivos e concursos em aberto, além de investir em tecnologia, como salas de teleconsulta nas unidades de saúde. Em situações de ausência médica, enfermeiros realizam triagem e podem encaminhar pacientes para teleatendimento ou outras unidades, conforme protocolos técnicos.

Principais desafios da gestão em saúde

Douglas apontou que o maior desafio estrutural do Sistema Único de Saúde é a defasagem da tabela de procedimentos. Ele citou a tabela *SIGTAP, que define, por exemplo, o valor de R$ 10 por consulta médica, valor considerado insuficiente para cobrir os custos reais do atendimento.

Segundo o secretário, essa defasagem obriga os municípios a complementarem os recursos e dificulta a ampliação de serviços, como mutirões e programas de redução de filas. Ele destacou que a revisão da tabela depende de decisões em nível federal.

Entre os desafios locais, o secretário citou a saída de imóveis alugados, melhorias na infraestrutura das unidades, ampliação de programas de redução de filas e o enfrentamento contínuo de doenças sazonais, como dengue e doenças respiratórias.

Prioridades para 2026

Para 2026, a Secretaria de Promoção da Saúde definiu três áreas prioritárias: saúde mental, ortopedia e cirurgia geral. Segundo Douglas, os dados apontam alta demanda nesses setores, exigindo ampliação de atendimentos e programas específicos.

Sem deixar de lado a atenção primária, a gestão mantém foco na prevenção de doenças crônicas, como diabetes e problemas cardiovasculares, além do cuidado com pacientes atípicos e da implantação de linhas de cuidado e planos terapêuticos.

Monitoramento da “gripe K”

Durante a entrevista, o secretário esclareceu informações sobre a chamada “gripe K”, que gerou preocupação no início de 2026. Segundo ele, não se trata de um vírus novo, mas de uma variação genética conhecida do Influenza A (H3N2).

Os casos suspeitos registrados no Brasil ocorreram principalmente nas regiões Norte e Nordeste e foram discutidos em reuniões da Comissão Intergestores Bipartite (CIB), com participação da Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina.

De acordo com Douglas, os estudos indicam que a transmissibilidade dessa variante é significativamente menor do que a observada durante a pandemia da Covid-19. Ainda assim, o monitoramento segue ativo, com acompanhamento permanente da rede estadual e municipal de saúde.

 

Foto: Marcelo Martins

Mudanças no atendimento do SAMU

A Prefeitura de Blumenau informou que a adoção de um modelo de gestão compartilhada do SAMU já foi finalizado e tem como objetivo melhorar o atendimento e garantir sustentabilidade financeira. Atualmente, o serviço opera com três equipes e enfrenta dificuldades na manutenção de viaturas e na gestão de insumos, com custo mensal de cerca de R$ 503,7 mil.

Pelo novo modelo, a empresa contratada assumiria frota, manutenção e estrutura, enquanto o município manteria a fiscalização, com custo estimado entre R$ 350 mil e R$ 422 mil mensais, gerando economia que seria reinvestida na saúde. A administração afirma que não haverá desligamento de servidores e que a mudança permitirá ampliar a capacidade do serviço, incluindo a implantação de uma quarta equipe.

* SIGTAP (Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS)


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